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X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido – Um regresso glorioso

Há quem goste de apontar o dedo a tudo quanto é blockbuster, dissecando clichés e rejeitando o que de melhor estas massivas produções de Hollywood trazem. Mas também há quem goste de cinema… X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido é um filme que ambos os lados desta “guerra” devem… Não: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido é um filme que ambos os lados desta “guerra” têm de ver.

Guerra: o filme abre com imagens de um futuro sombrio e distópico, onde o holocausto renasceu. Tendo a comunidade mutante como alvo, os Sentinelas (grandes e virtualmente invencíveis robôs) patrulham o planeta em busca dos últimos resistentes. Entre estes estão Wolverine (Hugh Jackman), o Professor Charles Xavier (Patrick Stewart), Magneto (Ian McKellen), entre outros. O único meio de garantir a sobrevivência de todos é o envio de Wolverine ao passado, numa tentativa de reunir Xavier e Magneto sob o mesmo propósito: reescrever a História.

Marcando o regresso do realizador Bryan Singer à franchise que iniciou em 2000, assim como o dos atores Michael Fassbender e James McAvoy, que se estrearam em X-Men: O Inicio, enquanto versões mais jovens dos dois veteranos britânicos, este é um filme em tudo superior às anteriores entradas na saga dos mutantes.

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E porquê? Principalmente porque combina o drama e desenvolvimento inteligente presente nos títulos originais, realizados por Singer, com o humor e intensidade presentes em O Inicio, do realizador Matthew Vaughn. E tudo com muita classe e panache

O sentimento de tensão está presente desde os primeiros momentos do filme: uma engenhosa cena de ação que, para além de exemplificar o mecanismo chave do enredo, ainda nos põe ao corrente da situação atual da resistência. O sentimento de aflição é palpável: e a estratégia de expor os X-Men enquanto David para o Golias dos Sentinelas é sinónimo de preocupação instantânea por parte do público.

E chegando ao passado, mais precisamente ao ano de 1973, preocupação é agora sinónimo de detalhe: desde os cortes de cabelo, porta-chaves, carros, óculos, referências a ácidos, jogos de arcada… É uma ambiência realista, e que no entanto proporciona vários momentos de comédia (nomeadamente no que toca ao viajante do tempo).

Por esta altura somos apresentados a uma nova personagem: o supersónico Quicksilver, interpretado pelo jovem Evan Peters, que mais parece Malcolm McDowell na década de 70.

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Ora, numa performance que até pode ser descrita como de comic-relief, este rapaz tem a seu cargo algumas das melhores e mais inovadoras cenas do filme e, senão mesmo, da história do cinema de ação. A isto chama-se entretenimento.

Aliás, esse elemento de ação, inseparável deste tipo de filmes, está imaculado: o coreógrafo fez um ótimo trabalho na preparação destas cenas e o realizador conseguiu conjugar subtis elementos de desenvolvimento de personagem. São em si uma masterclass de como usar CGI (Computer-Generated Imagery) sem descurar os elementos humanos e de como editar cenas de luta sem o uso abusivo de shaky-cam.

E num filme em que tantos atores da primeira linha entram e saem do ecrã a uma velocidade alarmante, foi fácil perder a ligação com todos eles… Só que não! Num trabalho miraculoso ao nível do guião, Simon Kinberg consegue arranjar espaço para o desenvolvimento de quase todos os intervenientes, ligando-os ao fio condutor que é a crise dos Sentinelas. McAvoy é fenomenal enquanto Professor X, tanto nas horas mais obscuras e desesperadas como nas de maior emotividade. O seu cara-a-cara com Patrick Stewart (parte do qual foi vislumbrado no trailer) foi um dos mais épicos e comoventes momentos que tive o prazer de observar nos últimos anos. Num registo diferente, Michael Fassbender é simplesmente majestoso: ao nível da linguagem corporal e representação com o olhar, trata-se de um ator ímpar na indústria cinematográfica.

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Não podia deixar de referir Jennifer Lawrence, que tem aqui, na minha opinião, a melhor performance da sua carreira: longe do over-acting com que ganhou o Oscar ou da sensualidade ardilosa em Golpada Americana, a sua Raven/Mystique ganha pontos pela paixão, desejo, sofrimento e visível luta moral. Mais do que ouvir falar sobre essa batalha de intenções, vemo-la a tomar forma na face desta mutante azul.

E de certa forma, os únicos problemas do filme prendem-se também aos atores. McKellen e Stewart, embora icónicos e irrefutavelmente carismáticos, são apenas eles próprios nesta película. Não se sente a mesma química e intensidade entres estes que com os seus contrapartes mais novos: algo que é pessoalmente desmotivante. Mais: Peter Dinklage, um dos melhores e mais reconhecíveis atores a trabalhar atualmente, é excelente no seu papel. No entanto, a sua história deveria ter sido um pouco mais desenvolvida, uma vez que sendo um dos catalisadores do enredo é necessário a compreensão total das suas motivações: algo que nunca fica completamente explícito.

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Não obstante, existe um sem número de pormenores que irá deliciar o espectador mais atento: a utilização da luz certa no lugar certo para acentuar determinadas emoções; a paleta de cores que não se prende apenas a um esquema mas a vários para nos causar náusea, raiva e até medo; uma cena pós-créditos colossal para quem sabe do que se trata (uma pista: Apocalypse); os efeitos especiais gloriosos, usados em prol da história e não o contrário; e a banda sonora assombrosa, que serve como consciência do filme, atacando-nos com estocadas de dor e esperança…

es·pe·ran·ça

substantivo feminino

1. Disposição do espírito que induz a esperar que uma coisa se há de realizar ou suceder.

2. Confiança.

Nada me dá mais esperança para o futuro do que a memória de um grande filme e poder partilhá-lo.

Filmes como X-Men: Dias de Um Futuro Passado são o raro tipo de filme que qualquer pessoa pode e deve ver pelo simples facto de existir. São o raro tipo de filme que combina o que de melhor há na 7ª arte: o engenho, o espetáculo, a emoção, a originalidade… E a promessa de um futuro que não está traçado para ninguém: especialmente para os que têm esperança.

9/10

Ficha Técnica:

Título: X-Men: Days of Future Past

Realização: Bryan Singer

Argumento: Simon Kinberg

Elenco: Hugh Jackman, Ian McKellen, Patrick Stewart, Michael Fassbender, James McAvoy, Jennifer Lawrence, Peter Dinklage, Ellen Page, Nicolas Hoult, Omar Sy, Halle Berry e Evan Peters.

Género: Fantasia, Ação

Duração: 131 minutos

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