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A Song of Ice and Fire, os livros, é das sagas de fantasia mais lucrativas do século XXI. Game of Thrones, a série, é das mais vistas da televisão norte-americana. Neste artigo propomos um combate amigável entre ambos e descobrir quais são, até agora, as grandes diferenças entre os dois em termos de storyline.

Intermináveis são os debates entre os fãs dos livros e os aficionados da série. Se os primeiros avançam com uma atitude um quanto mais arrogante com intermináveis comentários na internet, os segundos não se param de queixar por serem, constantemente, alvos de spoilers. Mas a questão principal aqui é, sim a série distancia-se dos livros em pequenos pontos. Mas o mundo não é perfeito…

Algo que me custa a entender, enquanto aficionado dos livros e fã da série, é o constante desprezo que os leitores da saga literária demonstram quando algo numa peculiar cena não obedece ao que escrito está no livros. O público tem de ser mais razoável e compreender que os dois formatos são completamente díspares para que haja uma adaptação à letra (caso isso acontecesse, ainda nós estávamos em Winterfell e Ned Stark com a sua bonita cabeça sobre o seu pescoço). É óbvio que são necessárias mudanças e, com este artigo, vamos percorrer um par delas e tentar perceber qual resultou melhor: se a forma como está escrito nos livros, ou se como foi gravado pela série.

Robb Stark

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Infelizmente, ele é alvo do mesmo destino em ambos os lados. Ou seja, quer na saga como na série o pequeno lobo morre de uma maneira bastante inglória, pela mão de um doentio plano da Casa Frey, Lannister e Bolton. No entanto, nos livros ele nunca casa com uma rapariga de Volantis chamada Talissa. Robb da casa Stark, o Rei do Norte, casa antes com uma rapariga chamada Jeyne, da casa Westerling que pertence aos domínios do Oeste e presta vassalagem aos Lannister de Casterly Rock.

Nos livros a sua mulher nunca o acompanha ao banquete sangrento conhecido como Red Wedding, ficando em Riverrun à espera do seu marido que acaba por não voltar. Na série, como sabemos, Robb quebra a sua promessa de casar com uma Frey para casar com Talissa Maegyr, nascida nas cidades livres, sendo depois assassinada nos eventos do Red Wedding.

Quem ganha a batalha? Os livros. Na série não há, aparentemente, uma grande justificação para o aparecimento desta personagem completamente inventada, ignorando a real noiva de Robb Stark. Além de que seria ainda mais interessante se ele, de facto, casasse com um elemento de uma casa vassala de um dos grandes rivais dos Stark. O aparecimento de Talissa na série não só foi completamente inventado como algo fora de contexto já que as estritas regras da época medieval em termos de casamento fariam a união de uma Grande Casa com uma plebeia algo impossível e impraticável.

Tywin Lannister

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Em ambos os lados continua a ser uma personagem interessantíssima. Com um passado rico em peripécias, Tywin torna-se no homem mais poderoso de Westeros e faz dos Lannister uma casa tão prestigiada como respeitada. A grande diferença que existe, no entanto, entre a personagem dos livros e a da série, magistralmente encarnada por Charles Dance, é que o Tywin dos livros é uma pessoa muito mais arrogante, um ser implacável que não tem, aparentemente, quaisquer qualidades e que é conhecido por nunca mais ter sorrido desde que a sua mulher, Joanna Lannister, morreu a dar à luz Tyrion.

Na série, a sua personagem continua – claro – a ser arrogante, chefe  de casa da família mais odiada pelos fãs. No entanto, ele é mais humano e há momentos até que o espectador começa a criar empatia com esta personagem, principalmente nas cenas em que Dance contracenou com Arya Stark, na segunda temporada. Momentos muito bem conseguidos que nos livros não acontecem: Tywin e Arya nunca se cruzam nas páginas de George RR Martin.

Quem ganha a batalha? A série. O Tywin Lannister de Dance é mais humano, não é simplesmente visto como um monstro arrogante que passa por cima de todos para que os Lannister vençam. Com grande ajuda da sua interação com Arya, na segunda temporada, vemos um lado mais humano e empático desta personagem.

