Afirmou, após o lançamento do primeiro álbum, que não voltaria mais a lançar música depois de todas as críticas negativas que recebeu. Mas nunca parou de lançar novas canções, nos últimos tempos em bandas sonoras. Lana Del Rey regressa esta semana com um novo disco, Ultraviolence, provavelmente melhor do que o antecessor.

Video Games e Blue Jeans surgiram no panorama musical em 2011. Os telediscos destas canções – Blue Jeans até teve direito a um segundo teledisco dirigido por Yoann Lemoine, indo para além dos recortes de vídeos e de Lana em frente à webcam – conquistaram o público e perpetuaram a melancolia e o ambiente vintage num universo da pop cada vez mais completo, com a extravagância de Lady Gaga e do seu Born This Way ou mesmo a última confeção do Teenage Dream de Katy Perry.

Mas apesar de toda a sinceridade nas canções, a falarem sobre amor falhado, obsessivo, um ambiente hollywoodesco recheado de vícios ou da identidade feminina – com o pequeno brilhante This Is What Make Us Girls a ser completamente esquecido como última música do Born To Die e com todos os videoclipes lançados, como é evidente – acabou por ser acusada de ser superficial devido à suposta cirurgia plástica nos lábios e de não saber cantar, especialmente depois de uma famigerada atuação no Saturday Night Live.

Mas onde se encontra a superficialidade quando ouvimos a canção-título neste novo trabalho, Ultraviolence? “He hit me and it felt like a kiss / Jim brought me back / Reminded me of when we were kids”, canta Lana bem antes de repetir, com efeitos fantasmagóricos, o refrão “this is ultraviolence, ultraviolence”, num ciclo vicioso para os nossos ouvidos. Palavras que levam à escuridão que permanece em todas as canções do disco. Mais uma vez o amor é retratado, nestas onze músicas, de forma mais melancólica possível. Começando com Cruel World – um retrato familiar a todos os seres humanos sobre relações e terminando em The Other Woman, gravada originalmente por Nina Simone.

Em Cruel World, com mais de seis minutos, ouvimos Lana a cantar “Shared my body and my mind with you / that’s all over now / did what I had to do / ‘cause you’re so far past me now”. Para produzir, na maioria do disco, Del Rey contou com Dan Auerbach, conhecido pelos The Black Keys, que lançaram também este ano um novo disco, Turn Blue. Não foi ao acaso que o produtor afirmou à Rolling Stone que “ela tem uma visão definitiva de quem ela é e de quem quer ser, musical e visualmente”.

Ultraviolence é um desfilar quase monótono de músicas recheadas de melancolia, de amor falhado – Shades of Cool, Pretty When I Cry até mesmo Fucked My Way Up To The Top – a visão da “outra” numa relação – Sad Girl – e até ironia com Money Power Glory. Porque é uma das raparigas mais conhecidas no cenário pop, quer seja pela suposta plasticidade quer seja pela composição cuidada e detalhada, cantaria “I want money, power and glory”? Para passar a um “i want money and all your power, all your glory / Allelluia, I wanna take you for all that you got”, mais uma vez a personificação de um coração desfeito numa letra.

ultraviolence lana del rey

E, quase no fim deste novo disco, Old Money acaba por trazer de volta referências à Young & Beautiful começando pelo momento em que Lana canta “but if you’d send for me / you know i’ll come / and if you’d call for me/ you know I’ll run to you”. Com pouco mais de três minutos, algo raro nestas onze canções, o sentimento de Young & Beautiful está recolado mais uma vez.

Apesar de todo o mistério à volta da imagem da cantora, que aos poucos se vai evaporando, Ultraviolence é um retrato pintado de negro e familiar à maioria dos seres humanos que a ouvem. Numa época em que os seres humanos estão cada vez mais ligados a qualquer tipo de tecnologia, em que a imagem de um amor eterno se desvanece, Lana Del Rey afirma-se como um ícone longe do auto-tune e barulheira caraterísticas na maioria das cantoras pop.

Ela sabe bem que é a nível musical e visual, isso é certo, e reafirma a teoria de que na arte tudo se reinventa, não fossem as suas inspirações musicais Nancy Sinatra, Elvis Presley e outros tantos.

Nota final: 8/10