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A Recordar: Claude Rains

A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Foi o Homem Invisível e o inesquecível Capitão Renault de Casablanca. Mas a carreira do brilhante Claude Rains não se resume apenas a estes dois papéis: desde Frank Capra a David Lean, passando por Alfred Hitchcock e Michael Curtiz (cineasta com quem Rains afirma ter aprendido como se deve agir à frente das câmaras), o multifacetado ator britânico trabalhou com vários grandes realizadores, e mostrou ao mundo a diversidade do seu talento em diversos personagens, maioritariamente secundários (onde mostrou da melhor forma as suas capacidades), que marcam a intensidade de cada história contada no grande ecrã. Nomeado para quatro Oscars ao longo dos anos 40, Rains não chegou a receber nenhuma estatueta da Academia, mas o seu génio merece mesmo ser ressuscitado e descoberto.

Nasceu em Londres a 10 de novembro de 1889 e a sua carreira prolongou-se por mais de quatro décadas. Filho de Frederick William Rains, ator de teatro e cinema, viu o seu talento ser reconhecido pelo fundador da Academia Real de Artes Dramáticas, Sir Herbert Beerbohm Tree, que pagou aulas de colocação de voz ao ator, para ele poder ter a pronunciação adequada que o ajudasse a ter êxito na profissão (Rains tinha um sotaque demasiadamente cockney).

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Começou a sua carreira no teatro britânico, e o êxito levou-o até à Broadway nos anos 20, onde interpretou uma série de personagens que lhe deram rasgados elogios da crítica especializada da época. Entrou tarde no mundo do Cinema: a sua primeira aparição foi na curta Build Thy House, de 1920, e só em 1933 é que voltou ao grande ecrã. A primeira audição que fez não correu muito bem, mas a sua voz inconfundível valeu-lhe, graças a esse falhanço, o papel principal em O Homem Invisível, uma adaptação do livro homónimo de H.G. Wells realizada por James Whale. O sucesso do filme foi tão grande que originou várias sequelas (nenhuma delas foi protagonizada pelo ator) e spin-offs, e ainda hoje é tido como um dos maiores marcos dos memoráveis filmes de terror dos estúdios Universal dos anos 30.

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A popularidade da fita traduziu-se, igualmente, na popularidade do ator, que de um momento para o outro, se tornou numa das figuras mais desejáveis da indústria. Em vez de aproveitar o êxito de O Homem Invisível e continuar a fazer filmes de terror (como ambicionava a Universal), Rains decidiu apostar em filmes diferentes, onde podia mostrar a sua versatilidade – mas seria nos papéis de vilão que mais se destacaria. Nos anos seguintes participou em vários projetos que, com o tempo, não seriam tão recordados, como Crime sem Paixão (1934), O Homem que Reclamou a Cabeça (1934), A Última Avançada (1935), O Homem que Adivinha (1935), Hearts Divided (1936) e Adversidade (1936). Voltaria à ribalta em 1937, com O Príncipe e o Pobre, onde contracenou pela primeira vez com Errol Flynn, e Esquecer, Nunca!, um film-noir realizado por Marvin LeRoy.

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Mas o segundo grande sucesso da sua carreira chegaria no ano seguinte, naquele que ainda hoje é considerado um dos melhores filmes de aventuras e de entretenimento produzidos em Hollywood. Com um espírito clássico que ultrapassou gerações, As Aventuras de Robin Hood, de Michael Curtiz, é a recriação cinematográfica das lendas do famoso ladrão da Floresta de Sherwood, que roubava aos ricos para dar aos pobres. No filme, que é protagonizado por Errol Flynn, Claude Rains é o Príncipe John, o inimigo do povo e de Inglaterra, que pretende tornar-se rei enquanto o seu irmão, o bondoso monarca Ricardo Coração de Leão, se encontra desaparecido. John é a alegoria perfeita para os males do poder e da injustiça social que o Estado pode exercer nos seus súbditos, e acabará por ser “vítima” das mil e uma armadilhas do herói e dos seus amigos, sempre prontos a defenderem os mais fracos perante as adversidades impostas pelos tiranos.

