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‘Game of Thrones’. Um Lannister paga sempre as suas dívidas

Por muito que se justifique, não vale a pena entrarmos em estado depressivo ou insistir em discursos lamuriantes, nem adianta enviarmos cartas à HBO para que, por lá, fiquem a conhecer o nosso desespero: chegou mesmo ao fim mais uma temporada de Game of Thrones (A Guerra dos Tronos). E, infelizmente, não há nada que possamos fazer. Só nos resta mesmo conformarmo-nos.

Aviso: este artigo contém spoilers.

Há quatro temporadas que ouvimos constantemente dizer que um Lannister paga sempre as suas dívidas (“A Lannister always pays his debts.”). O presente episódio tratou de o confirmar: depois de uma vida inteira a receber uma quantidade considerável de desrespeito, ódio e rejeição da parte do pai, Tyrion (Peter Dinklage) decidiu finalmente proceder à retribuição – desta feita, numa moeda diferente –, saldando definitivamente a dívida que tinha para com Tywin (Charles Dance). Com isto, o rumo de toda a história irá mudar significativamente. Mais uma vez.

Este décimo e último capítulo da quarta temporada da série criada por David Benioff e D. B. Weiss, intitulado The Children, foi originalmente transmitido no domingo à noite, nos Estados Unidos da América, pela HBO; em Portugal, foi para o ar na terça-feira, no canal Syfy. Ainda não o viste? Desta vez, tens mais tempo.

Esta season finale foi completamente diferente das outras três que a série já apresenta no currículo. Em Game of Thrones, a última hora de uma temporada tem servido, sobretudo, para nos mostrar o aftermath dos acontecimentos do capítulo anterior – tendo em conta o facto de os nonos episódios serem sempre marcados por algo surpreendente e de consequências imprevisíveis. Desta vez, isso não se verificou, já que este décimo episódio teve a sua própria dose de cenas inesperadas e chocantes, que terão, sem sombra de dúvida, repercussões drásticas no futuro da trama da série.

De um modo geral, pode dizer-se que The Children, tal como o próprio título do episódio sugere, teve como foco principal as vicissitudes de algumas das relações parentais da série: Cersei Lannister (Lena Headey) e o pai Tywin, Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) e os seus dragões, Arya Stark (Maisie Williams) e o seu protetor Sandor Clegane (Rory McCann) e ainda, obviamente, os já referidos Tyrion e Tywin. Contudo, de uma forma mais direta, o nome do capítulo é também referente às pequenas criaturas introduzidas nas estranhas aventuras de Bran Stark (Isaac Hempstead-Wright) e companhia, conhecidas por Children of the Forest (Filhos da Floresta).

Colocando de parte quaisquer comparações com a saga de livros que serve de base à série (A Song of Ice and Fire – As Crónicas de Gelo e Fogo –, de George R. R. Martin) – já que esse nunca foi o objetivo destas reviews –, pode dizer-se que se tratou de um final de temporada sólido, repleto de cenas de ação e de momentos que trarão mudanças significativas ao rumo da história. Porém, a nível qualitativo, acabou por ficar aquém de alguns dos episódios da presente temporada – o que não quer dizer que não tenha sido excelente, já que estamos a falar de Game of Thrones.

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Descoberta do caminho marítimo para Braavos.

Passemos, então, a uma análise mais detalhada de The Children.

Para não variar, comecemos por abordar as ocorrências na Muralha (The Wall) e suas imediações, até porque o presente episódio principiou precisamente onde o anterior terminou: com Jon Snow (Kit Harington) a abandonar Castle Black (Castelo Negro), desarmado e desacompanhado, para ir ao encontro do Rei dos Wildlings (Povo Livre), Mance Rayder (Ciarán Hinds). O diálogo entre os dois foi bastante interessante, tendo até havido tempo para brindes em honra das mortes de Grenn (Mark Stanley), Ygritte (Rose Leslie) e do gigante Mag.

A forma como Mance aceitou o facto de Jon o ter enganado e traído – para além de estar com intenções de o assassinar na sua própria tenda – foi, aparentemente, impávida e até pacífica, o que pode causar alguma estranheza. Contudo, convém referir que, por esta altura, o Rei-para-lá-da-Muralha sabia que, apesar da derrota na batalha do dia anterior, continuava com larga vantagem sobre a Night’s Watch (Patrulha da Noite), cada vez com menos homens preparados para defender a Muralha. Porém, numa altura em que Mance propunha termos de paz a Jon Snow, eis que, de forma algo surpreendente, entra em cena Stannis Baratheon (Stephen Dillane).

