Não vale mesmo a pena. Começa até a ser perigoso, do ponto de vista cardíaco, afeiçoarmo-nos a alguma personagem em Game of Thrones (A Guerra dos Tronos), seja ela qual for. Quando tudo levava a crer que estávamos perante mais um caso à la David e Golias, as nossas fúteis esperanças acabaram por se ver, mais uma vez, literalmente despedaçadas.

Aviso: este artigo contém spoilers

Uma separação abrupta e dolorosa de dois companheiros de longa data, uma transformação completa e cativante de uma menina que passou a mulher, o nascimento de um novo – e maniacamente sádico – herdeiro do Norte (The North), um ataque sangrento e impiedoso a um bordel de quinta categoria e um combate com um desfecho surpreendente e visualmente chocante – assim se resume, de uma forma bastante simplista, aquele que foi um dos melhores episódios da presente temporada de Game of Thrones até ao momento.

Este oitavo capítulo da quarta temporada da série criada por David Benioff e D. B. Weiss, intitulado The Mountain and the Viper, foi originalmente transmitido no domingo à noite, nos Estados Unidos da América, pela HBO; em Portugal, foi para o ar na terça-feira, no canal Syfy. Ainda não o viste? Incompreensível.

De um modo geral, e apesar do título – que evoca, de forma extremamente óbvia, o anunciado combate entre Gregor Clegane (conhecido por The Mountain – A Montanha) e Oberyn Martell (cuja alcunha era Red Viper – Víbora Vermelha) –, este antepenúltimo capítulo da temporada não se limitou a mostrar-nos o desfecho do julgamento de Tyrion Lannister, presenteando-nos também com enredos especialmente interessantes em Meereen, Moat Cailin (Fosso Cailin) e no castelo The Eyrie (Ninho de Águia). De facto, com a exceção das ocorrências na Muralha (The Wall) e arredores – que continuam a progredir de modo excessivamente lento –, este episódio viu vários dos atuais plots da série avançarem de forma significativa, fazendo-o sempre, porém, a um ritmo perfeitamente adequado.

Apesar de tudo, é inegável que o ponto alto do episódio coincidiu com o confronto entre o Príncipe de Dorne e o gigante Clegane, que teve um desfecho inesperado, mesmo tendo em conta o facto de estarmos a falar de Game of Thrones.

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A expressão de muitos fãs no final do episódio. Coitada da Ellaria.

Passemos, agora, a uma análise mais detalhada de The Mountain and the Viper.

Como tem sido hábito, comecemos pela Muralha e seus locais circundantes, como é o caso da pequena localidade de Mole’s Town (Vila Toupeira). De facto, o episódio abriu precisamente naquela que é a principal – e única – atração da referida vila: um imundo bordel, muitas vezes frequentado por homens da Night’s Watch (Patrulha da Noite) que não respeitam na totalidade o juramento que outrora fizeram.

Depois de uma longa ausência, Ygritte (Rose Leslie) e companhia voltaram a entrar em cena, chacinando implacavelmente todos os habitantes de Mole’s Town. As exceções foram Gilly (Hannah Murray) e o seu bebé, que se viram poupados pela ex-namorada de Jon Snow (Kit Harington), num raro ato de misericórdia da sua parte.

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“Caladinha, Gilly, ou o meu amigo Styr cozinha-te para o jantar.”

As notícias do referido ataque chegaram rapidamente a Castle Black (Castelo Negro), onde vimos Samwell Tarly (John Bradley) finalmente a perceber que ter enviado Gilly para longe da Muralha não foi, aparentemente, a melhor coisa a fazer. Entretanto, Jon Snow, Grenn (Mark Stanley), Pyp (Josef Altin) e Edd (Ben Crompton) começaram a fazer contas à vida, agora que os Wildlings (Povo Livre) estão verdadeiramente próximos. Pelos vistos, serão 100 homens da Night’s Watch contra 100.000 Wildlings; se existissem casas de apostas em Westeros, a distribuição das odds não seria muito difícil de prever.

