A estreia mundial de marfim e carne – as estátuas também sofrem de Marlene Monteiro Freitas decorreu dia 30 de maio, às 21h30m, tendo ficado em cena até ao passado domingo, dia 1 de junho, no Alkantara Festival.

de marfim e carne – as estátuas também sofrem, coproduzido por NXTSTP com o apoio do Programa Cultura da União Europeia, é um “baile de sono e de vigília, de vida e de morte”,  de uma hora e 50 minutos, coreografado por Marlene Monteiro Freitas e interpretado pela própria e por Andreas Merk, Betty Tchomanga, Lander Patrick, Henri-Bertrand Lesguillier, Tomás Moital e Miguel Filipe, bailarinos e percussionistas juntos, num mesmo palco, para dar corpo e alma aos petrificados.

A coreografia começou com os intérpretes nas margens, com um dos pés descalços assentes no palco, movimentando-se ao compasso da música, para a frente e para trás, de tal modo ritmados, dentro da cadência, que pareciam eles próprios criar o som que ecoava e reproduzia engrenagens ou, pelo menos, o funcionamento de algo mecânico. Com a entrada de Tchomanga em cena, já sem a capa que os caracterizava, os corpos passaram a assumir características naturais da dança moderna, com contrações, torções e desencaixe, tendo havido também muito trabalho no chão, na queda e, sobretudo, no movimento da coluna e das articulações. É ainda de referir dois momentos em particular: quando um dos bailarinos se aproxima do microfone para contar, em inglês, uma história estranha e de levar às lágrimas (não sei se pelo que nos conta se porque os seus olhos se tornam rios contagiantes) e a performance de Freitas que se torna a certa altura uma cantora de música clássica, sem fazer uso da voz, apenas movimentando as mãos à frente do rosto como se o som que ouvimos estivesse ela própria a transmiti-lo. De resto, Betty Tchomanga sobressai quer por ter dado início ao espetáculo quer por possuir uma força de movimento intimidante.

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A música em palco, com os percussionistas a fazer uso dos pratos, serviu para intensificar as cenas, já de si algo corrosivas pela concentração e o poder de expressão, em particular do olhar fixo, obcecado, desumanizado, que relembra a impessoalidade que Mary Wigman (1886-1973), coreógrafa alemã e uma das mais importantes figuras da dança moderna, tentou implementar quando introduziu máscaras nas suas coreografias. Em de marfim e carne – as estátuas também sofrem, as máscaras são apenas rostos em sofrimento, que provocam uma sensação de angústia no público, mas o objetivo é mesmo esse, o da reprodução de sentimentos, que neste caso em particular é muito importante, porque as estátuas não são seres humanos, não fazem parte deste reino e, por isso mesmo, nada deveriam sentir.

As estátuas pressupõem quietude, mas toda a coreografia é inquieta, até porque “os bailes são metáforas possíveis para o movimento”. Este aparente paradoxo constitui então uma metamorfose, “transformação do osso em carne”, que no seu processo de criação foi influenciada pelo mito de Pigmalião – que conta a história de um homem que esculpiu uma estátua e que, através do desejo, da música e de uma oferta a Vénus, consegue torná-la real, acabando por se apaixonar e casar com ela – e de Orfeu, sobre a “transgressão que desafia a morte e os limites da Terra”. É desta transgressão das estátuas, que ousam sair da prisão dos seus corpos, que o espetáculo fala. Um espetáculo que parafraseia o título do filme Les statues meurent assi, de Alain Resnais e Chris Marker (ambos falecidos nos últimos meses), havendo apenas uma alteração, com a troca de ‘morrem’ por ‘sofrem’, palavra que em francês transporta o duplo sentido de ‘sofrimento’ e de ‘estar a aguardar’: “elas [as estátuas] esperam, pacientemente, numa indecisão entre vida e morte”. 

É-nos oferecida assim, de forma rigorosa e precisa, exuberante e destemida, a história daqueles “que atravessam categorias, que juntam espécies”, transparecendo talvez uma preocupação social e de condição do espírito humano, que se encontra limitado pelo corpo, tal como os bailarinos acabam por cantar (e encantar), citando a música dos Arcade Fire: “my body is a cage/ that keeps me from dancing with the one I love/ but my mind holds the key/ (…) set my body free”. E também Marlene Monteiro Freitas libertou algo no público, tendo conseguido até, com a sua coreografia, soltar algumas gargalhadas deliciosas, propositadas ou não, que ecoaram pelo auditório do Teatro Maria de Matos. Neste sentido, foi o realizar de mais um espetáculo no seu já singular percurso, que conta com peças de dança como Guintche (2010), Paraíso (2012) e (M)imosa (em conjunto com Trajal Harrell, François Chaignaud e Cecilia Bengolea, apresentado na edição passada do Alkantara Festival).

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Quanto ao Alkantara Festival, esta 13ª edição do Festival Internacional de Artes Performativas pode vir a ser a última e a própria Freitas deixou o apelo para a adesão ao baixo-assinado contra a sua extinção, depois de ter cantado mais uma vez, em conjunto com os bailarinos, para o auditório, em forma de agradecimento. Porque afinal de contas, todos nós nos encontramos presos, de certa forma, nos nossos corpos, constrangidos pela sociedade e, por isso, indecisos entre a morte e a vida da nossa própria voz interior, à qual devemos dar liberdade de movimento, mesmo que às vezes a sintamos como marfim.