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Se tivessem chegado um dia antes, é provável que Grenn e Pyp ainda estivessem vivos. Enfim.

Muitos fãs da série terão, certamente, ficado surpreendidos com o súbito aparecimento do Rei Stannis na Muralha. Contudo, os que prestaram especial atenção ao último episódio da temporada passada deverão estar recordados de que, nesse mesmo capítulo, a sacerdotisa Melisandre (Carice van Houten) viu nas suas chamas que a atual guerra pelo Trono de Ferro (Iron Throne) é insignificante, se comparada com o verdadeiro perigo que se tem vindo a erguer a norte da Muralha – referindo-se, presumivelmente, aos White Walkers (Outros) –, aconselhando Stannis a dirigir-se para lá. Desta forma, vimo-lo agora a seguir esse conselho, derrotando sem grande dificuldade o indisciplinado exército dos Wildlings de Mance Rayder, e tomando o controlo de Castle Black.

Foi interessante assistir à interação entre Jon e Stannis, que decidiu imediatamente confiar no jovem da Night’s Watch, mal tomou conhecimento de que o mesmo se trata do filho bastardo de Ned Stark, alguém por quem sempre nutriu um grande respeito. Assim, veremos se Mance, que acabou por ver a sua vida poupada – apesar de se ter recusado a ajoelhar perante o Rei –, terá ainda algum papel importante a desempenhar. Mais tarde, procedeu-se à cremação dos homens da Night’s Watch que pereceram na recente batalha pela Muralha, algo que deve ter sido do especial agrado de Melisandre, tão adepta de incinerações humanas. Adicionalmente, depois de um curto diálogo com o agora cativo Tormund (Kristofer Hivju), Jon decidiu também honrar Ygritte com uma pira funerária, construída no território da sua Wildling predileta, a norte da Muralha. Deveras sentimental.

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Ygritte, agora literalmente beijada pelo fogo.

Depois de uma ausência de quatro episódios, Bran, Hodor (Kristian Nairn), Jojen (Thomas Brodie-Sangster) e Meera (Ellie Kendrick) voltaram a marcar presença nesta season finale. Este é o enredo que menos associação parece ter com o resto da história, sendo que os mais recentes acontecimentos – ricos em elementos de fantasia pura – vieram apenas intensificar tal facto. Quando o pequeno grupo avistou, finalmente, a misteriosa árvore que Bran tem vindo a vislumbrar em sonhos há tanto tempo, a alegria não durou muito: num ápice, viram-se rodeados por dezenas de wights (humanos mortos e posteriormente reanimados por White Walkers), já sem qualquer carne a revestir-lhes os ossos.

Como tal, fomos brindados com um combate repleto de efeitos especiais – mais uma vez, de qualidade muito superior ao que é normal em televisão –, durante o qual Meera e Hodor – ‘controlado’ por Bran – se defenderam de forma acérrima e espetacular. Infelizmente, Jojen acabou por ser mortalmente ferido durante a curta batalha, o que levou a sua própria irmã a acabar-lhe rapidamente com o sofrimento. Apesar do bom trabalho de Thomas Brodie-Sangster no papel, Jojen nunca foi uma personagem especialmente cativante e, como tal, a sua morte acabou por não ter grande impacto.

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O quê? Uma personagem morreu em Game of Thrones? Não pode!

Como se o ataque de esqueletos magicamente ressuscitados não fosse suficiente, Bran, Hodor e Meera – e ainda o lobo gigante Summer (Verão) – acabaram, em última instância, por ser salvos por uma estranha e pequena criatura, de nome Leaf (Octavia Alexandru), capaz de lançar bolas de chamas a grandes distâncias. Tal como foi referido no início do artigo, Leaf pertence ao mítico povo dos Children of the Forest, entidades que têm Westeros como lar há muito mais tempo do que o Homem, que os julga extintos. A criatura conduziu os três humanos pelos túneis da caverna situada por debaixo da gigantesca árvore, onde foram encontrar o homem que tem utilizado o arrepiante corvo de três olhos como intermediário para comunicar com Bran, desde a primeira temporada da série.

Aparentemente, segundo o ancião, Jojen foi apenas uma fatalidade necessária e sem grande importância, e o jovem Stark nunca conseguirá voltar a andar. Depois de uma viagem perigosíssima e interminável, não há nada como receber boas notícias. Apesar disso, o velho disse ainda a Bran que ele irá voar; contudo, teremos de esperar pela próxima temporada para ficarmos a saber o que é que isso realmente significa. Como nota final, refira-se que todos estes elementos fantásticos foram introduzidos de forma excessivamente abrupta, o que pode confundir e até conduzir ao afastamento de alguns dos fãs da série.