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Em 1939, e depois de mais alguns filmes menos relevantes, surgiu mais uma interpretação memorável que valeu a Claude Rains a primeira de quatro nomeações para Oscar de Melhor Ator Secundário: foi em Peço a Palavra, de Frank Capra, um filme político que, apesar de ter sido polémico na época, conta com prestações formidáveis e uma história que permanece muito atual. James Stewart é um jovem ingénuo que tenta defender as suas próprias ideias e lutar contra um sistema assente em burocracias e fortes interesses económicos. Já a personagem de Rains foi, em tempos, tão contestatário como a de Stewart, mas depois desistiu da luta e faz agora parte do establishment que ferozmente combatera antes. É um dos retratos sociais mais envolventes do Cinema americano.

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Claude Rains voltaria a dar que falar em 1940, graças a outro filme de aventuras de Michael Curtiz: é O Gavião dos Mares, onde mais uma vez contracena com Errol Flynn, numa história de piratas e de conflitos marítimos entre Inglaterra e Espanha. Flynn é Geoffrey Thorpe, um pirata que acha ser seu dever atacar os inimigos espanhóis pela sua pátria. E Rains é Don José Alvarez de Cordoba, um dos vários inimigos que tentam impedir os objetivos deste pirata destemido, corajoso e leal ao seu país e à rainha.

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Nos dois anos seguintes houve alguns filmes memoráveis, como O Defunto Passageiro (cuja história e argumento receberam prémios da Academia), O Homem Lobo (um filme de terror que Rains protagonizou), Em Cada Coração um Pecado (um olhar à América provinciana) e Maré Cheia (protagonizado por Jean Gabin). Mas A Estranha Passageira (1942) iniciou uma colaboração duradoura entre o ator e Bette Davis (que o considerava o seu co-protagonista predileto), da qual resultaram quatro filmes. É um melodrama romântico envolvido num drama psicológico, que atribuiu à atriz uma sexta nomeação para o Oscar, pelo seu papel como a mulher solteira que desafia a sua mãe dominadora a conhecer o amor, o sofrimento e a felicidade passageira. Claude Rains é o psiquiatra que tenta ajudar a personagem de Davis a lidar com o temperamento irascível da sua progenitora.

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Contudo, 1942 foi o ano em que chegou um êxito ainda maior para Claude Rains: foi também nessa altura que saiu Casablanca, de Michael Curtiz. Tem uma história de bastidores tão interessante como o próprio filme, e inesperadamente tornou-se um sucesso gigantesco para a Warner Bros (que tratou o projeto apenas como um filme de série B, industrial e sem qualquer interesse especial), vencendo nos Oscars e proporcionando ao ator a sua segunda nomeação para Melhor Ator Secundário. No intemporal romance entre Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman), Rains é o capitão Renault, um francês que esquece a sua pátria e aproveita a ocupação nazi para satisfazer os seus gostos e interesses. Mas ele nem sempre será assim, e a páginas tantas, ainda se dá o início de uma bela amizade…

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Em 1943, Rains protagonizou O Fantasma da Ópera, remake levado a cabo pela Universal, com o objetivo de ressuscitar uma das personagens mais famosas dos seus filmes de terror da década anterior. Um ano depois, volta a colaborar com Curtiz e Bogart em Passagem para Marselha, um filme que reflete as preocupações políticas e sociais sentidas durante a II Guerra Mundial. E voltou também a Bette Davis com A Vaidosa, um drama sobre o matrimónio forçado entre uma mulher popular com um homem mais velho. Com a sua interpretação foi nomeado pela terceira vez para o Oscar, e a Academia voltou também a nomear a atriz.

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No ano de 1945 tornou-se no primeiro ator a receber um salário de um milhão de dólares, pela sua participação na adaptação luxuosa, mas falhada, do César e Cleópatra de George Bernard Shaw. Realizado por Gabriel Pascal (que adaptou outros trabalhos de Shaw ao Cinema), o filme fala da relação atribulada entre as duas poderosas figuras da Antiguidade, interpretadas respetivamente por Claure Rains e Vivien Leigh (a Scarlett O’ Hara de E Tudo o Vento Levou).

