Alkantara ’14: ‘Bovary’ e o fim (como num livro) sem fim

No passado dia 7 de junho estreou, no âmbito do Festival Alkantara 2014e para o encerrar, Bovary, um espetáculo de Tiago Rodrigues, a partir de Gustave Flaubert. Espalha-Factos, mais uma vez, marcou presença e conta-te o que sentiu.

Um corredor interminável diante dos nossos olhos expectantes. Um passo a seguir aos outros, expectantes também. Um corpo não-intelectual, viajante em busca de um desconhecido maravilhoso. Diante dele, outros corpos em cima do palco: são atores ou personagens de uma vida que podia ser como nos livros. Luzes numa plateia adormecida reduzem a intensidade de um sonho que está por vir.

O espetáculo inicia e a luz permanece – está lá, sobreposta ao nosso olhar iluminado. Que se inicie o julgamento: o tom acusatório de um e a defesa de outro. Dois corpos analistas de uma obra que permanece: o amor e a volúpia numa mescla de sentimentos e emoções que não se distinguem.

Falamos de um palco quase despido que veste um julgamento injusto – uma acusação de promoção à imoralidade e à traição e a defesa de uma obra genial. Estamos todos nós diante de um cenário que não tem muito mas tem tudo. Um cenário que é luz – como se alterada pelos próprios intervenientes – e que encena um texto confuso, denso e humorístico mas que alberga todos os abrigos de um ser humano. Um texto que diz que todos morremos – menos aqueles que se inscrevem no mundo de alguma forma: aqueles que criam e fazem algo que fica para o futuro (como este espetáculo, que fica em quem o viu) não morrem, ainda que atraiçoados.

É o autor, encenador e também membro do elenco, a nossa alma. É Tiago Rodrigues aquele jovem artista maduro que fala e faz falar por nós. Conta a história de um julgamento recorrente, que se entrelaça entre beijos ardentes sem sentido aparente. Conta a história de uma das maiores obras da literatura e analisa-a eficazmente – página a página, frase a frase – como se numa lição de literatura e contemporaneidade. Tiago é aquele que ama incondicionalmente, é aquele que faz, é aquele que vê e luta por não deixar de ver: por aquele Mundo Perfeito que tenta alcançar ao longo de 10 anos (pelo menos) e que teima cada vez mais em ter um prefixo de inversão contagiante.

Tiago Rodrigues escreve um texto do qual Gustave Flaubert muito se orgulharia: após leitura minuciosa de tão minuciosa obra, é uma análise irrepreensível em palco – duas opiniões, ambas corretas – de uma obra que é um Mundo (Im)Perfeito, que torna o palco a vida – como fora dos livros. Um texto que leva ao riso (mas nem por isso cómico), interpela o público e é, acima de tudo, um hipertexto – é literatura na mais bela prosa poética – trágico que entre risos chama uma lágrima que tratamos rapidamente de limpar.

Já perfeito é o elenco. Cinco corpos cheios de talento enchem o palco com delírios, convicções, adultérios, sangue, suor e lágrimas – como deve ser. Estamos impregnados num trabalho coletivo habilmente conduzido por Tiago Rodrigues mas que nada seria sem o talento e inestimável conhecimento de quem o acompanha em palco: Carla Maciel já nos habituou a performances surpreendentes, onde o corpo se entrelaça com a expressão facial, na mais bela união de cores, luz e escuridão (deliramos com Madame Bovary, sofremos com ela e morremos, “todos morremos”, com ela); Gonçalo Waddington é um Mundo Perfeito que nunca se deixa ficar em palco e que não cessa numa defesa que perde e ganha sentido, durante falas bem ditas – seja em português ou em francês – numa interdisciplinaridade de louvar (entre muletas no passado e saltos hoje, é um actor que aguenta firme o elenco, mas que sem os colegas talentosos pouco faria – como qualquer bom ator); Isabel Abreu é um Flaubert minucioso com as palavras, errante e delirante numa linha do horizonte que não deixamos de ser nós (está sempre lá, com o corpo, com a expressão, a sentir cada palavra que é retirada – bem ou mal – de um livro que finalmente se abriu); por fim, Pedro Gil, o surpreendente membro de um elenco sempre surpreendente, é aquele que acusa com fundamento e ao público mais eficazmente se dirige (não salta: contribui, coopera, beija cada um de nós com as suas palavras tão rápidas e fugazes mas que ficam e se ouvem, na mais bela técnica teatral).

 

De Tiago Rodrigues já falámos (talvez demais). Apoiemo-nos num sincopado quadro de cinco atores – jovens mas não-jovens – que ficam, que se entregam e nos beijam, a todos, sem exceção, numa boca seca, desidratada, de boquiaberta estar de espanto, admiração e submersão. A encenação de um texto tão complexo e bem conseguido deve ser clara e concisa. É o caso deste espetáculo, que contém movimentos tão bem estruturados ao mesmo tempo que, sempre em palco, em diferentes “planos”, os atores promovem o olhar do espetador – analítico ou não – como se da pintura de todo um quadro se tratasse. Falamos de uma encenação contemporânea como na vida: o constante encher de um copo com água para a hidratação das personagens – ou dos atores que as compõem – na multiplicidade de vidas que cada um contém. A pintura também minuciosa de um quadro – como nos livros – que nos faz achar que a realidade é a ficção e vice-versa.

No final de tudo, nunca o fim – sempre o recomeço. “Todos morremos”: não Bovary que irá sempre ficar no bater do coração de qualquer jovem espetador iniciante nas lides teatrais. Inspiração de um futuro ou o realismo de uma vida que é como é: de um amor que não é como nos livros, de um sorriso que é (sempre) real ou de uma inocência que nunca o é. Não morre a (cri)atividade teatral e artística, mesmo que sejam essas as pretensões de quem a dirige no palco cada vez menos iluminado – uma guerra do trono monetária e não cultural. Que se entregue o bilhete – não porque não o queremos guardar, mas para que se saiba que o Alkantara não pode morrer. “Todos morremos” mas há uns que perduram – e nós todos, que escrevemos e lemos, representamos e assistimos, dançamos e batemos o pé, cá estaremos sempre, para aplaudir o que nunca morrerá.

Um aplauso de pé – como nos livros. E uma lágrima que só não escorre por não ser capaz no meio de tal aturdimento. Parabéns a todos os que compuseram este festival e especialmente àqueles que o fecharam (não definitivamente, esperamos). Bovary é, em suma, a crítica mais subversiva, enérgica e sentimental que podíamos assistir, ao que não queremos ver no quotidiano que é cada vez menos “como nos livros”.

Bovary encerrou o Alkantara 2014 mas permanece no S. Luiz –Teatro Municipal nos dias 13, 14 (21h) e 15 de junho (17h30m), e custa entre 5€ e 10,50€. Não vai certamente morrer aqui, como nós todos que compomos esta teia social que é a Cultura.

Fotografias de Magda Bizarro cedidas pelo S. Luiz – Teatro Municipal

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