A rubrica “5” pretende trazer aos leitores cinco factos cinematográficos de 15 em 15 dias. Esta semana o Espalha-Factos pretende reflectir sobre o papel das sequelas, enunciando algumas das que conseguem mesmo demonstrar mais qualidade que os filmes que as antecederam.

Nos dias de hoje, observamos cada vez mais o fenómeno de diferentes sequelas que falharem em apresentar a mesma ambição que os seus filmes originais. Embora hajam excepções como as que pretendemos nomear, normalmente as sequelas no cinema representam desilusões para grande parte dos espectadores. Isto deve-se maioritariamente ao facto deste tipo de filmes ser demasiado previsível, tentando manter-se na zona de conforto criada pelo filme original, ou por tentar fazer algo novo, que no final se acaba por afastar bastante das expectativas do público.

Na maior parte dos casos , o público moderno é hoje caracterizado como incrivelmente emotivo e ainda mais predisposto para manifestar o seu agrado ou desagrado, especialmente como carácter emergente dos media sociais. É por isso que normalmente estamos habituados a observar más sequelas a serem rapidamente categorizadas e ridicularizadas nas redes sociais mas, simultaneamente, sabemos que boas sequelas são verdadeiramente veneradas pelo público, que as integra instantaneamente na cultura pop, tonando-as muitas vezes grandes influências para outros cineastas.

Esta lista pretende apresentar cinco exemplos de filmes que conseguiram ultrapassar o potencial daqueles que lhe serviram de ponto de partida, sendo também estes considerados excelentes obras de cinema e entretenimento.

ATENÇÃO: Esta lista contém spoilers.

Regresso ao Futuro II

back to the future

A série Regresso ao Futuro é uma das mais conhecidas do cinema de Hollywood e isso deveu-se em grande parte à concepção e execução da segunda parte da história de Marty McFly.

O grande sucesso de Regresso ao Futuro II está mais precisamente no facto como consegue ser a única sequela a voltar ao filme original, o que confere muita coerência à série. Neste segundo capítulo, Marty McFly visita o ano de 2015 e acaba por cometer um pequeno erro que toma proporções gigantescas no presente. Por isso, Marty junta-se mais uma vez ao Dr. Emmet Brown (mais conhecido como Doc) para voltar ao mesmo período de tempo do primeiro filme e poder enfim remediar o erro cometido no futuro, sem interferir com a ordem dos eventos.

O enredo é difícil de explicar em tão poucas palavras mas é também isso que torna o filme tão interessante de ver e descobrir. E embora seja discutível que este Regresso ao Futuro consiga suplantar o original, a verdade é que põe em prática uma óptima ideia, respeitando sempre o conceito da franchise. Mesmo não sendo um filme perfeito, brinda-nos com o desenvolvimento consistente dos personagens, a expansão do universo de Hill Valley e um argumento realmente inteligente.

A Noiva de Frankenstein

noiva de frankenstein

James Whale, realizador do primeiro filme de Frankenstein e outros clássicos do cinema de terror como O Homem Invisível, regressou ao universo do famoso monstro para presentear os espectadores com um dos seus melhores filmes, A Noiva de Frankenstein.

Sendo uma das maiores referências no género de terror, Frankenstein era um filme difícil de superar, até mesmo para o homem que o tinha levado ao grande ecrã. Mas a verdade é que o monstro regressa ao cinema melhor do que nunca.

Em primeiro lugar, o filme introduz-nos ao Dr. Pretorius, interpretado brilhantemente por Ernest Thesiger, um cientista louco que pretende influenciar o Dr. Frankenstein a voltar a trabalhar numa nova criação, nomeadamente uma companheira para o Monstro de Frankenstein. O maior trunfo do filme não está, no entanto, na noiva em si mas em todo o processo de construção da narrativa, que vai desde excelentes cenas de terror ao desenvolvimento de um factor humano no próprio monstro que protagoniza a fita.

Com excelentes interpretações, das quais se destaca a de Boris Karloff enquanto um Monstro de Frankenstein muito diferente do original, efeitos especiais absolutamente revolucionários para a época e uma adaptação bem original da obra de Mary Shelley, A Noiva de Frankenstein é não só uma grande sequela como também um dos melhore filmes de terror de sempre.

O Cavaleiro das Trevas

dark knight

O Cavaleiro das Trevas é um dos maiores exemplos daquilo que uma sequela pode e deve ser no cinema. Para além disso, é uma das melhores adaptações ao cinema de um personagem de banda desenhada já alguma vez feitas.