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Uma criança a precisar urgentemente de um dermatologista e um primo de Gandalf, aparentemente.

Abandonemos o frio gélido das terras a norte da Muralha e foquemo-nos agora nas duas duplas improváveis de Game of Thrones: Sandor e Arya; e Brienne (Gwendoline Christie) e Podrick (Daniel Portman). Tendo em conta a presente localização de ambos os grupos de personagens – nos arredores do castelo The Eyrie (Ninho de Águia) –, era algo previsível que uma eventual reunião acabasse por acontecer.

Apesar de ter sido efémero, foi bastante agradável voltar a ver um sorriso da parte de Arya, durante a sua curta conversa com Brienne. No entanto, como seria de esperar, o bom ambiente não durou muito tempo, já que a guerreira de Tarth acabou por conseguir identificar a jovem Stark. Tentando manter-se fiel à antiga promessa feita a Catelyn – querendo, portanto, levar Arya consigo –, Brienne acabou por se ver envolvida num combate épico com Sandor Clegane. Foi, possivelmente, a luta mais realista e eletrizante da série até ao momento.

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Um pequeno desentendimento entre Heidi e Marco.

Mesmo sabendo que o gigante Clegane ainda se encontrava debilitado devido ao seu anterior encontro com Rorge e Biter (Dentadas), o desfecho deste titânico confronto não deixou de ser surpreendente. Brienne acabou por sair vencedora – arrancando uma das orelhas de Sandor e lançando-o da montanha abaixo –, não conseguindo, porém, convencer Arya a prosseguir viagem consigo. A filha de Ned e Catelyn perdeu toda e qualquer inocência e ingenuidade que um dia possuiu, tendo-se definitivamente tornado numa outra pessoa: fria e sem escrúpulos. Isto ficou comprovado pela forma cruel como decidiu abandonar o seu mais recente protetor, apoderando-se do seu ouro e deixando-o às portas da morte, recusando-se mesmo a dar-lhe o golpe de misericórdia. As súplicas de Sandor foram fúteis, sendo que teremos de esperar pela próxima temporada para saber se este foi mesmo o fim de The Hound (Cão de Caça).

E eis que, depois de três temporadas nas mais variadas companhias, Arya se viu, por fim, sozinha e com liberdade para escolher o seu próprio destino. Dando de caras com o capitão de um navio de carga – Ternesio Terys (Gary Oliver) –, a sua vontade inicial revelou ser ir ter com o meio-irmão Jon à Muralha; contudo, vendo que tal era impossível, utilizou o seu último trunfo: a moeda que o assassino Jaqen H’ghar lhe deu no final da segunda temporada, dizendo as palavras ‘valar morghulis‘ (‘todos os homens têm de morrer‘). Adeus Westeros, até já Braavos.

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“Hoje, quero que me leias a história do Capuchinho Vermelho.”

Viajemos rapidamente até à cidade de Meereen, no continente de Essos, onde a Rainha com mais cognomes de sempre começa a ter sérios problemas de governação. Primeiramente, viu-se confrontada por um ex-escravo, de seu nome Fennesz (Trevor Allan Davies), que pretende voltar a ser escravizado, já que a vida que levava antes da chegada de Daenerys até era do seu agrado – não há mesmo como satisfazer toda a gente.

Imediatamente a seguir, recebeu a horrível notícia de que o maior e mais temível dos seus dragões, Drogon, deixou de se alimentar exclusivamente de gado caprino, passando também a incluir crianças de três anos na sua ementa. Como consequência, a Quebradora de Correntes (Breaker of Chains) acabou, ironicamente, por se ver na obrigação de acorrentar os seus ‘filhos’ numa masmorra escura – excetuando o verdadeiro culpado, que aparentemente fugiu. Vida difícil para a khaleesi.

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“Mas mamã, foi o Drogon! Não fomos nós!”

Finalmente, centremo-nos em King’s Landing (Porto Real), onde tiveram lugar os acontecimentos verdadeiramente impressionantes do episódio. Comecemos, contudo, por falar de Cersei, que teve um dia particularmente atarefado.

