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“Hollywood, tens cá disto?”: O Pai Tirano (1941)

Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

Poderá ser uma questão controversa, e até perigosa, considerar a era das comédias clássicas portuguesas como a “golden age” da Sétima Arte no nosso país. Mas polémicas e gostos à parte, é indiscutível o valor nostálgico e intemporal que possuem filmes como A Canção de Lisboa, O Costa do Castelo e O Pátio das Cantigas. Independentemente da visão crítica que se possa ter delas a nível político, ninguém pode, também, negar o talento dos formidáveis atores que ficaram para a História nesta série de filmes. O sucesso destas comédias (que se prolongou para além das receitas de bilheteira, passando pelas infindáveis reposições levadas a cabo pela RTP, praticamente, desde o seu nascimento) passa por isso mesmo: pelos elencos bem construídos (cuja química entre membros sempre é muito bem aproveitada, em situações que requerem mais ou menos improviso) e pela representação de certas personagens-tipo que caracterizavam alguns estilos de vida ou manias de um certo escalão da sociedade, numa crítica corrosiva que, em parte, mantém-se muito atual.

Um dos maiores exemplos da energia e vitalidade destas comédias à portuguesa é O Pai Tirano, talvez a obra mais bem construída entre todas. A realização é de António Lopes Ribeiro, num trabalho não tão amador como as suas anteriores incursões nesse campo. Mas o cerne da questão cinéfila encontra-se nas interpretações de Vasco Santana e Ribeirinho (ou Francisco Ribeiro, irmão do realizador) e na história, mais complexa e brilhante, que mostra ter grandes influências dos maiores clássicos da comédia de enganos da época feitos nos EUA (com realizadores como Leo McCarey e George Cukor) e mesmo no resto da Europa. Além de que, no filme, encontramos uma história dentro de uma história, com uma mistura entre ficções criada para algumas das situações humorísticas mais importantes, em que Cinema e Teatro se confundem com os sentimentos mais puros e “tugas” do ser humano.

A história é apenas um ponto de partida para proporcionar aos atores (desde os principais aos secundários) alguns dos melhores momentos cinematográficos das suas carreiras. Se Ribeirinho já seria genial na sua composição do homem perdidamente apaixonado de O Pátio das Cantigas (do ano seguinte, onde também cumpriu o papel de realizador), aqui vemo-lo a desempenhar uma personagem semelhante, mas com uma nova força: por detrás da aparente inocência da paixão de Francisco Mega, funcionário dos Armazéns Grandella, pela obstinada e presunçosa menina Tatão (Leonor Maia), há uma história de oportunismos e do confronto entre classes e “charmes” sociais, que se torna mais profunda com os ensaios de um grupo de teatro (liderado pelo sempre incrível Vasco Santana) que está a preparar a encenação da peça que dá nome ao filme.

CENA-DO-FILME-O-PAI-TIRANO

Devido a vários pequenos sarilhos, Francisco consegue conquistar a mulher… porque esta pensa que ele é herdeiro de uma grande fortuna. E para impedir que a cilada seja descoberta, e que o Chico perca a menina dos seus olhos, ele pede ao Mestre Santana que façam a representação da peça apenas para ela, tentando dar a volta à situação com mais uma mentira – e este momento traz algumas das piadas mais bem conseguidas e hilariantes de todo o filme.

De todas as comédias cuja produção foi apoiada e financiada pelo Estado Novo (e pelo seu Secretariado Nacional de Propaganda – cujo líder, António Ferro, não apreciava este tipo de Cinema), talvez O Pai Tirano seja aquela que consegue estar mais à margem dos propósitos políticos que encontramos, de forma mais vincada, noutros exemplos da época: tanto nas críticas subtis ao regime (recorde-se a piada de Ribeirinho com o sloganBeber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses” em O Pátio das Cantigas) como, por outro lado, nos elogios demasiado diretos feitos a Salazar (há que lembrar, no mesmo filme, o célebre momento em que Vasco Santana mostra como o regime traz conforto e segurança aos cidadãos).

É ainda a mais perfeita das comédias clássicas, e até, um dos melhores filmes do género feitos alguma vez em Portugal. Os bordões repetem-se, tal como noutros exemplos das décadas de 30 e 40, e as variações dos enganos e da construção e consequências dos mesmos não acabam por ser tantas como aquilo que parece. Mas esses são apenas mecanismos secundários que preenchem uma narrativa repleta de pequenas surpresas cénicas, dramatúrgicas e até mesmo cinematográficas. Mesmo que sejam previsíveis todos os enganos que se sucedem a um ritmo contagiante, não deixamos de nos rir com todas as cenas emblemáticas que acompanhamos: desde a rivalidade entre Chico e o namorado de Tatão ao “menu” mais famoso da História do Cinema português (um pastel de bacalhau e dois copinhos de vinho branco).

E o desfecho da história de amores, intrigas e mal entendidos de O Pai Tirano pode parecer insólito, mas é o mais apropriado para o estilo das comédias de enganos, se bem que não seja o mais politicamente correto para os nossos dias. É o culminar de uma série de situações humorísticas numa espécie de anarquia que poderia fazer inveja aos irmãos Marx. E pode ser vista como uma alfinetada no regime, mas é mais do que isso: é uma crítica à condição de se ser português, numa alegria contagiante a que, ainda hoje, não conseguimos ficar indiferentes.

O Pai Tirano é uma comédia menos brejeira e mais inteligente que as outras comédias da tão injustamente designada “época de ouro” do Cinema português. Acutilante e irreverente, tem uma essência única, que nos faz ficar a revê-la sempre que a RTP se lembra de “ressuscitar” este e outros clássicos na sua programação, o que faz com que novas falanges de espectadores descubram os talentos de uma geração criativa inigualável no panorama artístico nacional. Fazia falta apenas é que estes filmes pudessem receber um restauro digno do seu legado histórico (é pena que até a edição em DVD do filme se encontre em mau estado, perdendo-se vários diálogos e ocorrendo uma série de cortes abruptos durante o visionamento). Mas enquanto isso não acontece, ainda podemos contemplar, com condições razoáveis, um filme que já é indissociável da cultura popular portuguesa.

Ficha Técnica:

Realizador: António Lopes Ribeiro

Argumento: António Lopes Ribeiro, Ribeirinho e Vasco Santana

Elenco: Vasco SantanaRibeirinho, Leonor MaiaBarroso Lopes

Nota: 9/10

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