Xavier Dolan regressa com um filme onde mostra aquilo que vale, começando a ir mais além da imagem hipster que lhe é vulgarmente associada: Tom na Quinta é um thriller revelador da criatividade de um cineasta inovador. E chega esta semana a Portugal.

Tom (Xavier Dolan) vai presenciar o funeral de Guillaume, seu namorado, numa pequena cidade do campo. Mas quando chega, apercebe-se que ninguém sabe da relação que os unia. O irmão de Guillaume, Francis (Pierre-Yves Cardinal), machista e homofóbico, ameaça Tom por várias ocasiões, impondo graves consequências se ele decidir contar à mãe viúva (Lise Roy) a verdadeira orientação sexual do falecido. Tom começa a descobrir toda a mentira criada à volta de Guillaume para impedir que a progenitora soubesse da realidade, e, a pouco e pouco, acaba por tornar-se uma ameaça e um alvo a abater pelos preconceitos e indecisões de Francis.

O penúltimo filme de Xavier Dolan até à data (entretanto estreou Mommy na mais recente edição do Festival de Cannes, recebendo ex-aequo o Prémio do Júri com Jean-Luc Godard) é a prova de vitalidade de um cineasta muito jovem, mas que, felizmente, está cheio de boas ideias. Pegando na peça de teatro homónima, da autoria de Michel Marc Bouchard, que obteve um enorme êxito junto da crítica e do público (e há uma certa tensão do filme que deve muito a uma construção dramatúrgica de personagens num estilo mais denso, sufocante e perturbador), Dolan desconstrói ideias pré-concebidas, filmando a sexualidade e a pressão psicológica assente no protagonista e no antagonista de uma forma avassaladora.

É um confronto intenso, direto e demolidor, que sabe pegar nas referências teatrais e emprestá-las ao cinema, sem perder a sua essência – algo que também verificamos, por exemplo, ter sido captado de uma forma igualmente eletrizante, em outras adaptações: quer seja nas guerras entre Blanche DuBois e Stanley Kowalski em Um Elétrico Chamado Desejo, de Elia Kazan, na rivalidade constante e plena de ilusões entre marido e mulher no drama Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Mike Nichols, e nos jogos (quase) mortais entre o marido e o amante de uma mulher, no fabuloso Sleuth – Autópsia de um Crime, de Joseph L. Mankiewicz. Tal como todas estas grandes obras dramatúrgicas e cinematográficas, Tom na Quinta sabe aproveitar o facto de que, no teatro, podemos precisar só de dois atores para causar o pânico psicológico de toda a assistência. Porque no grande ecrã, isso também é possível.

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É um realizador em crescimento, e parece-nos que está, agora, a tentar demarcar-se um pouco do lado puramente hipster que o tornou um ídolo de uma nova geração de cinéfilos, impondo-se também como um sério autor de cinema que tem boas histórias para contar. Sim, continua a permitir-se incluir referências próprias – mas nada disso tenta sobrepôr-se, como estilo, a todo o conteúdo da obra, que prima pela inteligência da narrativa e da câmara, e pela aliciante e trepidante evolução das personagens e da psicologia de cada uma delas.

Qual Spencer Tracy de A Conspiração do Silêncio, Tom começa por ser um forasteiro indesejado, que pode colocar em risco os interesses sociais e psicológicos de um elemento central daquela localidade campestre. A sua condição, e todas as condicionantes que a mesma acabará por gerar, refletem um dos temas centrais do cinema de Dolan: o choque de orientações sexuais e a ligação da sexualidade à vida mundana, e aos pequenos nadas do quotidiano. Com essa marca, Tom na Quinta constrói-se a partir de um mote simples, mas que a cada momento, se torna mais claustrofóbico, desgastante… e fascinante.

Cheio de tensão, suspense, dúvidas e pressão, que se abatem em nós graças a uma formidável realização e a uma espectacular banda sonora (composta por Gabriel Yared, e com um toque de Rufus Wainright), este refinado thriller psicológico é uma das grandes surpresas de 2014.  É um pequeno prodígio cinematográfico que promete continuar a entusiasmar públicos e críticos nos próximos anos, se permanecer nesta evolução criativa.

Tem interpretações grandiosas e impecáveis, e revela os segredos de uma pequena comunidade e de uma forma (ainda) preconceituosa de se olhar o mundo – segredos esses cujas consequências podem ser mais devastadoras e destruidoras que tudo aquilo que possamos imaginar.

8.5/10

Ficha Técnica:

Título: Tom a la Ferme

Realizador: Xavier Dolan 

Argumento: Xavier Dolan, a partir da peça homónima de Michel Marc Bouchard

Elenco: Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy

Género: Drama, Thriller

Duração: 105 minutos