O enredo da Muralha tem sido, claramente, o que se tem arrastado mais ao longo da presente temporada, muito provavelmente devido a questões relacionadas com a organização temporal da narrativa geral da história. Esperemos, por isso, que estes dois últimos episódios devolvam algum interesse às aventuras de Jon Snow.

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100 vs. 100.000? A vida em Westeros é mesmo injusta.

Mais a sul, acompanhámos a reconquista de Moat Cailin aos homens das Iron Islands (Ilhas de Ferro) – uma força com cada vez menos peso na atual guerra pelos Sete Reinos (Seven Kingdoms) –, por parte das tropas da Família Bolton. Tal não teria sido possível de alcançar tão facilmente sem a participação de Reek (Cheirete – Alfie Allen), que teve de vestir a pele do outrora orgulhoso e confiante Theon Greyjoy para convencer os homens ao serviço do seu pai a renderem-se e a entregarem pacificamente o castelo.

Alfie Allen esteve soberbo neste episódio, tendo conseguido transmitir-nos de forma brilhante toda a complexidade da situação da sua personagem, que se encontra completamente quebrada e em constante conflito interno – como, aliás, se pode ver pelo modo marcadamente balbuciante como fala.

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“Mal posso esperar por ir para casa dar banho ao Mestre Ramsay.”

Como era de esperar, os homens ajuramentados à Família Greyjoy acabaram por ser mortos e esfolados (ou esfolados e mortos) por Ramsay Snow (Iwan Rheon), mesmo depois de lhes ter sido prometido que, no caso de aceitarem a rendição, seriam livres para voltar à sua terra natal. Mas todos nós sabemos que Ramsay nunca permitiria tal coisa, nem nunca perderia uma oportunidade tão flagrante para dedicar algum tempo aos seus sádicos hobbies.

Como recompensa pela reconquista de Moat Cailin, Roose Bolton (Michael McElhatton) decidiu legitimar Ramsay – que é seu filho bastardo, convém recordar –, tornando-o no novo herdeiro do Norte, que é o maior de todos os Sete Reinos (pelos vistos, maior até do que todos os outros Reinos juntos). Não se antevê, portanto, um futuro muito risonho para as terras nortenhas. Saliente-se ainda o facto de os Bolton terem chegado a Winterfell, que aparentemente será a nova casa da Família. 

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“Papá, já sou um Bolton? Agora posso esfolar quem me apetecer?”

Próxima paragem: The Eyrie. É raríssimo vermos Petyr Baelish (Aidan Gillen) entre a espada e a parede, tendo em conta o facto de o homem parecer estar sempre um passo à frente de todos os que o rodeiam. No entanto, foi precisamente isso que aconteceu neste episódio: os Lordes mais poderosos do Vale (The Vale), de entre os quais se pode destacar o pomposo Yohn Royce (Rupert Vansittart), não perderam tempo e decidiram interrogá-lo a respeito da morte de Lysa Arryn.

Littlefinger (Mindinho) parecia ter tudo sob controlo – alegando que a sua esposa se tinha suicidado –, até Sansa (Sophie Turner) ter sido convocada. A extrema apreensão de Lorde Baelish foi quase palpável, sobretudo depois de a jovem Stark ter contado a verdade acerca das suas origens. Contudo, surpreendentemente, vimos que a outrora frágil e ingénua Sansa estava apenas a desempenhar um papel, com o intuito de ilibar o seu ‘tio’, demonstrando que também já sabe como jogar o jogo dos tronos. O orgulho de Petyr foi visível.

Entretanto, no exterior do castelo, Arya (Maisie Williams) e Sandor Clegane (Rory McCann) tomaram conhecimento da morte de Lysa, o que despoletou uma irónica e resignada gargalhada da jovem Stark. Grande momento.

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“A minha tia Lysa faleceu? Melhor anedota de sempre.”