Petyr Baelish

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Tanto nos livros como na série, o Littlefinger é muito conhecido pela sua perspicácia e audácia intelectual. Mas há uma grande diferença nos livros sobre a sua história no Eyrie e de como matou a sua “amada” mulher, Lysa Arryn. Nos livros no momento em que a Sr. do Vale ia empurrando Sansa Stark pela Moon Door (que nos livros é um porta normal colocada numa parede para o exterior, virada para uma queda com um precipício, não um alçapão), ambas estavam acompanhadas por um terceiro elemento, um bardo de nome Marillion que ia tocando para que a discussão entre as duas não fosse ouvida pelo castelo.

Nos livros, Petyr também as separa e, eventualmente, empurra a Sra. Lysa do Vale pela Moon Door, também rematando com uma última mensagem de amor a Catelyn Stark. Mas o que verdadeiramente muda? O tal terceiro elemento, neste caso quarto, já que Marillion também estava presente quando Lysa foi assassinada.

Quem ganha a batalha? Os livros. Por momentos a presença do bardo naquela fatal situação pode parecer um descuido do Littlefinger, mas na verdade a sua presença vai ilibá-lo de todas as culpas ou desconfianças na morte de Lysa Arryn. Quando o conselho dos grandes senhores do Vale tenta perceber como é que a sua senhora morreu, Petyr e Sansa culpam, facilmente, o bardo dizendo que atirou Lysa pela Moon Door quando Petyr a tentava salvar.

É uma pequena grande diferença que ajuda a construir a personagem de Petyr. Na série, sem o bardo, a maneira como ele mata a sua mulher é de uma maneira tão simplista que poderia ser facilmente apanhado e o Littlefinger nunca faz algo tão arriscado como o que fez na série. Ele joga o jogo dos tronos, mas pela calada.

Olenna Tyrell

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Uma das personagens mais carismáticas, tanto na saga literária como na série, Olenna Tyrell chega do nada e cria de imediato uma grande empatia com os fãs de Game of Thrones. Talvez a maior diferença entre a personagem na série, também magistralmente encarnada por Diana Rigg, e nos livros é que a Rainha de Espinhos (a sua alcunha em Highgarden) não tem tanto tempo de antena como está a ter na série.

É uma personagem muito mais secundária, para além de que nos livros a questão de ter ou não assassinado o Rei Joffrey Baratheon fica muito mais em aberto. Na série, os produtores decidiram colocar uma casual conversa entre Olenna e Margaery Tyrell (sua neta) que deu a entender que a primeira foi a responsável pelo regicídio, mas atentem fãs da série: nos livros isso não ficou completamente claro, e tudo pode mudar nas futuras temporadas.

Quem ganha a batalha? A série. Apesar de que, na mesma, tenham quase afirmado que ela é a responsável pelo assassinato de Joffrey (se se confirmar ela ainda é mais espetacular do que eu pensava), a mais valia de Olenna Tyrell de Rigg é mesmo o alargado tempo de antena que usufrui. Se nos livros queremos ver mais desta avó, na série somos presenteados com inúmeras cenas de fantásticos diálogos que nos mostram as verdadeiras cores dos Tyrell e Lannister, e revela que mesmo sendo os aliados mais íntimos de Westeros, as duas famílias não passam de inimigos que estão só à espera do momento certo para desferir golpes fatais.

Tyrion Lannister

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Diferenças numa das personagens mais queridas da série?! Sim, é verdade. A maior diferença mesmo é que, atualmente, na saga literária Tyrion não tem nariz. Isto pode parecer um fator irrelevante, mas a inexistência de nariz faz todo o sentido nos livros já que ele perdeu-o na batalha de Blackwater Bay.

Na série as mazelas dessa mesma luta resumem-se apenas a cicatrizes na cara do ator, mas nos livros a falta de nariz torna o pequeno homem ainda mais complexado com o seu aspeto. Sendo um anão, sem nariz, Tyrion considera que se tornara, oficialmente, num pequeno monstro depois daquela batalha inglória para defender a cidade de King’s Landing, não recebendo posteriormente nenhum crédito na manutenção da capital dos 7 Reinos.

