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Buraka Som Sistema: “Isto é Kuduro? Não, isto é Buraka.”

From Buraka to The World deu o mote para uma nova forma de estar na música que levou os Buraka Som Sistema a percorrerem os palcos e discotecas mais apetecidos da música de dança. Ao terceiro longa-duração, Buraka, que é editado esta semana, apresentam um registo coeso que mete várias culturas dentro dele. Pouco antes de ir para casa tratar do jantar, Conductor sentou-se connosco e falou um bocadinho deste trabalho.

Espalha-Factos (EF): O vosso som surgiu da Buraca para o mundo, mas agora parecem querer virar o mundo para a Buraca. Querem assumir aqui as vossas raízes culturais e artísticas?

Conductor (C): Este sentimento cultural que a gente traz, esta parte social de tentar representar aquilo que acontece em Lisboa, tantas culturas à volta de um país tão pequeno com apenas 10 milhões de pessoas, sempre foi o nosso mote e aquilo que nos moveu. Tentar por este movimento que existe aqui em Portugal no mundo, tentar que o mundo olhe para aqui e diga “isto é uma coisa com que eu me identifico, porque tem muito a ver comigo, mas ao mesmo tempo também não tem nada a ver comigo”.

EF: O que mudou desde então?

C: O que eu sinto mais que tudo é que depois de estarmos juntos há oito anos e depois do From Buraka to The World, que foi o kickstart de tudo, nós conhecemo-nos cada vez melhor uns aos outros e a forma de fazer música, de chegar a resultados, é muito mais refinada, muito mais apurada. Também existe uma certa maturidade na nossa forma de ver e de chegar a conclusões em relação à música que fazemos.

EF: O que é que distingue Buraka dos anteriores registos?

C: Nos discos anteriores nós tínhamos uma base de trabalho muito focada nos três produtores, tínhamos uma ideia e tínhamos de chegar até ao fim daquela ideia nem que isso implicasse termos de ir buscar fora pessoas para ela se concretizar. Acho que nestes oito anos acabámos por nos conhecer tão bem uns aos outros e conseguir explorar tão bem o talento uns dos outros que não faz sentido irmos buscar ninguém. Nós trabalhámos as dez músicas e temos só três convidados, que são pessoas que nós queremos apresentar ao mundo.

EF: Como conseguiram chegar aí?

C: Acho que foi importante nós termos feito concertos ao vivo e termos estado a cantar letras que outras pessoas fizeram, interpretarmos da nossa maneira aquilo que outros fizeram. Isso acabou por definir aquilo que nós próprios conseguimos fazer. Então não faz sentido estar a chamar alguém de Angola para vir fazer uma coisa que eu posso estar a fazer ou que o Kalaf pode estar a fazer. Isso acabou por definir este mote a que estamos a chegar que é muito mais coeso, muito maduro, muito mais de casa. Fomos nós que misturámos o disco, fomos nós que fizemos este som e que queríamos que soasse desta maneira. E também queríamos fugir dos géneros. Isto é Kuduro? Não, isto é Buraka. Uma coisa nossa. É feita aqui em Lisboa, é uma coisa feita aqui na nossa cidade.

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EF: Se compararem o panorama da música “de dança” quando começaram e na atualidade, quais é que acham que são as principais diferenças?

C: O que eu sinto é que o público em geral está um bocado cansado do mesmo e as coisas que são diferentes são as que têm um impacto maior nas pessoas. O que sinto é que musicalmente tem havido um despertar muito grande para estas periferias todas e para isto que está a acontecer fora dos sítios de sempre. Todos estes artistas grandes estão a sentir vontade de se reinterpretarem e de reapresentar a música deles e estão a ir beber destas fontes. Só que estas fontes são as que nós temos estado a beber estes anos todos. Então nós estamos praticamente na nossa praia com turistas a virem apanhar o mesmo sol que nós. Tem havido um boom muito grande com este impacto da EDM (eletronic dance music). É muito mais fácil vermos DJs a serem headliners nos festivais, o que era uma coisa totalmente impensável há uns anos atrás, em que as bandas eram o mais importante. Nós representamos 50-50 desses dois mundos porque temos um pé num e noutro. Mas de modo geral acho que a música esta a crescer muito bem.