Sansa Stark não é, de todo, uma das personagens que reúne maior favoritismo por parte dos fãs da série. Contudo, como se pôde ver pela prestação de Sophie Turner neste episódio, a culpa não é, certamente, da atriz. Num curto espaço de tempo, vimos Sansa passar de uma menina assustada, cheia de sonhos infantis e irrealizáveis, a uma jovem mulher, confiante e astuta, capaz de compreender o que precisa de fazer para perseverar no tremendo mundo em que vive. Toda esta transformação foi perfeitamente interpretada por Sophie Turner, que finalmente mostrou que Maisie Williams não é a única jovem atriz com talento em Game of Thrones.

Por fim, refira-se que a metamorfose de Sansa Stark se tornou ainda mais óbvia após a sua súbita mudança de visual – o seu novo vestido, ousado o suficiente para deixar Petyr Baelish com uma indisfarçável expressão de desejo, parece ter sido retirado do armário da Evil Queen, da série Once Upon a Time. Sem a mãe por perto para o proteger – e amamentar –, Robin Arryn (Lino Facioli) será, aparentemente, mais um importante peão nas mãos do maquiavélico Littlefinger.

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“Onde estão as macieiras? Quero oferecer uma maçã à Branca de Neve.”

Abandonemos Westeros por um momento, para nos focarmos brevemente nas aventuras de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) e companhia. Desta vez, Grey Worm (Verme Cinzento – Jacob Anderson) e Missandei (Nathalie Emmanuel) tiveram direito a um protagonismo acrescido, tendo-nos sido dado a entender que poderá vir a surgir alguma espécie de romance entre ambos, independentemente daquilo que o líder dos Unsullied (Imaculados) tem – ou não tem – entre as pernas.

Será interessante acompanhar o desenrolar desta peculiar relação, entre duas personagens que, no fundo, têm tanto em comum.  Saliente-se ainda o facto de o inglês – assumido como sendo a Língua Comum no mundo de Game of Thrones – de Grey Worm estar a melhorar consideravelmente.

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“Missandei, venho pedir-te desculpa por te ter visto nua. No entanto, apreciei bastante. Mesmo sem ‘pilar e pedras’.”

Mas o mais importante veio mais tarde: a traição de Jorah (Iain Glen) foi finalmente revelada, depois de quatro temporadas mantida em segredo. Os fãs mais distraídos provavelmente já nem se recordavam de que, inicialmente, o velho Mormont trabalhava como espião sob as ordens de Robert Baratheon, passando informações relativas aos irmãos Targaryen ao misterioso Varys (Conleth Hill). Tywin Lannister (Charles Dance), mais uma vez através de uma carta, fez chegar a informação a Barristan Selmy (Ian McElhinney), que tratou logo de informar a khaleesi de que o seu velho companheiro nem sempre esteve verdadeiramente do seu lado.

A decisão de Daenerys de banir Jorah pode ser vista como algo exagerada, por um lado, já que o velho cavaleiro há muito que lhe era totalmente fiel; contudo, por outro lado, a relação entre ambos acaba por ser baseada numa mentira, mentira essa que pôs em perigo a própria Dany e o filho que transportava no ventre. Apesar de tudo, talvez Mormont até tenha tido sorte por não ter sido crucificado ou lançado aos dragões. Resta saber para onde se dirigirá agora o cavaleiro exilado, já que nem a confissão do seu amor pela sua Rainha lhe valeu de alguma coisa.

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“Vai-te embora e nunca mais voltes.”

Finalmente, centremo-nos em King’s Landing (Porto Real) e no combate pelo qual todos os fãs ansiavam desesperadamente, já que as vidas de Oberyn (Pedro Pascal) e Tyrion (Peter Dinklage) – dois ‘fan favourites – estavam em jogo. Antes do confronto propriamente dito, assistimos a uma estranha conversa – talvez a última – entre os dois irmãos Lannister, acerca do seu primo mentalmente incapacitado Orson e dos escaravelhos que o mesmo gostava de esmagar impiedosamente.

Tyrion sempre quis, a todo o custo, conhecer o porquê de o seu primo retirar prazer do extermínio de insetos; contudo, para além de nunca ter chegado a conclusão nenhuma, o seu irmão Jaime (Nikolaj Coster-Waldau) também não o conseguiu ajudar. Mais tarde, após o combate que definiu o seu destino, Tyrion provavelmente acabou por compreender que muitos homens fazem o que fazem sem qualquer razão óbvia e aparente. Como é o caso de Gregor Clegane (Hafþór Júlíus Björnsson).