Quem ganha a batalha? Ambos. Lá por não ter nariz na série, Tyrion não deixa de ser uma personagem brilhante, a sua capacidade argumentativa e perspicácia de pensamento são perfeitamente encarnadas por Peter Dinklage que, em todas as temporadas, faz um trabalho fenomenal enquanto Tyrion. Depois da cena do seu julgamento ele já merecia outro Emmy.

Loras Tyrell

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Sir Loras da casa Tyrell conhece um destino completamente diferente daquele traçado, até agora, na série. Um destino tão diferente que a promessa de casamento entre o mesmo e Cersei Lannister (feita na série por Tywin Lannister, para fortalecer os laços com a Casa de Highgarden) nunca existiu. Loras nunca esteve prometido a Cersei ou vice-versa porque quando o mesmo chega a King’s Landing com a comitiva Tyrell, ele entre para a King’s Guard e, como sabemos, alguém que esteja na King’s Guard está completamente desprovido de títulos e não poderá casar nem criar herdeiros até ao resto da sua vida. A mesma é dedicada à proteção do rei.

Quem ganha a batalha? Os livros. A promessa de casar Loras Tyrell a Cersei Lannister não faz qualquer sentido, as relações Tyrell/Lannister ficam o suficientemente cimentadas com o casamento entre Margaery e qualquer dos reis Baratheon que estejam no trono (Joffrey ou Tommen). A insistência de Tywin para casar a sua filha é real, mas não com Loras. Sendo o 3º filho na linhagem ao trono de Highgarden não faz sentido casar uma ex-rainha regente com alguém tão pouco importante na política de Westeros.

Jaime Lannister

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Sir Jaime Lannister, filho primogénito de Tywin Lannister, também conhece um destino diferente na saga literária. Apesar de continuar sem a mão direita e de amar, perdidamente, a sua irmã gémea Cersei Lannister, ele nunca esteve no casamento do Rei Joffrey Baratheon. Aquando do casamento real de Joffrey com Margaery Tyrell, Jaime ainda estava fora de King’s Landing, desaparecido. Nos livros, ao contrário da série, Jaime não presenciou a morte do seu próprio filho com uma atitude de impotência. Aliás, a sua chegada a King’s Landing coincide com as cerimónias fúnebres do rei mais detestado dos 7 Reinos.

Quem ganha a batalha? Os livros. Muito porque na série toda a abordagem  da interação sexual entre Jaime e Cersei no velório de Joffrey foi altamente despropositada, quase aparentando-se com uma violação. A cena foi descabida pelo facto de que Jaime nunca obrigaria Cersei a fazê-lo devido ao seu amor incondicional pela mesma. A forma como está descrito no livro fez muito mais sentido (sim, no livro os dois irmãos também acabam por não resistir à tentação).

Na saga literária dá-se um reencontro entre ambos: Cersei já não via Jaime há meses e meses, já que o mesmo esteve em cativeiro e  desaparecido, depois de ter sido capturado pelas forças do Rei do Norte (Robb Stark) numa batalha perto de Riverrun, cidade dos Tully, aliados dos Stark. Os dois reencontraram-se no Grande Septo de Baelor, onde Joffrey jazia morto e o desejo entre ambos era tal que acabaram por se entregar um ao outro mesmo naquela espaço sagrado. Assim, como acontece nos livros, o repugnante ato de blasfémia não partiu unicamente de um lado, mas dos dois, mostrando ao leitor como o desejo consegue sobrepor a razão e como o amor entre estes dois seres é eterno.

Quero acabar este artigo com uma consideração final: este não é, de todo, um artigo que escolhe lados, não é um artigo para elevar os livros e humilhar a série. Pelo contrário, é uma homenagem a todo um universo criado por George RR Martin que se manifesta em dois meios completamente diferentes – o literário e o televisivo. E se o primeiro representa a base do segundo, não quer dizer que o segundo seja uma versão inferior ao primeiro. Os dois valem por si e ambos são fantásticos.