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‘Out of the Box // Loucos anos 20’: uma viagem no tempo no Santiago Alquimista

A terceira sessão Out of the Box, numa noite dedicada aos loucos anos 20, realizou-se dia 17 de maio, novamente no Santiago Alquimista, com exposições, performance de lindy hop, música e até bodypainting

Se na segunda sessão foi difícil chegar ao spot, agora o percurso é bastante acessível para quem já o percorreu. No entanto, às 22h30, o espaço ainda se encontrava meio vazio. A organização declarou que provavelmente a Semana Académica de Lisboa e/ou os Capitão Fausto na Avenida da Liberdade possam ter afastado o público de mais uma noite fora do baralho. Ainda assim, o Café Teatro Santiago Alquimista tem uma atmosfera acolhedora, que se tornou ainda mais apelativa com a batida contagiante da música ambiente, capaz de afastar o sono e a eventual impaciência que o atraso no programa poderia ter originado.

Artistas de alma e corpo


SONY DSCInha Cordovil frequenta a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e trabalha na Associação Cultural Rabbit Hole. Ao Out of the Box  // Loucos Anos 20 levou uma exposição muito pessoal, conjugando crónicas e pintura. Os retratos transparecem familiaridade, relacionamentos emocionais íntimos, porque só pode ser essa a explicação para tanta expressividade (tão clara nos olhos de uma loira de tranças), para as vulnerabilidades que encontramos na maioria dos rostos – “desenhar como quem viola a intimidade do modelo”, diz algures.

Sobre fundos pretos, Agregados de abraços de domingo ou SONY DSCcondomínios de sons bonitos mostra-se em prosa quase de um só fôlego, sem vírgulas, num parágrafo em queda livre, que discorre sobre os gostos, desejos e pensamentos da própria e que, lá pelo meio, conclui que “todos somos artistas porque tivemos o nosso coração partido”. Já Químicas e Químicos é uma carta aberta sobre o desejo e a admiração, sobre a vontade de abraçar, de dar, de partilhar, é um confessar de um vício e Inha confessa: “Quis, acima de tudo, (…) atingir a sobriedade do teu inconsciente”, “só corro a cidade para te levar a casa, só namoro os reflexos das luzes no teu cabelo de linho”,  “Há químicos e merdas em ti SONY DSCque desconheces o conteúdo. Há merdas em mim que criam químicas em tudo”.

Mas O amor é voltar para casa na reserva e por isso há também uma crónica sobre esse estado constante de pré-guerra ou pós-guerra, a necessidade de dar tudo e, não sei se já estava fragilizada pela altura, mas deu vontade de chorar, talvez porque é difícil ficar imune a declarações como “tu foste o sol” ou “sabes o que sinto quando me és incêndios nas minhas folhas”. E assim terminamos a perceber que todos perdemos o sono por alguém ou por causa de alguém, Ou perco o sono por ti ou SONY DSCpor tua causa, que todos somos kamikazes ou o desejamos, que há alguém que se torna tão curioso a nossos olhos que perdemos horas a refletir sobre todos os aspetos da sua existência – “tenho por ti uma curiosidade insaciável” e “se outra pessoa qualquer me beijasse, só lhes ficaria o sabor do teu nome” são palavras que ecoam nos nosso corações pelo menos uma vez na vida, ou que esperamos que ecoem, porque não deve haver sentimento tão bom e por vezes tão doloroso como o de querermos estar com alguém ao ponto de nos fundirmos e tornamo-nos um.

E se assistir a esta exposição foi como estar no confessionário, a sensação de voyeurismo pode ter causado um sentimento de culpa, mas também aguçou a vontade de vasculhar Inha Cordovil. E é impossível ler as suas crónicas apenas uma vez, porque as suas frases complexas (e descomplexadas), as suas metáforas, a sua genuinidade, todo o seu estilo literário, que é nada mais nada menos do que uma extensão do seu ser, a expressão da sua vontade, nos deixa inquietos e pede-nos atenção.

fonte: organização FWD Coop

Já Susana Zenóglio, designer gráfica e ilustradora freelancer, marcou os presentes de outra forma: através de bodypainting, fazendo uso da sua paixão por tatuagens e de canetas especiais para fazer arte nos nossos corpos, num estilo bastante irreverente e em poucos minutos. Houve muito pouca gente a não deixar que o seu corpo fosse utilizado como tela e os resultados foram todos fotografados pela autora.

Lindy Hop, uma viagem à dança dos anos 20

fonte: organização FWD Coop

A atuação de David Afonso e Cátia Fonseca consistiu numa performance de lindy hop, a primeira dança swing a aparecer no final dos anos 20, caracterizada por possuir uma forte comunicação, improvisação, ritmo e incluir elementos de Charleston e sapateado. O par, que já se conhece há alguns anos e começou esta aventura em 2010, demonstrou energia e paixão, continuando festa adentro a divertir-se com o resto dos presentes.

Na atuação em palco, reportaram-nos a outro século, com um filme antigo atrás e a aparecerem como silhuetas por cima da projeção. Foi como assistir à dança do Rei e da Rainha de um qualquer Prom americano, apesar da pouca adesão, com o público maioritariamente no andar superior.

