Após um tempo de breve interregno, segunda edição da rubrica Passo a Passo com apresenta-te Vaslav Ninjinski, um dos maiores ícones da história da dança. Com uma técnica absolutamente perfeita, Ninjinski conquistou todos os palcos de ballet clássico, deixando a audiência arrebatada. Além de bailarino, Ninjinski foi coreógrafo de uma série de peças, tendo revolucionado o mundo da dança com a célebre obra A Sagração da Primavera, deixando o mote para a dança moderna.

Vaslav Ninjinski nasceu em 1889 ou 1890 em Kiev, no império russo. Filho de bailarinos circenses polacos, esteve, desde sempre, ligado à dança, entrando desde os 4 anos nos espetáculos dos seus pais. Aos 10 anos, o seu pai abandona-o e o jovem vai viver com a mãe e a irmã para a Rússia. Foi nessa altura que entrou para a Imperial Ballet School. Aos dezoito anos foi o par da bailarina Anna Pavlova e no ano seguinte, em 1909, viajou para Paris com a companhia Ballets Russes de Sergei Diaghilev, na qual obteve reconhecimento internacional.

Jovem Ninjinski

Nijinski e Diaghilev tiveram um relacionamento amoroso que acabou quando o bailarino se apaixonou por uma bailarina, Romola, com quem veio a casar e a ter duas filhas. Por esta altura o bailarino já era então coreógrafo das peças L’après-midi d’un faune, Jeux e Sagração da Primavera.

Nijinski sempre teve um temperamento muito instável, mas foi após o fracasso da Sagração da Primavera que se detetou as suas crises de esquizofrenia. Ele dizia possuir uma doença de espírito que o fazia ouvir Deus e dançar até à exaustão, mas o seu comportamento agressivo e incoerente forçaram a que fosse internado. No entanto, isso nunca o impediu de criar coreografias, poemas e até pinturas.

Considerado o deus da dança, Vaslav tinha uma técnica perfeita e uma expressão única, sentia realmente o que dançava – era esta a sua forma de expressão. Era em cima de um palco que se sentia bem. Vaslav era como uma dessas criaturas irresistíveis e indomáveis, como um tigre fugido da selva, capaz de nos aniquilar de um momento para outro”*

Ninjinski em L'après-midi d'un faune

Dançou pela última vez em público a 19 de janeiro de 1919, num hotel nos alpes suíços. Era uma peça que evocava os horrores da guerra que muito chocou o público: era uma “dança da vida contra a morte”. Após 30 anos internado num sanatório desde 10 de março de 1919, morre na cidade de Londres em 1950.

Coreografada por Vaslav NinjinskiSagração da Primavera é uma das obras mais mediáticas do mundo da dança. Foi apresentada pela primeira vez em Paris no Teatro dos Campos Elísios, pela companhia de ballet Ballets Russes com música de Igor Stravinsky.  Esta obra teve uma das piores estreias do mundo da dança, mas tornou-se uma referência mundial não só pela sua coreografia, mas também pela sua temática.

“O bailado de Nijinski não era selvagem nem divagante: era uma representação friamente racional de um mundo primitivo e irracionalmente alterado. (…) Nijinski investira todo o seu talento numa rutura com o passado, e o entusiasmo que ele (e Stravinsky) trabalhou no bailado era uma indicação da sua vontade feroz de inventar uma linguagem completamente nova para a dança. Foi isso que o motivou, e que tornou Le Sacre du Printemps o primeiro bailado verdadeiramente moderno.” **

Nijinsky em spectre de la rose

Ninjinski é o responsável pela mudança de perspetiva sobre o bailarino masculino que durante anos teve um papel secundário, como suporte das bailarinas. Ele era um performer sensual e o seu ar andrógena fascinava qualquer um.

Louco ou apenas um visionário futurista incompreendido? Talvez as duas coisas. O problema de Nijinski foi estar demasiado à frente para o tempo em que viveu. Os seus ideais foram postos de parte e nem sequer tidos em consideração, foi acusado de estragar a graciosidade e isso levou-o à decadência. O mediatismo criado à volta da sua Sagração e de outras peças mais ousadas foi de tal forma elevado que se tornou necessário retirá-lo do centro da contestação e isolá-lo. Inconscientemente, a mentalidade retrógrada e puritana do início do século XX acabou com uma carreira promissora e impediu que o ballet evoluísse durante uns tempos.

Vaslav Nijinsky i Siamesisk dans, 1910

Expressões retiradas das obras: Cadernos: o sentimento, de Vaslav Ninjinski, editora Assírio e Alvim, setembro de 2004 (*), Os anjos de Apolo, de Jennifer Homans, editora: edições 70, 2010 (**)