Senão vejamos: encarregou Qyburn (Anton Lesser) de salvar, a todo o custo, o moribundo Gregor Clegane (Hafþór Júlíus Björnsson) – que sobreviveu ao duelo com Oberyn, tendo sido, no entanto, envenenado –, ignorando completamente os queixumes de Pycelle (Julian Glover); confrontou, mais uma vez, o pai a respeito do seu casamento com Loras Tyrell, acabando por lhe falar da relação incestuosa que sempre teve com Jaime (Nikolaj Coster-Waldau), usando essa informação como ameaça e deixando Tywin abismado – naquele que foi mais um trabalho fenomenal de Charles Dance; e, em última instância, apressou-se a ir contar as novidades ao seu irmão gémeo, conseguindo demonstrar aquilo que pareceu ser afeto genuíno no processo. Grande prestação de Lena Headey que, entre tantos atores de qualidade assinalável, vê muitas vezes o seu trabalho subvalorizado.

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As aventuras de Cersei na capital.

De súbito, o caos abate-se sobre Game of Thrones – novamente. Com a ajuda do indecifrável Varys (Conleth Hill), Jaime liberta Tyrion da sua cela, para que o mais novo dos irmãos Lannister escape à sua anunciada execução. É impossível não referir que a missão de salvamento decorreu de forma estranhamente simples: se era assim tão fácil ajudar Tyrion a fugir, porquê esperar até ao último momento? Mas o anão mais famoso de Westeros não se limitou a ir embora pacificamente, tendo decidido fazer uma curta paragem nos aposentos do pai. A motivação inicial da sua visita continua sem ser clara: iria já com intenções de cometer patricídio ou foi apenas a presença de Shae (Sibel Kekilli) na cama de Tywin que despoletou tal vontade? Talvez nunca venhamos a saber.

O que é certo é que Peter Dinklage transpareceu perfeitamente o turbilhão de sensações que a traição de Shae – mais uma – desencadeou na sua personagem. Surpresa, tristeza, mágoa, desprezo, ódio… Tudo isto culminou num silencioso e constrangedor confronto, que terminou com Tyrion a estrangular a mulher que amava. Trágico, no mínimo.

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“Para a próxima, não durmas com o meu pai.”

Por esta altura, Tywin Lannister continuava tranquilamente a tratar do seu trânsito intestinal, sem imaginar que o filho que sempre odiou se encontrava, naquele preciso momento, a ir decididamente ao seu encontro para o assassinar. Quando viu Tyrion com a besta em mãos, completamente preparado para o alvejar, o velho leão conseguiu, mesmo assim, passar a ideia de que se encontrava calmo e de que estava no controlo da situação.

Só que não estava. E não lhe valeu de nada referir-se a Tyrion como seu filho, ou como um Lannister, nem tentar assegurá-lo de que nunca permitiria que ele fosse executado: ao referir-se repetidamente a Shae como uma mera prostituta, Tywin selou o seu destino, vendo-se atingido com um dardo nos intestinos e outro no coração, pelo filho que sempre quis ver morto. Ainda mais trágico.

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“Ai! O que é isto? Uma flecha? Vais ficar de castigo, Tyrion! Já para o teu quarto!”

Inevitavelmente, Varys acabou por ter de acompanhar Tyrion no seu exílio, ciente de que se poderia ver envolvido nos recentes e catastróficos acontecimentos. Resta-nos esperar para conhecermos o destino de ambas as personagens, sabendo que o rumo de toda a história irá mudar irreversivelmente.

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Notas Finais do Episódio:

Melhor cena – Assassínio de Tywin, pelo filho Tyrion

Melhor ator / atriz – Charles Dance (Tywin Lannister)

Melhor fala – “I am your son. I have always been your son.” / “Eu sou teu filho. Eu sempre fui teu filho.” (Tyrion Lannister)

Momento de ‘comic relief‘ (alívio cómico) – (Mance) “He was their king. The last of a bloodline that stretches back before the First Men.” (Jon) “Grenn came from a farm.” / (Mance) “Ele era o Rei deles. O último de uma linhagem que se estende até antes dos Primeiros Homens.” (Jon) “O Grenn veio de uma quinta.

Outras personagens presentes no episódio não indicadas na review – Davos Seaworth (Liam Cunningham); Samwell Tarly (John Bradley); Aemon (Peter Vaughan); Barristan Selmy (Ian McElhinney); Selyse Baratheon (Tara Fitzgerald); Janos Slynt (Dominic Carter); Grey Worm – Verme Cinzento (Jacob Anderson); Missandei (Nathalie Emmanuel); Eddison Tollett (Ben Crompton); Pypar (Josef Altin); Olly (Brenock O’Connor); Shireen Baratheon (Kerry Ingram)

Nota – 8.5/10

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Terminada a review, resta-nos esperar por um novo capítulo, que chega daqui a cerca de dez meses, naquele que será o primeiro episódio da quinta temporada da série, já confirmada pela HBO (assim como a sexta).

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