Pode seguir os caminhos de uma narrativa convencional, mas acaba por se destacar por ter um lado mais original e invulgar: Quase Gigolo é o quinto filme realizado pelo ator John Turturro, e é protagonizado pelo próprio e pelo impagável Woody Allen.

Murray (Woody Allen) é o dono de uma livraria, e está a ter graves problemas financeiros. O seu melhor amigo Fioravante (John Turturro) decide ajudá-lo através de um part-time como gigolo. Ele começa a ser muito procurado e requisitado por várias mulheres ricas, graças ao passa-palavra de Murray, que se torna no seu manager. Mas a pouco e pouco os sarilhos aumentam, e ambos veem-se enrolados numa embrulhada de confusões amorosas e financeiras, que envolve uma mulher judia viúva e todas as raízes religiosas às quais está ligada…

Ter duas das maiores figuras de culto do Cinema americano moderno (um é colaborador habitual dos irmãos Coen, tendo emprestado corpo e voz a inesquecíveis personagens dos filmes História de Gangsters e O Grande Lebowski, o outro dispensa qualquer apresentação) a cooperarem, em conjunto, num filme, parecia ser algo quase impossível de ser concretizado: mas eis que surge Fading Gigolo, e esse pessimismo pode ser posto de lado. Talvez alguns estivessem à espera de uma grande obra prima da comédia contemporânea, mas enganaram-se: não é esse o objetivo da história escrita e realizada por Turturro, que cria um filme com toques de irreverência e entusiasmo a partir de vários lugares comuns, sem precisar de ser óbvio ou excessivamente vulgar.

Esta é, provavelmente, uma das histórias de amor mais insólitas a estrear nos cinemas portugueses em 2014. Senão vejamos: há um gigolo improvável no centro da narrativa, os desejos que desperta em senhoras da alta sociedade nova iorquina e a paixão que se desenrola entre ele e a personagem mais contida e conservadora da trama. Será isto uma surpresa? Não, porque romances que rumam em busca da simplicidade têm sido, desde sempre, uma das ferramentas mais usadas e abusadas pelo Cinema – mas se a mesma história é contada outra vez, John Turturro sabe mostrar como aquilo que já conhecemos pode voltar a ter encanto. O seu próprio encanto.

É um romance desajeitado – na diferença de preceitos e contradições religiosas que constrói barreiras entre Fioravante e a viúva judia – e uma crítica aguçada a um modo de vida americano muito marcado pelas raízes judaicas que marcam a História do País (e a própria História do Cinema – numerar todos os judeus influentes da indústria revela-se uma tarefa de difícil precisão e execução), e pelas regras que as mesmas impõem. Turturro explora a vida e os bairros onde cresceu e cria pontos de contacto também com o próprio Woody Allen e as reflexões teológicas que fez em vários dos seus grandes filmes (Ana e as Suas Irmãs e Crimes e Escapadelas são dois dos casos mais marcantes). E esta é uma das maneiras pelas quais a comédia aparentemente convencional mostra ser diferente, tal como na abordagem das relações humanas e das interações que criamos uns com os outros.

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Os contornos desconcertantes da narrativa são muito bem aproveitados pelas interpretações dos atores, não menos interessantes e comprometedoras. O protagonista de John Turturro é um pouco mais apagado que as restantes figuras do filme, e de forma propositada: é o seu manager Woody Allen que trata das contas e dos “serviços” que ele vai ter que prestar. E nota-se que o próprio ajudou na escrita do guião: os seus diálogos são completamente allenescos, repletos de piadas secas, pequenos sarcasmos e notórias faltas de respeito para com a seriedade pedida pelo senso comum. É nas suas filosofias que encontramos as maiores provocações da fita – e não nas cenas que mostram a enorme sensualidade das atrizes Sharon Stone (e de facto, o seu cruzar de pernas continua inconfundível e irresistível) e Sofia Vergara (da série Uma Família Muito Moderna).

Não deixa de ser interessante que, nas boas comédias (mesmo nas que não são tão inovadoras, como esta), os acasos não são, realmente, fruto do acaso, e as pequenas coisas acabam por ser aquilo que conta. E é da sucessão dessas “falsas” demonstrações do destino, uma marca registada da comédia, que se faz um filme muito agradável e que proporciona uma boa hora e meia de divertimento. Os seus pequenos defeitos saem inferiorizados graças ao espírito do humor e da realização de Turturro, que poderia, assim, apostar com mais regularidade nesta função de bastidores – antes de Quase Gigolo, realizou quatro filmes, e só o mais recente é que lhe irá trazer mais notoriedade neste campo, ultrapassando o pequeno impacto criado por Romance e Cigarros, título de 2005.

Apesar da sua aparente simplicidade (termo que aqui deve ser considerado sinónimo do adjetivo “simplista”), Quase Gigolo não se trata de “mais um filme” a estrear em Portugal: tem o seu quê de curiosa a sua passagem pelo nosso país, e mesmo que vá dividir opiniões, vale a pena descobrir este conto erótico e filosófico que reflete as divergências da religião que influenciam o modo de vida as pessoas que a praticam (como de igual forma as que não são crentes) e os dogmas que ainda são muito presentes – neste caso em particular no judaísmo, fortemente sentido nas pequenas comunidades fechadas e conservadoras, que o filme retrata de uma maneira relevante.

Quase Gigolo não pretende ser mais do que aquilo que os seus recursos pedem, ao contrário de outras comédias que tentam, erradamente e sem sucesso, afastar-se das coisas centrais de um filme de cariz humorístico. Comédias fazem-se muitas, umas mais complexas e divertidas do que outras – mas esta não necessita de complexidades para suscitar alegria no espectador, e também alguma empatia graças a uma história que possui algo de diferente, dentro dos seus convencionalismos.

Entre tantas nulidades, surge uma comédia que faz mesmo rir, e que não fala do conceito de gigolo pelos motivos mais idiotas (quem ainda se lembra daquele horripilante díptico protagonizado por Rob Schneider?). Pode não ser nada de extraordinário, mas não precisa: é uma comédia com piada, simples, bem feita, que sobressai pelos altos talentos que envolveu, e que sabe ser irreverente e subtil ao mesmo tempo, tendo boas ideias e alguma imaginação.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título: Fading Gigolo

Realizador: John Turturro

Argumento: John Turturro

Elenco: John Turturro, Woody Allen, Sharon Stone, Sofia Vergara

Género: Comédia

Duração: 90 min.