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FATAL ’14: ‘Don’t Hesitate, Horatio’, a barreira linguistíca já não interessa assim tanto

O Espalha-Factos continua com a sua cobertura do FATAL, evento de teatro universitário cada vez mais prestigiado que ocorre sobretudo no Teatro da Politécnica. Desta feita, foi no passado dia 15 de maio que nos deslocámos ao referido espaço para presenciar uma das ofertas mais peculiares e curiosas desta fornada de projetos teatrais.

Don’t Hesitate, Horatio é o esforço de um grupo teatro iraniano e serve como uma homenagem a Hamlet, aquilo que muitos consideram o magnum opus do dramaturgo inglês, William Shakespeare. A peça serve de clara inspiração para este trabalho que retira vários momentos e falas dos textos deste conhecido autor de uma forma acessível e quase sempre bastante bem humorada. Alias, o humor e a sátira são recorrentes neste texto dramático escrito por Saeed Hashemipour e encenado por Abbas Aghsami. É esta linguagem universal que (quase) ofusca a barreira linguística eternamente presente.

Escrita e interpretada completamente em iraniano, Don’t Hesitate, Horatio é um projeto curioso e uma perspetiva mais familiar e descomplexada do teatro, roçando os estilos da farsa e da pantomina bem à moda antiga. Devido ao óbvio obstáculo colocado pela língua, a peça surge com uma tradução simultânea projetada numa tela atrás dos atores. Uma solução que à partida seria capaz de ser competente mas que na prática acabou por prejudicar um pouco o sucesso do espetáculo devido às suas dificuldades técnicas. Foi de facto, o maior defeito deste trabalho.

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Em boa verdade, estando o redator sensivelmente a meio da plateia da sala, há poucas razões para achar que a colocação das legendas não poderia estar melhor. Para além de pouco visíveis, as mesmas encontravam-se a uma considerável distância do campo de visão reservado aos intérpretes, ou seja, o espetador muitas vezes foi forçado a fazer uma escolha entre apreciar a ação decorrente no palco ou ler uma tradução do guião.

No entanto, há que referir que mesmo assim este pequeno percalço técnico, que nada tem a ver com os atores ou com o texto, não impossibilitou a compreensão desta peça, isto muito devido ao grande trabalho dos atores em permanecerem expressivos, ativos e animados. O registo cómico e quase cartoonesco deste trabalho foi capaz de proporcionar uma experiência relativamente satisfatória, ainda que com ligeiras perdas de qualidade e de ritmo por causa do problema técnico acima referido.

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A complexidade do enredo também acaba por ser perto de pouca: Um grupo de teatro foge de um palácio depois de estarem a interpretar Hamlet, o que os leva a conhecer Fortinbras, um ditador polaco que os prende nas masmorras e os obriga a interpretarem uma peça que seja do seu interesse. Tudo isto é intercalado por variadas peripécias, momentos musicais e sequências cómicas que incluem a batalha com espadas mais dramática e perigosa de sempre. Estes pequenos elementos surgem estrategicamente colocados e são capazes de conquistar a plateia, criando boa disposição e proporcionando genuínos risos enquanto se explicam pontos importantes do enredo.

Don’t Hesitate, Horatio é uma experiência cultural no mínimo interessante. É um regresso às origens arcaicas do teatro. Não há aqui questões existenciais nem representações naturais. Os atores exageram nas suas expressões precisamente porque é isso que se pede e se quer. Toda a peça é um “jogo do gato e do rato” e assenta-se numa estrutura linear onde o elenco viaja de A para B e de B para C e de C para A. Simplista e leve. Existe o uso recorrente de máscaras e no geral o que se vê é um elenco com bastante química a divertir-se em palco.

Para concluir, é necessário dizer que o ritmo da peça realmente poderia ter sido um pouco melhor não fossem as dificuldades técnicas. No entanto, um enredo acessível e um conjunto de atores que através do seu espírito de entrega conseguiu dar vida à peça, foram dois dos ingredientes que conseguiram tornar este espetáculo em algo agradável e razoavelmente interessante. Shakespeare havia de achar piada…

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Fotografias de José Herculano cedidas pela organização do FATAL

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