"Hollywood, tens cá disto?": Tabu (2012)

“Hollywood, tens cá disto?”: A Culpa (1981)

Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

O maestro, compositor e pianista António Victorino d’Almeida é também uma das figuras mais mediáticas da televisão portuguesa, tendo apresentado e conduzido diversos programas que se dedicaram à divulgação da cultura e, mais propriamente, da música erudita, em “aulas” que se tornaram num marco para gerações de espectadores. Mas o talento de Victorino d’Almeida espalha-se também noutras vertentes: escreve romances (o mais popular é o primeiro, Coca-Cola Killer) e ainda deu um saltinho para o Cinema, realizando o seu próprio filme: A Culpa, uma das sátiras mais divertidas do Cinema Português – mas infelizmente, uma das menos vistas e divulgadas (nunca houve uma edição para home video, e raramente foi exibida na televisão), apesar de ter sido uma fita premiada (recebeu grandes elogios no Festival Iberoamericano do cinema de Huelva e ainda passou pela Berlinale).

A história é também da sua autoria, tal como a lindíssima e complexa banda sonora que acompanha cada uma das pequenas situações que são contadas nesta comédia bizarra e totalmente surreal. Tem também um toque de tragédia, e mesmo de terror (algo que possa parecer, à partida, despropositado para o resto da narrativa, mas tem a sua simbologia). Mas o propósito do realizador, com o seu humor afiado, obsceno, irreverente e anárquico, é dar uma visão crítica e humorística alargada sobre o espírito de Portugal e dos portugueses no ano anterior à Revolução dos Cravos.

Mas não é tanto um retrato político como é um retrato social, grotesco, incongruente, mas hilariante, sobre a condição de se ser português. Victorino d’Almeida critica vários tipos de “portugalite” (a “doença” característica do nosso povo, revelada por Miguel Esteves Cardoso numa das mais conhecidas crónicas de A Causa das Coisas), juntando um elenco soberbo de atores que se cruzam entre vários géneros cinematográficos e várias sátiras distintas, mas igualmente inteligentes e cativantes. Alguns diálogos estão mais bem conseguidos do que outros, é certo, mas não há dúvida que qualquer uma das pequenas vinhetas contadas – que acabam por formar um mosaico muito bem construído e detalhado – possui elementos que provocarão pequenas e grandes gargalhadas nos espectadores.

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Mas lá está, A Culpa não é “só” comédia: as histórias e personagens cruzam-se numa série de peripécias que refletem os problemas de uma nação e de uma forma de estar em sociedade, que acaba por ser tão atual em ditadura como em democracia. O lado cómico acaba por assumir uma dupla face: a de se tratar, também, de uma profunda e muito negra retrospetiva ao que de mais comum e, também, invulgar, há nos portugueses.

Quando o filme acaba, sentimos o peso dos risos e dos sorrisos, mas também do murro no estômago que nos deixa o desfecho da colisão de histórias, opiniões, personalidades e estratos sociais. Em vários pontos da trama se discute, afinal, quem é que é o culpado de uma determinada situação. A conclusão a que chegamos é a de que, lá no fundo, e mesmo havendo responsáveis por cada crime (mais ou menos violento) que ocorre na pátria… ninguém quer ficar com as culpas de nada. E isto não deixa de ser preocupante, e dramático – é uma atitude que prevalece e que continua a ser o pão nosso de cada dia.

Genial e brilhante, mesmo que seja por vezes incongruente e despropositado, A Culpa é outra daquelas pérolas escondidas do Cinema português, e um filme que continua a estar ligada à nossa forma de ser e estar no mundo, para o bem e para o mal. António Victorino d’Almeida é um realizador cuidado, atento ao pormenor e ao timing necessário para cada piada e reflexão resultar, da melhor maneira, na linguagem cinematográfica. Começou aqui a sua carreira na direção cinematográfica, e infelizmente, nunca mais voltou a exercê-la até hoje.

Ficha Técnica:

Realizador: António Victorino d’Almeida

Argumento: António Victorino d’Almeida

Elenco: Sinde Filipe, Mário Viegas, Rui MendesInês de Medeiros

Nota: 8/10

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