Foi uma noite invulgar, mas o cartaz do Arraial do IPL já o fazia prever: DJ Patel iniciaria a festa com o seu repertório esquizofrénico, ao qual se seguiria Hugo Rizzo com música eletrónica mais comercial; o contraste surgia com o próximo nome: Emanuel, o rei das festas de aldeia mais propício a um extenso ‘comboio’ humano do que a saltos ininterruptos. A terminar íamos ter o set pesado de Diego Miranda com poucos vocais, excelente para os que já estivessem mais alegres.

A nossa previsão estava certa. Contudo, o contraste não resultou assim tão mal. Houve tempo para tudo, até para nos habituarmos às transições mais esquisitas da história dos arraiais: de Baby, I Love You (I Love Kuduro House) para as mais que usadas músicas dos Swedish House Mafia no início do set de Diego Miranda.

DJ Patel Arraial do IPL

Por volta das 23h, no Campus de Benfica (IPL) já se encontravam alguns festivaleiros a fazer o warm-up. No recinto ainda eram poucos os que se iam movimentando. Mas tudo muda quando o peculiar DJ Patel – pelo 3º ano consecutivo no Arraial do IPL – entra em palco e pede a todos que se aproximem porque, de facto, a festa da esquizofrenia musical estava prestes a começar.

O assassínio de Animais (Animals, Martin Garrix) dá-nos pensamentos suicidas, mas logo nos apercebemos que conhecido DJ Patel não está ali para nos alegrar os ouvidos. Está e esteve ali para nos entreter, como tão bem sabe. Com um galo – em peluche – na cabeça, o computador ao lado e o microfone sempre hirto, o DJ conseguiu juntar a multidão que chegava na frente do palco sem precisar de muito apelo ao pathos.

Arraial do IPL

Na transição constante entre música eletrónica mais comercial, kuduro, sertanejo, ou outros estilos de música amados pelo público, o DJ Patel não resistiu em chamar as meninas de cada escola superior do Instituto Politécnico de Lisboa para com elas dançar a tão aclamada pelo público feminino Show das Poderosas. Se ainda não tínhamos notado, agora a esquizofrenia é evidente: de Bicicletinha (Calcinha Preta), o DJ Patel passa para EDM (Eletronic Dance Music) e depois regressa às músicas brasileiras com Lepo, Lepo.

Aliás, foi com este recente hit que conseguiu meter o público a cantar, num bonito momento de acapella. Psirico, autor da canção, ‘não tenho carro, nem teto’, mas consegue meter a multidão a fazer a dança. A esquizofrenia continua com Tsunami, Richie Campbell, Hey Ya, Oh Maria Dá-me o Pito (que dá aso aos primeiros ‘comboios’ humanos que invadiram o recinto), Baile de Verão (Aperta Com Ela, José Malhoa), e até com o kuduro da guilty pleasure de alguns: Não Faz Isso Bela. Para terminar, o DJ Patel deixa o palco com Eu Quero Todas e Baixó – “óbrigado“, com sotaque inglês, disse ele.

Arraial do IPL

Pouco depois, já quase a chegar à uma da manhã, é Hugo Rizzo quem preenche o palco. Rizzo não surpreendeu, mas cumpriu o seu papel. Continuou a onda comercial, e não saiu dela para ir a lados mais alternativos, até porque assustaria os fãs que esperavam o cabeça-de-cartaz: Emanuel e as suas bailarinas.

O set andou à volta de misturar nostalgia com atualidade: We Will Rock You, Party Rock Anthem, Smells Like Teen Spirit, It’s My Life (Bon Jovi) e a mais que aclamada Boyaah (dos não muito conhecidos Showtek) foram o reflexo disso mesmo. Hugo Rizzo não deixou a música portuguesa de lado e, por isso, não deixou de tocar Casanova, do Regula, Retratamento, dos Da Weasel, e A Minha Casinha, dos Xutos e Pontapés.

Houve mesmo tempo para tudo: perdemos a cabeça com Eminem (Lose Yourself), os braços com Crazy In Love (Beyoncé), as ancas com Talk Dirty (Jason Derulo) e as mãos, a apontar para cima, com Hey Brother (Avicii). Tempo até para o playback de Salvador Seixas com Heat The Cold, uma das colaborações das músicas originais de Hugo Rizzo. Felizmente, Rizzo deu-nos uns bons momentos finais: Pursuit Of Happiness é ‘kel’ hino, e terminar com Decisions (Borgore) merece um aplauso.

Arraial do IPL

Uma hora depois do previsto, às 2h30, Emanuel entra no palco acompanhado por quatro bailarinas que se vestiram para a noite de verão. “É a loucura”, ouvia-se. As luzes acendem-se, e o bailarico começa: Ó Sr. Guarda, Não Leve A Mal. O playback – ou uma mistura entre som ao vivo e uma versão pré-gravada – já era evidente mas ao rei das festas da aldeia tudo se perdoa. O repertório passou por aquelas músicas que ninguém sabe, escondidas nos vários álbuns de um Emanuel que, na verdade, estudou música e é exímio na composição. Mas foram os grandes hits – que estão na cabeça até dos que odeiam música popular portuguesa – que animaram o arraial.

É O Piri-Piri aqueceu os corpos e Toma Toma a Felicidade – por muito que não saibamos a letra, a batida de festa da aldeia é suficiente para que os ‘comboios’ humanos descarrilem pelo recinto. Emanuel leva-nos até ao verão de 2011 com Hino À Alegria (Let’s Go), e canta de seguida outro hino, desta vez para as mulheres presentes: Baby, És Uma Bomba, a que se sucede E Nós Pimba. Nada é por acaso.

Arraial do IPL

Já a despedir-se, Emanuel meteu o público a dançar kuduro com a sua canção mais conhecida – Ritmo Do Amor. Ninguém ficou indiferente à dança, e mesmo os que não sabiam lá tentaram acompanhar o ritmo. Para terminar repetiu o sucesso de 2012 – Baby, És Uma Bomba: “nananana love me baby nananana”.

Para fechar a pista de disco, Diego Miranda veio dar um ‘olá’ ao arraial já passava das 3h30 da manhã. Miranda foi o mais alternativo, apostando com força em EDM mais pesada, deixando os vocais de lado. Ainda assim, não fugiu aos clássicos: Swedish House Mafia, Tsunami, Boyaah e Pursuit Of Happiness fizeram-se ouvir.

Arraial do IPL

O DJ português pouco interagiu com o público, mas conseguiu aguentar a festa quase até o sol nascer. De certeza que os fãs de house, drum and bass, e techno ficaram contentes. Novas roupagens de Work Hard, Play Hard, Reload e Alive misturaram o comercial com o underground, mantendo o público menos alternativo feliz. Para acabar o Arraial do IPL em grande, Diego Miranda arrebatou os corações com Waiting All Night e meteu todos aos saltos rápidos, com o ritmo cardíaco impróprio para quem tivesse passado demasiado tempo perto dos bares. Para o ano há mais.

Reportagem Fotográfica: Élio Santos