EF: Como é que justificam essa vossa projeção, quando têm uma linguagem artística que não é acessível a todos?

C: Ao longo deste tempo vimos que existe um movimento igual ao nosso em vários países do mundo. Vamos chamar de global dance music, qualquer coisa assim, que é o Tuki, um bocado do Reggaeton, Moombahton, Bhangra, Bondoro, Kuduro, são tudo parte da mesma génese, da mesma base que é “aqueles jovens estão um bocado cansados do velhinho debaixo da bananeira e tentam recriar um bocado daquilo que os pais ouvem, um bocado daquilo que eles sentem que a música deve ser“. O resultado é este universo de global dance music.

EF: Mas como é que vingaram nesse ambiente?

C: Em primeiro lugar acho que nunca tivemos medo de arriscar e se nos tivéssemos de sentar na mesma sala com a Shakira ou com a Rihanna ou fosse quem fosse nunca ia ser uma coisa preocupante para nós. Em segundo lugar, nós trabalhamos mesmo muito. Nós não temos folgas há 8 anos e temos trabalhado sem parar. As nossas férias são à procura de coisas novas e o Off the Beaten Track espelha muito bem isso, por isso cada um de nós quando se senta na mesa para fazer um disco traz uma bagagem de coisas muito grande, temos sempre muito para mostrar e mais do que isso temos três produtores a refinar tudo e mais alguma coisa. Por último acho que nunca vimos a internet como um bicho de sete cabeças. Temos abaraçado todo esse universo de expansão da música. Myspace, soundcloud, spotify, beatport, uma pessoa abraça e vê como uma estratégia para expandir ainda mais. É inevitável que a música chegue a algum lado. Logicamente que tem de ser boa, ter algum valor para poder chegar longe.

EF: O videoclip de Stoopid (com a participação de Vhils) fez, literalmente, correr rios de tintas. Estavam à espera daquele impacto?

C: Nós já conhecemos o Vhils há muito tempo e já dizíamos, sem exagero, há uns sete anos que tínhamos de fazer um vídeo e a carreira dele também cresceu ao mesmo tempo que a nossa. Acho que o universo pop tem-se aproximado cada vez mais à nossa música, por isso quando chegamos aos sítios e dizemos que temos um disco novo tem havido um retorno muito grande das pessoas a mostrar interesse, a quererem saber o que vai sair de novo. E como o primeiro bebé a ver a luz foi o Stoopid acho que houve um feedback muito grande do trabalho. E para nós foi um prazer fazer o vídeo. Foi impecável e a Lisnave serviu perfeitamente.

EF: Que influências é que a vossa vida pessoal teve na concepção deste disco?

C: Fui pai há pouco tempo e isso exigiu, por parte de todos nós, uma gestão de tempo e uma gestão de dinâmica que acaba por se refletir em termos criativos. Se calhar há um tempo atrás eramos capazes de ir quatro ou cinco dias para o estúdio para fazer um tema e hoje em dia o que acontece é que o Riot avança uma parte em casa, o João avança uma parte em casa, eu gravo vozes em casa e vamos só duas ou três vezes ao estúdio fazer com que isso vá para algum lado e depois mais duas ou três vezes só para refinar aquilo que foi feito na primeira fase. A gestão de tempo e expectativas mudaram. Mas de um modo geral creio que foi bom para todos eu ter sido pai, o Rui ter sido pai, o João já é pai há um tempo… mas tem criado uma boa dinâmica, mais eficiente. O disco tem dez músicas e podia ter mais, mas nós queríamos que fosse uma coisa mais coesa, mais curta mas com energia suficiente para as pessoas quererem ouvir de novo do princípio.

EF: O que é que podemos esperar nos concertos de apresentação deste disco?

C: Vai ser espectacular. Estamos sempre a tentar fazer um upgrade daquilo que temos feito. Vamos apresentar temas do disco novo e estamos a trabalhar para trazer umas emoções novas mas não posso revelar porque o Alive vai ser a primeiríssima apresentação. Mas como sempre o vídeo muito dentro da dinâmica das músicas, as luzes a fazer um bom jogo e a música visualmente está cada vez melhor.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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