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Alfred Hitchcock realizaria Difamação em 1946, e ninguém poderia ter sido melhor no papel de vilão que coube ao ator – e que lhe deu a quarta e última nomeação para o Oscar. A história de amor entre Alicia (Ingrid Bergman) e Devlin (Cary Grant) é também uma intriga de espionagem passada no Rio de Janeiro, numa das obras mais faladas e adoradas do Mestre do Suspense. Claude Rains é perfeito como Alexander Sebastien, um aliado dos nazis que, apesar do seu enorme poder, acaba por ser afetado pela paixão que sente por Alicia.

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Os anos seguintes foram preenchidos com projetos curiosos que não captaram tanta atenção, como Passaporte para o Inferno, Que o Céu a Condene e Sem Sombra de Suspeita. Mas em 1949, Claude Rains volta a destacar-se graças a Mais Forte que o Amor. Realizado por David Lean, é um drama baseado na obra literária de H.G. Wells, que fala sobre a paixão de um casal nos seus tempos de juventude que acaba por voltar a surgir muito mais tarde, quando a mulher se encontra casada com um homem muito mais velho (Rains). É um romance que ultrapassa as barreiras do tempo e as mudanças que os dois protagonistas sentem nas suas vidas, formando um triângulo amoroso cheio de armadilhas e contradições.

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Mais tarde, perto do final da carreira cinematográfica do ator (onde começava a ser mais uma vedeta televisiva), Claude Rains entrou numa série de filmes menos conceituados. Mas há um título curioso que merece ser mencionado: ele foi um dos membros do elenco de Lisboa (1956), realizado e protagonizado por Ray Milland (o protagonista de Farrapo Humano, de Billy Wilder). Hoje é um filme difícil de encontrar, mas vale a pena dizer que se trata de uma obra filmada na capital portuguesa (retratando-a como se de um postal turístico se tratasse), contando uma história atribulada de aventuras completamente “à americana”. Rains é Aristides Mavros, um conhecido criminoso procurado de maneira incansável pelo inspetor Fonseca.

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Nos últimos anos na profissão, Claude Rains continuaria a ganhar mais popularidade no pequeno ecrã, colaborando por diversas ocasiões em populares séries de TV como Rawhide (o programa que lançou Clint Eastwood) e Alfred Hitchcock Apresenta. Mas os seus dois últimos trabalhos para cinema deixariam mais uma prova incontestável do seu enorme talento. Em Lawrence da Arábia (1962), o premiado épico de David Lean, o ator foi Mr. Dryden, um diplomata que exercerá uma grande influência no protagonista, interpretado por Peter O’ Toole.

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A última prestação de Rains no grande ecrã deu-se com outro épico, mas de cariz bíblico. Foi o implacável e megalómano Rei Herodes – figura histórica que teve um papel central nos acontecimentos mais importantes e marcantes do ícone da religião cristã – em A Maior História de Todos os Tempos (1965), realizado por George Stevens (com a colaboração de David Lean e Jean Negulesco), um retrato da vida de Jesus Cristo.

Claude Rains nunca precisou de ser galã para conquistar a alma de Hollywood, e talvez por isso o seu talento continua a conquistar os espectadores. A sua filmografia comprova a sua genialidade em transformar todo o tipo de papéis e personagens em figuras dignas e puramente cinematográficas. A ironia e subtileza que atribuiu aos mais variados papéis tornaram-se na sua imagem de marca, e ainda hoje é um exemplo para muitos novos atores. Rains deu credibilidade a personagens centrais, mas também aos vários secundários que encarnou, mostrando como sabia também “roubar” o ecrã a todos os seus colegas mesmo que aparecesse em momentos mais pequenos… mas não menos singulares. Um ator incontornável do Cinema americano que merece mesmo ser recordado.

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