Santo António já se acabou, o São Pedro está-se a acabar, mas a cidade de Lisboa recebeu ontem uma enchente digna dos Santos Populares. De santo foi também a paciência de quem esperou horas intermináveis para entrar em muitas das salas de espetáculos, (ou que nem sequer conseguiu entrar). A primeira edição do NOS em Palco foi marcada por muita animação, mas pecou pela falta de organização.

NOS Em Palco Praça do Municipio

O formato já conhecido na cidade do Porto pela famigerada Optimus D’Bandada já estava prometido a Lisboa há bastante tempo, e foi sob a insígnia de NOS em Palco que finalmente chegou. “Um quilómetro, cinco horas, treze locais e trinta concertos” era a promessa desta iniciativa. Juntámos meia dúzia de amigos e lá partimos à aventura, já que há sempre uma Lisboa desconhecida que espera por nós (ou por NOS, se preferirem).

Por volta das oito e meia da noite, meia hora antes da hora prevista para o início dos espetáculos, a fila que se criava junto à Central Station, antigo edifício dos CTT, era já considerável para ver Capicua, a senhora do hip hop que abriria as hostilidades na sala que, provavelmente, mais público viu (mas já lá chegaremos).

Dançando ao pôr do sol

Depois de repetidas idas à Estação do Cais do Sodré para ir buscar os amigos que iam chegando, e de perder a conta às vezes que éramos abordados com um “desculpem, sabem-me dizer onde é que fica a Central Station?”, foi tempo de subir a rua até ao Largo de São Paulo (bem dita sejas, app do NOS em Palco com localização em tempo real) para ver os Best Youth.

Ainda com alguma luz do dia e com o Largo de São Paulo a ir sendo povoado aos poucos, o duo portuense entrou a pés juntos com três músicas novas do disco que sairá em outubro, e que só nos aguçaram ainda mais a curiosidade sobre o que nos esperará. Catarina Salinas e Ed Rocha Gonçalves fizeram-se acompanhar por um baterista e por um multi-instrumentista que se dividiu entre as teclas e o baixo, que já fazia falta à vertente de “music to make love” do duo mais sexy da música portuguesa.

No final das três primeiras músicas (ainda) desconhecidas, Ed cumprimentou o público lisboeta com um ar visivelmente satisfeito e um “boa noite, Lisboa, já estávamos a morrer de saudades vossas”. E nós a morrer de saudades vossas, Ed.

Foi então tempo para alguns temas mais conhecidos, como Shouts, Nice Face ou Hang Out. No final do concerto, que só pecou por ser curto, quarenta minutos, que mais pareceram dez ou não tivessem passado a correr, houve tempo para uma surpresa, com a qual, sinceramente, já estávamos a contar. O músico Moullinex subiu ao palco para tocar com a dupla In the Shade, o mais recente single da banda, no qual colaborou. Se esta música já não nos saía da cabeça desde que a ouvimos pela primeira vez, depois de a dançar ao pôr do sol ainda nos vai ficar mais na memória.

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Acabado o primeiro concerto foi tempo de decidir onde ir a seguir. As vontades dividiram-se entre quem queria permanecer no Largo de São Paulo para receber os You Can’t Win Charlie Brown e quem queria descer à Central Station para ver 5-30, o mais recente projeto de Carlos “Pacman” Nobre, Regula e Fred.

“Não me cheira que consigamos entrar em 5-30, confessámos, mas lá tentámos a nossa sorte. Ignorando a aplicação de smartphone e os mapas que nos haviam sido distribuídos, enganámo-nos na rua, mas lá chegámos à Central Station. Com o “chico-espertismo” português tentámos aproximar-nos da entrada, como tantas outras pessoas, mas fomos todos corridos a um “a fila é do lado esquerdo”. Deviam abrir uma excepçãozinha para quem só lá queria ir ouvir a Vício e vir-se embora, mas tudo bem.

Tu não podes vencer a fila gigante

Ainda tentámos procurar o fim da fila, mas esta dava literalmente a volta ao quarteirão. Até nos arriscamos a dizer que mais de metade daquelas pessoas não iria conseguir entrar. “Será que devíamos avisar estes jovens que não vão conseguir?” ainda ponderámos, mas a esperança é a última a morrer (a deles, pelo menos, parecia). Acabámos por regressar ao Largo de São Paulo para ver You Can’t Win Charlie Brown.

