Agatha Christie

Agatha Christie: Hercule Poirot VS. Miss Marple

Agatha Christie, um dos grandes nomes da literatura policial, é autora de 66 trabalhos de detective, 14 colectâneas de short stories, uma peça de teatro (A Ratoeira) e seis romances publicados sob o pseudónimo de Mary Westmacott. Nos seus romances, Christie fez nascer duas das mais adoradas personagens do panorama policial: Hercule Poirot e Miss Jane Marple.

Ambos os detectives se destacam pela sua astúcia, organização e inteligência, sendo os protagonistas de diversos romances de Christie e os responsáveis pela resolução dos respectivos crimes. No entanto, a própria autora admite encontrar diferenças fundamentais nas suas personagens, confessando a sua antipatia perante Poirot – o qual Christie via como egocêntrico e insuportável –, em contraste com o carinho que expressava com Miss Marple, figura baseada na avó da autora.

Afinal, quais os prós e os contras de ambas as personagens?

HERCULE POIROT

Hercule Poirot interpretado por David Suchet
Hercule Poirot interpretado por David Suchet

O detective belga surgiu na primeira obra de Agatha Christie, O Misterioso Caso de Styles. Desde cedo mostrou que o seu trabalho se baseava nas próprias ‘celulazinhas cinzentas’ e em ‘ordem e método’. De facto, apesar de toda a sua genialidade e engenho, Poirot toma crédito quase completo por todo o trabalho realizado.

Também é costume ouvirmos a personagem dizer: “Só há duas pessoas que sabem: o bom Deus e Hercule Poirot”. Isto revela imediatamente o carácter egoísta do detective. No entanto, o seu amor-próprio é justificável, visto que todas as suas investigações são feitas da forma mais genial possível. Ainda assim, uma das críticas que poderia ser apontada a Poirot seria a sua falta de modéstia.

Apesar da sua personalidade criticável, Hercule continua a destacar-se pelo seu trabalho enquanto detective. Os romances em que aparece são de uma mestria extraordinária e o personagem belga age sempre com cautela e ordenação, revelando o desfecho da obra de forma simples, calma e lógica.

OBRAS DE DESTAQUE:

  • O Assassinato de Roger Ackroyd: um dos romances mais conhecidos da autora, que desafia o leitor como nunca antes havia sido feito. O que poderia ser um romance policial como qualquer outro, Christie trabalha aprofundadamente o papel que cada personagem assume na narrativa. Contada na primeira pessoa – pela voz de Dr. Sheppard –, esta obra poderia dar-nos uma perspectiva mais ambígua do cenário e é exactamente esse perigo que Christie vai testar. Poirot, fazendo uso das suas “celulazinhas cinzentas”, desmascara a personagem que nunca ninguém pensou ser possível desmascarar.
  • Cai o Pano – O Último Caso de Poirot: este romance foi escrito na década de 40 mas a autora guardou-o num cofre, apenas autorizando a sua publicação em 1975, pouco antes de morrer. Esta obra é uma despedida digna, tanto da autora como do detective, que nos mostra que nenhum ser humano é perfeito. Poirot, visto como um génio intocável, atinge o auge da sua história pessoal e profissional quando se encontra às portas da morte. Um livro que nos choca, não só pelo crime relatado, mas também por mostrar aquilo de que o ser humano é capaz – até mesmo um homem de honra e método como Poirot.

MISS JANE MARPLE

Miss Marple interpretada por Joan Hickson
Miss Marple interpretada por Joan Hickson

A idosa residente em St. Mary Mead fez a sua estreia em Os Treze Enigmas, uma colectânea de short stories. Uma alma boa e caridosa, Miss Marple revela tanta astúcia e perspicácia quanto Poirot. No entanto, a detective preocupa-se aprofundadamente com o conceito de natureza humana, esperando sempre o pior das pessoas. A sua personalidade simpática não impede que seja uma pessoa inteligente e desconfiada.

Adicionalmente, tendo residido grande parte da sua vida em St. Mary Mead, é de lá que Miss Marple recolhe grande ajuda para a resolução dos crimes – isto é, todos os trabalhos que ela se propõe a decifrar recordam-na de algo que ela já presenciou na aldeia. Desta forma, grande parte do trabalho de Marple é baseada em paralelismos.

A idosa revela aquilo que Poirot não tem: modéstia. A sua resolução dos crimes é feita de forma tão genial e organizada quanto o método utilizado pelo detective belga. No entanto, Poirot assume-se, como se costuma dizer, ‘de nariz empinado’, não prestando contas a nada nem a ninguém. Miss Marple, por outro lado, tem uma natureza genuinamente encantadora e solidária, não se gabando frequentemente dos seus feitos.

OBRAS DE DESTAQUE:

  • Participa-se um Crime: quando um crime é anunciado no jornal local, aquilo que se pensava ser brincadeira depressa se torna numa realidade assustadora. Miss Marple surge para solucionar o crime e mostra-se mais activa do que nunca, realizando o chamado “trabalho de campo”, algo que nem sempre faz nos livros em que é protagonista. Nesta obra, Agatha Christie brinca com o conceito de identidade e Miss Marple acaba por desmascarar um assassino que o leitor pensa nunca ter existido sequer.
  • Crime Adormecido: este é o último romance em que Marple aparece, o qual, tal como aconteceu com Cai o Pano, foi escrito na década de 40 mas apenas publicado em 1976, em forma de despedida tanto da autora como da personagem. Nesta obra, a idosa aborda um crime cometido há 18 anos atrás, deixando portanto o passado pôr à prova a sua acuidade. Desafiando a memória e a honestidade das personagens, Miss Jane Marple despede-se em grande num livro que, mais uma vez, promete deixar o leitor boquiaberto.
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