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Mil e Uma Maneiras de Bater as Botas: o humor corrosivo de Seth McFarlane

Não há dúvidas que se trata de um dos filmes mais controversos do ano – pela sua comédia mais escatológica e adulta e pela abordagem desconcertante que faz ao mundo do far west. Mas para os apreciadores do humor do multifacetado Seth MacFarlane, esta é uma aposta ganha, e entre bons e maus momentos de comédia, o filme acaba por surpreender pela positiva.

Albert (Seth MacFarlane) é um pastor cobarde, desprezado pela namorada (Amanda Seyfried) depois de ter desistido de um tiroteio. Ela acaba a relação e troca-o pelo desprezível Foy (Neil Patrick Harris). Entretanto, uma misteriosa mulher (Charlize Theron) chega à cidade, e ajudará Albert a enfrentar o novo namorado da sua ex. Mas essa mulher é casada com um temido fora da lei (Liam Neeson), que quando chega à cidade, vem à procura de vingança…

Mil e Uma Maneiras de Bater as Botas: quando Family Guy encontra o velho Oeste e o confronta num duelo pacífico, onde a provocação da maior gargalhada é o prémio que está em jogo. Talvez seja a forma mais sucinta, e contudo, mais apropriada, para se resumir o espírito da nova comédia de Seth MacFarlane, que sucede o grande êxito de bilheteira Ted (cuja sequela está já em preparação). O filme parodia os westerns e a mitologia desta lendária época da História dos Estados Unidos da América, pegando em elementos que tentam satirizar aquilo que o lado heróico dos títulos do género tenta “esconder”: as condições de vida degradantes e deprimentes daquele tempo e o atraso que marca todo o sistema de “Lei do Mais Forte”, que caracteriza tão bem esta etapa evolutiva do país.

É uma homenagem ingénua e despretensiosa ao western. Não é este o objetivo da história de Seth MacFarlane, mas é inevitável que nele encontremos algumas referências carinhosas aos grandes filmes do género que povoam o imaginário da Hollywood clássica… e que marcaram o Cinema. Muitos críticos tentarão criticar a obra pela falta de “rigor” dessa homenagem e pelas supostas obrigações que deveria cumprir (se desempenhasse esse papel de tributo), mas temos de colocar os pontos nos is: o comediante só quer parodiar, de forma pura e dura, os pequenos detalhes que apenas ele e a sua equipa conseguem descobrir e apurar com tanta criatividade e humor. E conseguem fazê-lo de forma hilariante. Pode não ser tão consistente como Balbúrdia no Oeste, o spoof de Mel Brooks aos filmes de “coboiada”. Mas tem os seus méritos próprios e proporciona grandes doses de divertimento – especialmente para todos aqueles que apreciarem o humor menos abrangente e “desagradável” de MacFarlane.

O filme contém todas as referências que fazem o universo de Seth MacFarlane: desde os mecanismos próprios que ele utiliza para atirar as suas piadas ao espectadores, passando pelos temas que gosta de abordar (por repetidas vezes) no seu humor, saindo, em certas ocasiões, com tiradas mais inteligentes, e outras completamente desprezíveis e, até, repugnantes (isto encontramos na comédia mais física e excessivamente brejeira de alguns sketches da trama). E aí já não se pode falar de se gostar ou não deste tipo de humor: esses pequenos momentos mais escusados de comédia são completamente insuportáveis. Mas, felizmente, são pequenos e rápidos, não tirando da nossa memória os momentos mais bem conseguidos.

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A realização não se destaca de forma significativa, porque apesar de MacFarlane possuir vários talentos, um deles não será, garantidamente, este: ele acaba por apenas fazer a tarefa da maneira mais desinspirada possível, com planos muito curtos e televisivos, onde encontramos um lado mais facilmente associável à telenovela na maneira como se mostra sempre a reação de todas as personagens em cada momento de clímax da narrativa.

Mas apesar também da grande convencionalidade da história, o filme vale mesmo pelas suas fabulosas personagens (e todos os símbolos que representam), pela versatilidade dos seus bons gags e pelas magníficas interpretações do elenco, onde encontramos vastíssimos e surpreendentes cameos de diversas personalidades, que ajudam a dar a volta a uma comédia que podia ser tão óbvia, seca e desinteressante como tantas outras. Noves fora, as coisas más ficam de lado com a quantidade de gargalhadas que proporcionam as boas.

E mesmo que não mostre grande talento como realizador, Seth MacFarlane revela outra faceta da sua versatilidade, que deveria ser mais explorada num futuro próximo: as suas qualidades como ator de comédia, que sobressaem pela vivacidade e criatividade que atribui à sua personagem, o protótipo de tudo a que os westerns se opõem – a falta de coragem e o anti-heroísmo. Albert, no entanto, acaba por ser um herói, apesar de se tratar de um cobardolas incapaz de sobreviver sozinho no meio dos maus da fita do Velho Oeste. Mas acaba por representar a forma como um ser humano do século XXI poderia tentar viver naquela época e compreender as contradições da mesma – e estas interseções entre passado e presente acabam por criar alguns dos momentos mais brilhantes e inteligentes do filme.

Mil e Uma Maneiras de Bater as Botas mostra, mais uma vez, a versatilidade de funções que pode desempenhar um dos maiores nomes da comédia moderna. E goste-se ou não dele, há que louvar a tentativa audaz que levou a cabo ao fazer uma comédia diferente das demais que preenchem as salas na atualidade, não alinhando nos estilos mais populares de figuras como Judd Apatow ou os irmãos Farrelly.

Tal como em Family Guy, há piadas satíricas, chocantes e surreais que funcionam muito melhor do que outras – e são elas que acabam por ficar na nossa memória. Não é a história o que interessa mais aqui, mas tudo aquilo que os personagens conseguem criar a partir dela. Mil e Uma Maneiras de Bater as Botas sai vencedor por cumprir o objetivo de divertir os espectadores e de não perder, em grande parte das cenas, o espírito do humor que tornou único e inconfundível o estilo de Seth MacFarlane. Talvez vá perder algum entusiasmo por ter sido alvo de uma campanha tão criadora de falsas expectativas, mas vale a pena compreender a comédia pelo que ela pretende ser – porque assim, até acabarão por sair recompensados. Os fãs das séries televisivas do autor, ou do filme Ted, vão com certeza gostar desta abordagem peculiar ao Velho Oeste americano.

7/10

Ficha Técnica:

Título: A Million Ways to Die in the West

Realizador: Seth MacFarlane

Argumento: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild

Elenco: Seth MacFarlane, Charlize Theron, Liam Neeson, Amanda Seyfried

Género: Comédia

Duração: 103 min.

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