Exposição iluminada

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Paulo Albuquerque, licenciado em Ciências da Computação na Universidade Nova de Lisboa e Consultor na Portugal Telecom, expôs quatro peças fotográficas: mulheres nuas, em espaços escuros, iluminadas pelas luzes que costumam enfeitar as árvores na época natalícia. Observam-se contornos, imagens esbatidas e sensuais, em que os rostos são imperceptíveis, e somos levados a lugares de fantasia.

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Fil the Captain is Alive, novo talento nacional

fonte: organização FWD Coop

Num momento musical, ocorreu, com 45 minutos de atraso, o concerto de Filipe Nicolau, o Fil the Captain: um nome bastante curioso, que reporta a Filipe, mas também soa a feel the captain e a fill the captain. De qualquer maneira, nós sentimo-lo, mas foi ele quem nos alimentou com a voz e uma guitarra, oferecendo-nos um concerto acústico e um repertório constituído tanto por músicas originais como por covers.

Fil the Captain, juntamente com Miguel Nicolau e Paulo Andrade, foi uma das bandas selecionadas para ir tocar ao Optimus Alive 2014. O seu primeiro EP Our Home foi lançado recentemente, sendo composto por apenas quatro temas, disponíveis para download. “Está a dar os primeiros passos, vai tocar no pórtico do Alive em breve (…) Boa parte da missão Out of the Box é dar a conhecer novos valores da cultura nacional”, declarou Filipe Pedro.

DJs & VJsets: feel the beat

fonte: organização FWD Coop

Para acabar a noite da melhor forma, ficámos com Twiggy e mais tarde com as Swinging Sisters. Twiggy é Elsa Garcia, uma jornalista experiente e a diretora da Umbigo Magazine, que desde 2010 que “brinca com a fusão entre o indie, o pop e a eletrónica, o soul, rhytmn, blues, swinging 60’s e yéyé”.

As Swinging Sisterssão um trio feminino de DJ’s, composto por Twiggy (Elsa Garcia), Lady Brighton (Cristina Martins) e Miss Parsley (Sofia Filipe). Sobre Elsa, que também tem colaborado com as suas publicações desde os anos 90, Filipe Pedro crê que “soube animar o público“. Contudo, as Swinging Sisters pecaram pelas “muitas inconstâncias e ‘tripolaridades'”.

fonte: organização FWD Coop

O VJ set estava previsto ficar a cargo dos Final 2 VJ, mas Filipe Pedro teve de trabalhar a solo. “A Sara Vicente adoeceu e tive de me safar com uma app que comprei no próprio dia para o iPad, ao invés de usar o Modul8, um software de VJing bastante mais profissional que a Inês usou na primeira festa e que a Sara também domina”. O público pareceu gostar bastante, talvez seja para repetir.

A On Public Demand Lisbon esteve novamente presente, para continuar a chamar a atenção para o crowdfunding.

fonte: organização FWD Coop

Out of the Box News

No que diz respeito ao contacto feito com os artistas, Filipe Pedro,  que, além de membro da FWD Coop, é Coordenador Multimédia na Agência Lusa e Diretor da Festmag, confessou que “alguns nomes já vinham de janeiro, quando estávamos a idealizar o conceito das festas”. “O habitual melting pot de ideias resulta das nossas reuniões semanais (…), mas “há sempre alterações na semana que antecede o evento, algumas mesmo no dia”. De qualquer forma, Filipe afirma que “outras escolhas são sempre possíveis” e que felizmente os convites têm sido todos aceites até agora. “É um working progress, no final do dia a rede alarga e há mais pessoas a conhecerem o Out of the Box.

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Infelizmente, esta sessão não teve tanto público, apesar da qualidade se ter mantido, ainda que não tenha estado ao nível da primeira sessão, a melhor até ao momento. “Claro que gostamos mais de ter 250 ou 350 pessoas do que ter 150. Mas pelo menos não tivemos prejuízo – estamos a conseguir recuperar o investimento inicial (…). E isso neste momento é o mais importante. Claro que a médio/longo prazo temos de procurar soluções para captar a atenção de mais pessoas”. Entretanto, estão a ser estudadas “soluções para a próxima festa de dia 21 de junho”, já com o cartaz fechado, num “conceito ligeiramente diferente, um bocadinho mais temático”, que promete o retorno de alguns nomes do Out of the Box // Cultura Urbana.

Out of the Box // Loucos anos 20 não ultrapassou as expectativas, mas também não as deitou por terra. Tendo em conta os contratempos, “o resultado foi assinalável”. A fórmula modelo para evitar imprevistos ainda está por descobrir, mas esta é sem dúvida uma iniciativa cheia de potencial, que reflete muito trabalho e, sobretudo, muita paixão e vontade de fazer diferente. “É uma autêntica dream team que começa a ganhar calo”.

Em nota final, o MUVI – Music Video & Documentary Film Festival, já tem a competição oficial finalmente aberta desde o dia 1 de junho. Para mais informações basta seguir a página do Facebook, a oficial e todas as outras plataformas em que está presente (google+, twitter, vimeo e youtube). Até lá, continuamos com as noites fora do baralho, sempre a surpreender.

Fotografias de Raquel Dias da Silva

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