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“Porquê, Orson? Porquê? Porque é que aniquilaste todos aqueles inocentes escaravelhos?”

Já todos sabíamos que ninguém está a salvo no mundo de Game of Thrones. Nem vilões, nem heróis, nem nenhum outro de classificação um pouco mais ambígua. Mas matar uma personagem de extrema importância que tinha sido introduzida apenas na presente temporada? Não era muito expectável, mesmo tendo em conta aquilo a que a série nos tem vindo a habituar. Porém, Oberyn Martell, o Príncipe de Dorne, está definitivamente morto, literalmente esmagado pelo gigante Gregor Clegane.

Se, por um lado, a raiva acumulada pela morte da sua irmã Elia o ajudou a quase derrotar o seu oponente, foi essa mesma raiva que, em última instância, conduziu Oberyn à sua morte. Porque o Víbora Vermelha não quis dar o golpe final ao Montanha antes de o ouvir confessar os crimes que cometeu no passado: “You raped her! You murdered her! You killed her children!” (“Tu violaste-a! Tu assassinaste-a! Tu mataste os seus filhos!“). Apesar de tudo, o Príncipe de Dorne acabou por ouvir a confissão por que ansiava há décadas; o preço, no entanto, foi a sua própria vida. No rescaldo do combate, resta saber se Gregor vai conseguir sobreviver e se Tyrion, condenado à morte, acabará por ser mesmo executado. Esperemos que não.

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Polpa de Oberyn.

Pedro Pascal foi uma adição fantástica ao elenco da série, tendo desempenhado o seu papel de forma brilhante, conseguindo conquistar o apreço dos fãs num curto espaço de tempo. Também por isso é de lamentar o desfecho deste episódio. Uma referência ainda para o realizador Alex Graves  que dirigiu também o segundo capítulo da presente temporada, na qual se deu a morte de Joffrey –, pelo trabalho fenomenal evidenciado em The Mountain and the Viper. Destaque óbvio para a luta, que foi espetacularmente coreografada, e para os efeitos especiais utilizados aquando da morte de Oberyn

Um episódio esmagador.

Notas Finais do Episódio:

Melhor cena – Combate entre Oberyn Martell e Gregor Clegane

Melhor ator / atriz – Sophie Turner (Sansa Stark)

Melhor fala – “You raped her! You murdered her! You killed her children!” / “Tu violaste-a! Tu assassinaste-a! Tu mataste os seus filhos!” (Oberyn Martell)

Momento de ‘comic relief‘ (alívio cómico) – (Daenerys) “When the slavers castrate the boys, do they take all of it?” (Missandei) “All of it?” (Daenerys) “The… The pillar and the stones.” / (Daenerys) “Quando os esclavagistas castram os rapazes, eles tiram tudo?” (Missandei) “Tudo?” (Daenerys) “O… O pilar e as pedras.

Novos locais adicionados ao genérico inicial – Moat Cailin (Fosso Cailin)

Outras personagens presentes no episódio não indicadas na review – Cersei Lannister (Lena Headey); Tormund (Kristofer Hivju); Ellaria Sand (Indira Varma); Pycelle (Julian Glover); Mace Tyrell (Roger Ashton-Griffiths); Styr (Yuri Kolokolnikov); Anya Waynwood (Paola Dionisotti); Ralf Kenning (Grahame Fox); Adrack Humble (Jody Halse); Donnel Waynwood (Alisdair Simpson); Vance Corbray (Richard Doubleday); Kegs (Tim Landers); Black Jack Bulwer (Cormac McDonagh); Mully (Andy Moore)

Nota – 9/10

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Terminada a review, resta-nos esperar por um novo capítulo, que chega já no próximo domingo. Se tiverem curiosidade, vejam a preview do nono e penúltimo episódio, divulgada pela HBO:

https://www.youtube.com/watch?v=UGj-IwRMA7s