É um dos filmes mais interessantes a estrear nas salas nacionais este ano e vai com certeza inspirar e divertir os espectadores. Ela Está de Partida é simples e delicado e sai vencedor por isso mesmo.

Bettie leva uma vida mexida: gere um restaurante, toma conta da mãe e é amante de um homem casado. Quando descobre que este a traiu, a septuagenária decide fazer-se à estrada sem destino nenhum, apenas para fugir de toda a sua confusão quotidiana. Pelo caminho vai conhecer o neto e reencontrar a sua filha.

E é toda esta viagem que Ela Está de Partida acompanha. É um verdadeiro road-movie, onde vão surgindo novas personagens para depois saírem rapidamente de cena, mas deixando todas uma pequena marca em Bettie. São também várias as situações caricatas em que a figura principal se vê envolvida, que vão acontecendo segundo a regra do ‘de mal a pior’. Mas, embora sejam várias as dificuldades que Bettie enfrenta, há um constante tom de otimismo presente nesta fita.

Mas onde podemos encontrar otimismo numa história de uma mulher que quer fugir das suas frustrações e encontra mais problemas pelo caminho? Podemos responder com vários exemplos do filme, pois quando a realizadora Emmanuelle Bercot fecha uma porta, abre logo uma janela. Usufruindo de um humor bastante inteligente e sarcástico, Bercot nunca reduz a personagem principal do seu filme a uma vítima, a alguém que nos vai deprimir a cada passo que dá, mas vai com ela representar as dificuldades que há que superar para chegarmos à felicidade.

A superação das dificuldades é também apresentada visualmente. No início do filme os cenários são banais, por vezes até um pouco deprimentes, e é-nos mostrada uma parte da França mais envelhecida e cabisbaixa. Mas quando Bettie se põe à frente do volante e inicia a sua viagem, as paisagens mais coloridas e alegres começam a surgir no ecrã. A viagem é igualmente acompanhada por uma fantástica banda sonora que vai mudando de tom consoante os sentimentos interiores das personagens, ora mais tristes ora mais contentes.

O próprio estilo de Bercot no que toca às filmagens é bastante curioso. A realizadora consegue ir buscar técnicas a vários estilos diferentes o que faz com que Ela Está de Partida nunca perca interesse. É possível vermos desde tracking shots a planos fixos, e há até uma cena filmada tal e qual como um documentário. Há que admitir que nalguns momentos a narrativa perece ficar lenta, mas a maneira como Bercot vai rodando essas cenas acaba por compensar.

Um dos outros aspetos que favorecem esta obra é o seu realismo. É praticamente impossível encontrar clichés dentro do argumento de Ela Está de Partida e isso culmina em diálogos que parecem ter sido retirados da vida real, pois tudo o que sai da boca das personagens parece autêntico e genuíno. Com isto a tarefa de nos identificarmos com os intervenientes parece até demasiado fácil. Podemo-nos rever em algumas das situações que nos são apresentadas no filme e uma ou outra fala soará a déjà vu. A própria Bettie está longe de ser a heroína perfeita, pois está cheia de defeitos, tal como nós, e alguns poderão sentir-se a olhar ao um espelho por diversas ocasiões.

O elenco é igualmente uma ferramenta fundamental para esta ideia de realismo. Catherine Deneuve (muito bem conservada para os seus 70 anos, diga-se de passagem) transmite para fora do ecrã todos os sentimentos da sua personagem e consegue assim prender o público à história, do princípio ao fim. Nemo Schiffman, que desempenha Charly, neto de Bettie, tem apenas 14 anos mas demonstra já excelentes qualidades de ator. Os momentos em que estes dois estão juntos ecrã são deliciosos, não só porque os seus diálogos divertem bastante mas também porque é um prazer ver dois intérpretes tão diferentes e tão talentosos juntos.

Basta isto para ser criado um bom filme: uma cuidada realização, grandes performances do elenco e um argumento inteligente. Quer-se apenas fazer um retrato do cidadão comum e deixar uma mensagem de esperança e positivismo àqueles que se sentem mais desmotivados de vez em quando. O seu final pode não satisfazer grande parte dos espectadores: é algo forçado e dá ideia que argumentistas e realizadora o podiam ter arrastado um pouco mais. Mas como um todo, Ela Está de Partida é uma longa-metragem muito bem construída, com um pouco de tudo para agradar a toda a gente.

8/10

Ficha Técnica:

Título: Elle S’en Va

Realização: Emmanuelle Bercot

Argumento: Emmanuelle Bercot e Jérôme Tonnerre

Elenco: Catherine Deneuve, Nemo Schiffman, Gérard Garouste, Mylène Demongeot, Camille

Género: Comédia, Drama

Duração: 116 minutos