As salas portuguesas recebem hoje a mais recente animação para a miudagem, acabada de chegar da Argentina, país onde não se fazem muitos filmes deste tipo. E esta falta de experiência no ramo do entretenimento para os mais jovens é notória.

Matraquilhos, como o nome indica, centra-se no futebol. Mais precisamente no futebol em miniatura, onde Amadeo é um verdadeiro profissional. Mas as constantes vitórias do talentoso rapaz enfurecem Grosso, um jovem que decide vingar-se do seu rival destruindo a cidade onde ele vive. Amadeo vê-se obrigado a salvar os seus amigos e, para isso, vai precisar da ajuda dos seus jogadores de matraquilhos.

A ideia base do filme, como se pode perceber, não é lá muito original. Para dizer a verdade, Matraquilhos mais parece uma versão fraca de Toy Story, como se Woody, Buzz Lighter e os restantes tivessem sido mesmo reciclados no seu terceiro filme e se tivessem transformado em pequenos jogadores de futebol. A maioria das personagens desta película argentina não se afastam muito das da obra prima de animação da Pixar: há o carismático, o convencido. o apaziguador, ect. Sendo um filme de animação não há muita margem de manobra, há que admitir, mas a abordagem podia ser diferente.

Mas mesmo com estas semelhanças, Matraquilhos nunca consegue chegar à qualidade dos filmes da Pixar, nem mesmo à de outros estúdios menores como a DreamWorks ou a BlueSky. Os criadores argentinos ainda precisam de muito treino se quiserem começar a conquistar audiências a nível mundial.

Em primeiro lugar há uma fraca qualidade de piadas. Embora o humor visual esteja bem presente, ajudado pelas várias cores que vão animando a ação, os diálogos das personagens não conseguem ser lá muito engraçados. Raras são as vezes que nos rimos com o que as personagens dizem e mesmo os mais novos vão ter alguma dificuldade em sorrir com o que ouvem. A principal razão é simples: Juan José Campanella, realizador e argumentista, não parece ter consciência de como contar uma anedota ou criar uma punch line que solte gargalhadas nas salas. Aliás, ele não parece sequer conhecer o mundo das crianças.

Há inúmeras referências a filmes que muito dificilmente um jovem de 10 anos terá visto. Embora todas elas tenham a sua certa piada (a sequência inicial que parodia 2001: Odisseia no Espaço é bastante interessante), apenas os adultos que acompanham os seus filhos às salas poderão apanhá-la. Isto não seria problema se, de resto, as crianças tivessem algo que as entretivesse. Mas a narrativa de Matraquilhos é um bocadinho chata de vez em quando e a já referida falta de comédia não ajuda muito. E há até uma ou duas piadas com um cariz demasiado sexual para o público mais novo que não deveriam ser encontradas numa animação.

Mesmo o tema do filme vai afastar parte da miudagem. Visto que Matraquilhos se centra no futebol, as raparigas vão logo deitar a língua de fora (e a escassez de personagens femininas também não ajuda) e mesmo alguns rapazes não ficarão com lá muita curiosidade. E isto num filme de animação não é o que se quer. As fitas deste tipo querem reunir as famílias para elas passarem um bom bocado, não fazer com que apenas pai e filho vão ao cinema e, no final, a pobre criança também não apanhar a maioria das piadas.

A níveis técnicos Matraquilhos também não é lá muito apelativo. Embora os desenhos das personagens e a paleta de cores sejam muito engraçadas, no que toca à animação em si não se pode dizer que seja propriamente digna de cinema. Às vezes basta espreitar o Zig Zag da RTP2 e encontramos logo uma bonecada com uns gráficos parecidos. As personagens no geral também são muito pobres e não há uma grande exploração delas, o que contribui para nunca por elas ganharmos qualquer tipo de proximidade.

E entretanto chegamos ao final do filme, o final feliz inevitável que vemos em todos os desenhos animados. Mas o percurso até aqui não foi muito agradável. Sem nenhuma personagem inesquecível ou uma animação que nos faça ficar de boca aberta, Matraquilhos vai cumprir os mínimos, com uma ou outra boa gargalhada aqui e ali e uma homenagem à paixão pelo futebol.

5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Metegol

Realizador: Juan José Campanella

Argumento: Juan José CampanellaEduardo SacheriGastón Gorali

Elenco: David Masajnik, Fábian Gianola, Miguel Ángel Rodríguez, Horacio Fontova, Pablo Rago, Lucía Maciel, Diego Ramos

Género: Animação, Aventura, Comédia

Duração: 107 minutos