Christopher Nolan tinha realizado Batman – O Início em 2005, um projeto bastante ambicioso que tomava uma perspetiva única no universo do personagem da DC Comics. Em 2009 com O Cavaleiro das Trevas, o realizador britânico evidencia e desenvolve ainda mais as qualidades que já caracterizavam a sua película anterior.

O filme deu continuidade à história de Bruce Wayne, introduzindo um dos vilões mais memoráveis da banda desenhada que acabaria por se tornar num dos mais inesquecíveis no grande ecrã. O Joker de Heath Ledger foi indubitavelmente um dos factores que mais sucesso trouxe à película por corresponder a uma performance extraordinária e bastante compatível com a visão de Nolan para o filme.

O grande trunfo de Nolan está, porém, na construção de um argumento verdadeiramente distinto e uma realização original. O destaque vai para a forma como o realizador e argumentista consegue construir uma realidade tão fictícia quanto é a dos super-heróis mas, ao mesmo tempo, tão incrivelmente realista e compatível com o nosso tempo. O Cavaleiro das Trevas evoca política, terrorismo e outras grandes questões modernas e, simultaneamente, coloca as personagens a agirem como fossem mesmo qualquer um de nós. O realizador britânico procurou ainda maximizar este intuito com técnicas de filmagem revolucionárias como contratar centenas de figurantes para conferir maior realismo às cenas.

O Império Contra-Ataca

star wars empire strikes back

O quinto episódio da saga Star Wars e segundo título da série não poderia deixar de constar nesta lista. Em primeiro lugar por ser uma saga tão célebre na nossa cultura e em segundo lugar porque efectivamente o seu quinto episódio é um dos mais adorados e citados de sempre.

De facto, o filme realizado por Irving Kershner tem muito a seu favor para ser considerado o melhor da série. Introduz-nos a novas e míticas personagens como Lando Calrissian, Boba Fett e o fantástico Mestre Yoda, a cenários marcantes (especialmente Hoth) e a algumas das melhores interações entre personagens na série inteira. De igual forma, O Império Contra-Ataca tem uma das mais famosas cenas da história do cinema – o confronto final entre Darth Vader e Luke que culmina num verdadeiro clímax em que o vilão Vader confessa ser o pai do protagonista. Evidentemente este momento eleva a película a muito maiores proporções. Assim, o espectador acaba por sentir que passa pela mesma informação que os personagens e o número de questões que tem só o fazem ansiar mais uma sequela. Talvez seja essa a razão principal que faz O Império Contra-Ataca parecer tão fascinante; afinal de contas esta é a sequela que faz desejar mais e mais sequelas, o que é algo que nos dias de hoje é incrivelmente difícil de executar.

O Bom, O Mau e o Vilão

good bad and ugly

O Bom, O Mau e o Vilão é uma sequela de tal forma excelente que tende a ser vista na cultura pop como um filme completamente separado da trilogia de westerns de que faz realmente parte. De facto, se esta lista fosse substituída por um top, o épico western de Sergio Leone seria, muito possivelmente, seu o número 1.

Na verdade, O Bom, O Mau e o Vilão é o último filme da Trilogia dos Dólares do mítico realizador italiano. Neste terceiro título da série, três homens procuram uma fortuna de 200 mil dólares enterrados algures num distante cemitério. A divisa, embora simples, oferece mais alianças, traições, confrontos épicos e cenas espectaculares do que possa inicialmente parecer.

Para além disto, o filme conta ainda com performances absolutamente incríveis que inspiraram outras personagens igualmente famosas como o Inspector Harry (mais conhecido como Dirty Harry) de Clint Eastwood e ainda com uma banda sonora de luxo, composta por Enrio Morricone, cujo tema principal é um dos mais distintos e populares em toda a história do cinema.

Para concluir, resta pensar nesta sequela como uma das que teve maiores repercussões na na história do cinema. Poderá ser difícil de imaginar mas a verdade é que sem Sergio Leone, o estilo cinematográfico distinto de Quentin Tarantino seria, muito possivelmente, bastante diferente. De facto, os close-ups extremos que tanto caracterizam este género, as peculiares introduções aos personagens e as frases fantásticas do argumento são só algumas das muitas características que podemos enunciar sobre esta pièce de résistance de Sergio Leone.