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Com bastante mais público do que Best Youth, os You Can’t Win Charlie Brown começaram o seu espetáculo com alguns problemas de som, mas rapidamente os resolveram e nos brindaram com uma sonoridade bem mais calma do que o que, certamente, se ouviria há mesma hora noutros palcos, fosse o hip-hop dos 5-30, a electrónica dos Voxels no lendário elevador da Bica, ou outras coisas que tais.

O indie folk dos You Can’t Win Charlie Brown, que sempre nos faz lembrar Fleet Foxes, foi música para os nossos ouvidos durante uma hora, ajudando a relaxar depois da azáfama de andar de um lado para o outro. Noiserv assume um papel de fundo neste projecto, mas nem por isso deixa de mostrar a sua faceta de homem dos sete (ou mais!) instrumentos a que já nos habituou. Entre temas fofinhos do seu mais recente Diffraction/Refraction, como Be My World ou After December, houve um ou outro tema mais agitado que nos fez dançar e até tecer comparações com a Paranoid Android dos Radiohead. “Epá, é que parece mesmo!”. Se calhar foi só impressão nossa, mas também pouco importa.

António Zambujo e amigos tinham a seu cargo a Praça do Município, onde infelizmente não conseguimos chegar. A fadista Ana Moura foi lá dar um ar da sua graça, tal como a voz invulgar de Luísa Sobral, com o seu já habitual blook de boneca. Para que não ficassem com saudades de dividir o palco (ainda na semana passada subiram como Os da Cidade no NOS Primavera Sound do Porto), Miguel Araújo foi ao encontro do amigo, ajudá-lo na árdua tarefa de manter um concerto por duas horas e meia. Houve também lugar para uma colaboração com o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento. O facto desta praça estar tão afastada do resto da zona dos concertos fez com que falhássemos este encontro de amigos em palco, ainda que com um certo arrependimento de não ter visto as várias colaborações, que tão bem devem ter resultado. António Zambujo há-de nos perdoar, oportunidades não faltarão de certeza!

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A partir das onze da noite as ruas ficaram cada vez mais cheias. Atravessar a Rua Nova do Carvalho (agora conhecida como “rua cor-de-rosa”) parecia uma missão impossível. “Puto, isto parece os Santos outra vez!” foi provavelmente das frases mais ouvidas nesta travessia pela multidão. O objectivo era chegar ao MusicBox, mas acabámos por ficar a meio caminho para ouvir (só ouvir, mesmo) Márcia na Pensão Amor.

Depois de uma espera considerável, lá conseguimos subir as escadas da Pensão Amor. A sala já se encontrava quase a abarrotar e apenas nos conseguimos escapulir para a lateral do palco, logo à entrada, ficando a escassos centímetros de Márcia, que antes de começar o espetáculo fazia de menina do Preço Certo, mostrando os seus discos, que se encontravam à venda e protagonizando um momento bastante bem humorado.

Estando num local de passagem com pessoas a tentar entrar atrás e à frente, tivemos o bom senso de sair para o hall de entrada, facilitando a passagem, evitando tendências claustrofóbicas, e ficando apenas a ouvir Márcia. Ouvimos então alguns temas do seu mais recente Casulo, mas também algumas pérolas antigas como Cabra-Cega, de uma das vozes mais doces, queridas e invulgares da música nacional.

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Enquanto ouvíamos Márcia na Pensão Amor, houve quem conseguisse, heroicamente, chegar ao MusicBox. Graças a Deus, o Espalha Factos conseguiu o dom da ubiquidade, não totalmente – ou não fosse humanamente impossível – mas de forma parcial.

Sambar na cara da ubiquidade

A força da multidão era tanta que, para uma miúda de pouco mais de metro e meio, foi difícil ter os pés no chão e conseguir andar. Habituada à D’Bandada e com garra de nortenha, com alguns “com licença” e ligeiros empurrões lá foi possível chegar à porta do MusicBox.

