Rock in Rio, 31 de maio: Poucos mas bons

A penúltima noite do Rock in Rio Lisboa recebeu o cartaz mais alternativo da quinta edição do certame com Capitão Fausto, Lorde e os grandiosos Arcade Fire.

Prova de que, dos cinco dias do festival, este era sem dúvida o mais alternativo, foi a menor quantidade de pessoas no Parque da Bela Vista, a organização aponta para 47 mil. Outro indicador da especificidade do público deste dia foi a quantidade de gente que às 6 da tarde estava já no Palco Vodafone para receber os portugueses Capitão Fausto, autores do revigorante Pesar o Sol.

Alternando temas do disco lançado este ano com o registo anterior, Gazela, demonstraram como são, cada vez mais, uma máquina bem oleada, sendo agradável verificar que, mesmo nos temas desse primeiro disco, criaram espaço para períodos de psicadélicos instrumentais, sintoma do seu à vontade em palco. Visivelmente apostados em tirar o máximo partido desta oportunidade, 3 dos 5 elementos lançaram-se em crowdsurfing pela plateia. Um belo concerto e que merece a nossa recomendação para que os tentem apanhar na estrada, porque podem estar a marcar a história da música portuguesa e daqui a uns 20 anos poderão fazer pirraça a muita gente.

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Quem marcou indubitavelmente a música portuguesa foi António Variações, que viu ontem Gisela João, Linda Martini, Deolinda e Rui Pregal da Cunha homenagearem a sua obra. Sucederam-se os temas que todos conhecemos ora com a fadista sozinha, ora acompanhada com Linda Martini; depois estes rockaram Toma o Comprimido e Visões Ficções e em palco formaram os Deolinda Martini para interpretar Canção de Engate, demasiadamente sexualizada  por Ana Bacalhau. Não havia necessidade.

Aos Deolinda couberam ainda O Corpo é que Paga e É P’rá Amanhã. Rui Pragal da Cunha com Pedro Gonçalves (Flac estava na guitarra) destruíram Dar & Receber, numa performance profundamente infeliz e desafinada. Desistimos a tempo de perder Amália na Voz, interpretada por todos nesta Homenagem a António Variações.

No topo da colina, no Palco Vodafone, já a comunidade mais alternativa se agrupava para ver Wild Beasts, que acabam de lançar Present Tense. Sem nunca conseguirem reproduzir a intensidade dos discos, embora com excelentes músicos e belíssimas vozes, os ingleses mostraram-se maravilhados com Portugal e o público português que, sobretudo nos temas de Two Dancers (2009), se mostraram arrebatados.

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Caminhando a passos largos para os momentos altos da noite o Palco Mundo recebeu Ed Sheeran, um miúdo inglês de vinte e poucos anos que levou ao Parque da Bela Vista muitos adolescentes desejosos de ouvir um dos novos fenómenos teen que pouco de significante traz à música.

Mas a música tem destas coisas e o Rock In Rio proporcionou um belo exemplo disso mesmo: uma rapariga de 17 anos com um disco lançado tem a oportunidade de tocar para uma multidão, imediatamente antes de uma das maiores bandas deste século. Falamos de Lorde e dos Arcade Fire.

A neozelandesa, musical e visualmente a lembrar nomes como Zola Jesus ou Glasser, apresentou-se em palco com dois outros músicos que a apoiaram num alinhamento que seguiu praticamente todo o disco de estreia, Pure Heroine. Cá em baixo o público, maioritariamente adolescentes da idade de Lorde, estranhamente sem pulseiras de elásticos no pulso, delirou. Sobretudo com Royals, que foi berrada alto e bom som. Não é completamente desinteressante, mas custa-nos perceber este fascínio. Como dito atrás, a música tem destas coisas.

Mesmo com o apelo de Lorde para que os jovens ficassem a ver o concerto dos seus amigos Arcade Fire, houve debandada quase geral e rapidamente as filas da frente se transformaram, com fãs mais maduros que acompanham aquela que é, possivelmente, a melhor banda dada a conhecer nos anos 00. Lançaram este ano Reflektor, o quarto registo de originais, com o toque de Midas de James Murphy, mentor de outra das grandes bandas do início do milénio, os finados LCD Soundsystem, que trouxe mais tecnologia e eletrónica à epifania que carateriza os Arcade Fire desde Funeral.

Foi com os temas destes dois registos, mas também passando por Neon Bible e The Suburbs que a banda canadiana, excelentemente acompanhada em palco por duplas de sopro, de ritmo e de violinos, ofereceu um alinhamento praticamente intocável para os que há uma década os andam a acompanhar. Houve até espaço para My Body Is a Cage, que raramente foi apresentada ao vivo, cantada de improviso por Win Butler depois de por duas vezes a guitarra lhe falhar em Month of May. No instrumental, notada a presença de Owen Pallett, que esta semana tocou no Lux o seu mais recente registo a solo.

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Cada música foi apresentada com uma encenação diferente, desde espelhos no palco a projeção de imagens, resultando em alguns momentos arrepiantes como a performance de It’s Never Over (Oh Orpheus) com Régine no meio da plateia ensombrada por um esqueleto a interagir com o marido situado na boca do palco. Além disso até houve ‘cabeçudos’ (os seus reflektors, com Lorde a envergar uma das máscaras) culminando numa chuva de confetis apocalíptica, em Here Comes The Night Time.

Os Arcade Fire são uma banda de outro mundo que nos falam da vida e da morte com a simplicidade e a beleza que estes temas podem ou não ter. Conseguem proporcionar momentos únicos neste mundo terreno e tudo isso vale a pena, mesmo muito, mas apenas se no céu também houver música.

Fotos de André Cardoso

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