A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Desta vez, o Espalha-Factos traz-vos a história de uma carreira que tem marcado esta época mas que ainda está para ter o devido reconhecimento. Edward Thomas Hardy, mais conhecido pelo grande público como Tom Hardy, é um ator britânico de 36 anos.

Ainda relativamente desconhecido pelas audiências mais mainstream, este homem é, não obstante, um dos maiores talentos a trabalhar atualmente na indústria cinematográfica. No entanto, a jornada até se encontrar enquanto ser humano e enquanto artista não foi um mar de rosas.

Tido como irreverente e desordeiro desde criança, Hardy tentou concentrar-se entrando no Drama Centre em Londres, em 1998, desistindo da mesma em 2001, após a sua participação na série Irmãos de Armas, de Steven Spielberg. No mesmo ano esteve presente no filme de guerra Cercados, de Ridley Scott.

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Participou em algumas produções menores, em 2003, como dot the i e Simon: An English Legionnaire, mas foi com o papel do maquiavélico imperador Shinzon em Star Trek: Nemesis, que o ator ganhou uma exposição internacional mais considerável.

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E embora a cara começasse a ser conhecida, o espírito tornava-se desconhecido: até para os que lhe chamavam família. A delinquência da juventude tinha-se transportado para a idade adulta, tendo os problemas com alcoolismo, cocaína e crack ditado o final do casamento do jovem Tom em 2004. A eventual reabilitação serviu os seus propósitos e, segundo o próprio, mantêm-no sóbrio até hoje.

Continuando a trabalhar em várias frentes artísticas, o britânico aumentou o seu currículo com papéis em séries televisivas como The Virgin Queen e Oliver Twist, em peças de teatro como In Arabia We’d All Be Kings e numa dúzia de produções cinematográficas, entra as quais Layer Cake – Crime Organizado, onde ombreou com Daniel Craig, e Marie Antoinette, da realizadora Sofia Coppola.

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A maioria dos críticos reconheceram-lhe o talento após ter protagonizado Stuart: Uma Vida ao Contrário. No papel de um sem-abrigo, violento, toxicodependente e debilitado, Hardy criou um retrato comovente e realista, que, em muitos aspetos, era apenas uma extensão de si próprio. Foi nomeado para o seu primeiro BAFTA para melhor ator, mas o verdadeiro prémio surgiria na forma de novos e aliciantes projetos.

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O ano de 2008 foi um dos mais produtivos da sua carreira: para além de entrar no filme de Malcolm Martin, Sucker Punch (não confundir com o psicadélico filme homónimo de Zack Snyder) e em RocknRolla: A Quadrilha, do britânico Guy Ritchie, Tom Hardy teve aquela que muitos críticos ainda defendem como sendo a sua melhor performance de sempre.

Em Bronson, do dinamarquês Nicolas Winding Refn, Hardy personificou o “prisioneiro mais temido da Grã-Bretanha” Michael Peterson (de nome artístico Charles Bronson). Sem cabelo e com um porte físico totalmente alterado, o ator deu o corpo e a alma por esta sua representação, traduzindo-se num dos desempenhos mais física e psicologicamente perturbadores dos últimos 20 anos. Revelando dotes artísticos, humorísticos, poéticos e de combate na mesma personagem, é inacreditável o desconhecimento que ainda existe em relação, não só à sua criação, como também ao filme em si.

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Num ano em que o mundo só falava no Joker de Heath Ledger, esta é, talvez, a única performance que lhe iguala o nível de empenho e transmite ao público o êxtase quase palpável do ator por estar a desempenhar o seu papel.

Sendo que em 2009 só participou no filme Parceiros no Crime com Antonio Banderas e Morgan Freeman, e com a sua futura mulher Charlotte Riley na produção televisiva Wuthering Heights, Hardy foi exposto no ano seguinte a Hollywood num dos maiores (e melhores) blockbusters de sempre.

Em A Origem, do realizador Christopher Nolan, o ator britânico esteve lado a lado com grandes talentos como Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard e Michael Caine: e no entanto conseguiu sobressair com naturalidade e muito charme à mistura.

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O seu desempenho valeu-lhe o prémio BAFTA para Estrela em Ascensão: uma formalidade, uma vez que a sua carreira estava num crescendo há vários anos.

No filme A Toupeira, contracenou pela primeira vez com o seu grande herói: o multifacetado Gary Oldman, de quem admite ter “…roubado tudo o que alguma vez fiz. Em Bronson e em Stuart, a minha performance era eu a tentar emular o que o Gary já tinha feito!”

Seguiram-se os filmes Guerra é Guerra, Dos Homens Sem Lei (onde voltou a contracenar com Oldman) e Warrior- Combate de Irmãos, onde desempenhou o papel de um lutador de mixed-martial arts em constante conflito com o mundo. O seu desempenho intenso e fisicamente exigente serviu como prova de que não tinha sido escolhido aleatoriamente para o seu próximo e mais conhecido papel.

Em O Cavaleiro das Trevas Renasce, Tom usa uma nova máscara: não a de toxicodependente, não a de lutador, nem a de mercenário ou de artista bipolar, mas a de vilão. Embora a sua performance como Bane tenha sido polarizadora (muito por causa da voz), retirou as dúvidas a quem duvidava do seu potencial e talento: o facto de não poder utilizar mais de metade da cara para representar dá-lhe ainda mais credibilidade. “Roubando” muitas cenas a Christian Bale e a Gary Oldman (outra vez!) instalou-se finalmente enquanto ícone de uma nova geração.

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Neste momento está nos cinemas Locke, o seu mais recente trabalho, tendo já sido apontado como um dos melhores filmes do ano, e uma das melhores performances masculinas dos últimos tempos.

E quanto ao futuro? Uma breve pesquisa previne-nos que este homem ainda só mostrou a ponta do icebergue dos seus talentos: está marcado para trabalhar com DiCaprio e o realizador Alejandro Gonzáles Iñárritu em The Revenant, para ressuscitar o lendário Mad Max em maio de 2015, desempenhar um duplo papel de gémeos gangsters em The Legend e vestir a pele de Elton John no biópico Rocket Man.

Motivo de inveja para muitos e de adoração para outros, Tom Hardy é o clássico exemplo de que não interessa onde estamos ou de onde viemos: “não devemos ter medo de sonhar em grande.”