Do resto do pessoal amigo nem rasto, mas já que ali estava era hora de avançar sozinha. Olhando para a fila enorme, que se confundia com a do Europa, onde a electrónica de Octa Push e de Stereossauro reinava, imaginei uma sala a transbordar de gente a trepar pelas paredes.

Tendo em conta o panorama decidi fazer uso da credencial e, depois da implicância típica da senhora porteira do MusicBox, lá entrei. Por incrível que parecesse havia imenso espaço e furar até ao palco foi uma tarefa extremamente acessível. O entusiasmo era tanto que ninguém parecia reparar no atraso de quinze minutos de D’Alva. A banda entra e o MusicBox ficou ao rubro: estava na hora do concerto de estreia de Alex D’Alva Teixeira e o nervoso miudinho era notável. Num piscar de olhos, a dor de barriga passa com a entrada a pés juntos de Alex. “Vamos sambar pessoal, sambar na cara dessas inimigas!”. Um concerto que começa parafraseando Valesca Popozuda só podia ter tudo para correr bem.

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D’Alva é, sem sombra de dúvidas, um dos projectos nacionais com melhor prestação em palco. Sempre a dançar, exigindo “o rebolar até ao chão do baile funk”, toda a banda estava em harmonia com o público que não conseguiu parar quieto. Frescobol, LLS, Não estou a competir, Barulho (no qual esperava a intervenção de Capicua já que a rainha do hip hop português tinha tocado a poucos metros, poucas horas antes) e Homolgação foram algumas das músicas apresentadas no “Nus” em palco, como Alex dizia brincando, deixando a promessa por cumprir de que “se se portarem bem podem ver alguma pele”.

Surpreendendo muito pela positiva houve espaço para tudo: mosh, crowdsurfing, coreografias ensaiadas, coros sincronizados e baladas para os casais apaixonados que se puderam emocionar. Arrisco-me a dizer que foi o melhor concerto da noite, com um MusicBox que acabou cheio, transpirado e cansado de tanta caloria gasta neste concerto.

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Era preciso apanhar ar e, depois de muito procurar, lá se encontrou os amigos que, numa rua perto, só pediam para ir para casa.

Acusando a NOS de ter conseguido um belo flop, onde entrar nos concertos era impossível, aproveitaram o último metro para regressar. Mais uma vez sozinha no Cais do Sodré e só com três opções: Ana Claúdia no Velha Senhora, Nicotine’s Orchestra no Sabotage e Mirror People no MusicBox.

Lá me decidi pelo último, que agora estava praticamente vazio, mas com a mesma fila gigante. Mirror People também atrasou, começando cerca de trinta e cinco minutos depois da hora marcada. A electrónica extremamente dançável e convidativa de Rui Maia agradava a toda a gente: desde miúdos até alguns quarentões com cabeça para os beats mais psicadélicos, a reduzida massa de gente ia-se abanando e aplaudindo Mirror People que merecia uma maior audiência. Com um set de apenas quarenta minutos, Mirror People fechou a nossa noite no MusicBox num ambiente dark, luzes e lasers por tudo quanto é lado.

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Sexta-feira é dia de trabalho e os pés já gritavam por descanso. Era hora de correr para os autocarros, que graças ao piquenique do Continente foram obrigados a fazer um percurso diferente que irritava aqueles cujas paragens eram ignoradas.

Foi então tempo de regressar a casa, extenuados pela azáfama de andar de um lado para o outro e com a paciência esgotada nas filas intermináveis. De facto, numa próxima edição, a organização deveria escolher salas maiores e apostar mais nos espaços ao ar livre. Voltámos sem ter visto vários dos concertos que queríamos, mas cheios de recuerdos, qual Rock in Rio (mapas, fitas porta-chaves, fitas para o cabelo e até a senha de refeição da Press, da qual não conseguimos usufruir), e satisfeitos com o que conseguimos ver. Esperemos que as falhas de organização correspondam apenas a “erros de principiante” da debandada NOS em Palco em Lisboa. Se, para o ano, esta iniciativa continuar, NOS lá estaremos de certeza. Com ou sem acento agudo.

Joana AndradeBeatriz Vasconcelos