Em vez de um filme profundo sobre as complicações políticas e sociais em que se envolveu Grace Kelly ao abandonar a carreira no Cinema, acaba por ser uma fita mediana, frágil e sensaborona, que passa levemente pelo que realmente interessa na vida de um dos maiores ícones femininos da História de Hollywood.

É a história da atribulada relação amorosa entre a atriz Grace Kelly (Nicole Kidman) e o Princípe Rainier do Mónaco (Tim Roth), iniciada em 1956, quando ambos se conheceram em Cannes. Seis anos depois, enquanto o casamento se encontra à beira do abismo, o realizador Alfred Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths), para quem Grace fez alguns filmes (como A Janela Indiscreta e Ladrão de Casaca, do qual vemos, no princípio do filme, uma parte dos bastidores da produção) vai encontrar-se com a ex-atriz e propor-lhe o regresso a Hollywood, através de um papel em Marnie, um dos próximos projetos do cineasta. Mas a decisão de Grace pode dar ainda mais fragilidades à situação política que o Mónaco está a enfrentar no momento, devido às complicadas e tensas relações diplomáticas com a França. Então, ela terá de escolher, afinal, qual é o papel que pretende desempenhar: a da deslumbrante estrela de Cinema, ou a da Princesa mediática e envolvida em diversas ações de solidariedade.

Grace de Mónaco estreou no Festival de Cannes (foi o filme de abertura da edição deste ano) e a sessão ficou marcada pelo descontentamento do público e dos críticos presentes na sessão. É uma atitude que começa a ser generalizada, à medida que o filme chega a mais partes do mundo. Mas afinal, onde está o problema desta tentativa ficcional de ressurreição da vida da lenda do Cinema, do mesmo realizador de La Vie en Rose, sobre Edith Piaf?

É que, infelizmente, não estamos perante um biopic, um filme biográfico propriamente dito, nem nenhuma recriação relevante dos acontecimentos dramáticos que marcaram a vida de Grace Kelly: o que Olivier Dahan faz é reduzir o mito e suas circunstâncias às maiores formatações narrativas e visuais do Cinema americano, misturando truques de Cinema com mecanismos televisivos que para nada servem, nem para a história, nem para os espectadores. Isto é, se alguém conseguir perceber qual é o sentido de se filmar, com planos curtíssimos, uma discussão silenciosa entre duas personagens como se de um episódio da série 24 se tratasse…

Este objeto sofre do mesmo mal que muitos outros: diz, com grandes honras, que se trata de uma obra de ficção baseada em acontecimentos reais. É uma daquelas estratégias já velhas e desgastadas que tentam salvar um filme da fraca inspiração que nele possamos encontrar, suscitando, entre os mais incautos, um rol de pensamentos tão interessantes em que se enquadra algo como: “O filme afinal nem foi nada uma desilusão. É uma história real, portanto, é bom!”. Nada mais errado: infelizmente, nem para telefilme serve este Grace de Mónaco, embrulhando-se numa mistura de conceitos narrativos sem interesse ou sabor próprio, que se perdem no meio de tanta burocracia cinematográfica hollywoodiana, chamemos-lhe assim.

Pouca coisa bate certo na panóplia de personagens que nos são apresentadas no filme. Grande parte das figuras mais ou menos credíveis que compõem a história são plásticas, tal como de enorme plasticidade são as forçadas expressões faciais de Nicole Kidman. É um filme preguiçoso e falhado na sua reconstituição histórica e na falta de capacidade do realizador em perceber que, com muito menos aparato, se conseguiria captar, da melhor maneira, muitos dos momentos de intensidade e drama que necessitam certos eventos da história, que caem no esquecimento por ficarem disfarçados no meio de tanta e excessiva rapidez técnica, inadequadíssima para uma fita que precisa é de calma, para poder ser bem mastigada.

Mas não é só isto que afeta Grace de Mónaco. Há ainda o argumento mais ou menos interessante, que assenta em lugares comuns para criar toda uma série de diálogos que soam constantemente a falso e a despropositado. Parece que a maior parte dos atores diz as suas falas com uma entoação especial, tentando elevar-se a uma condição sobre-humana que não condiz com os propósitos do que se quer contar.

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Isto acontece, de facto, pela forma unidimensional, alegórica e básica como são construídas as personagens, algo que notamos maioritariamente nos vários secundários que aparecem, de quando em vez, ao lado de Grace, sem parecer terem qualquer propósito narrativo para tal. O padre que é Frank Langella, por exemplo, não parece servir para mais do que explicar a história quando é preciso, tal como outras individualidades que, como se tivessem sido escolhidas aleatoriamente, aparecem para, pura e simplesmente, cumprirem esse diminuto e desnecessário papel. Parece que estas marionetas humanas estão ali para tentar cobrir a fraca psicologia atribuída, na história, à personagem de Kelly, reduzida a uma figurinha populista (e da qual Kidman, por mais loura platinada que seja, nunca conseguirá captar o charme único e imortal).

E há ainda outros que fazem o papel de “figura histórica relevante, que tem de pelo menos aparecer (ou de ter o seu nome enunciado com grande destaque)”, cuja missão é dar um ar histórico a um filme que é mais caricatural do que qualquer outra coisa. Veja-se Onassis ou Maria Callas e tentem ver o filme sem eles. Qual é a diferença? Praticamente nenhuma.

Mas há pequenas coisas interessantes, no meio de tanta dispersão, nem que seja apenas pelo lado político e militar que tanto Harvey Weinstein queria cortar para a versão que vai chegar em breve às salas norte americanas. Nessas cenas, vemos Tim Roth a sobrepor-se às figuras de cartão que o rodeiam, e a história ganha uma outra força, menos anedótica, refletindo de maneira mais séria e menos plastificada os problemas perturbantes do Mónaco da época.

É uma obra mediana, portanto, que pedia muito mais – mas tal como muitos outros filmes recentes que tentam relatar acontecimentos que fazem a História do próprio Cinema, Grace de Mónaco perde-se por se esquecer, afinal, o que é que tem de dar aos espectadores, e que não pode servir apenas para as sessões de Cinema das programações dos canais generalistas ao fim de semana. O filme vê-se com (algum) prazer e, felizmente, passa depressa – se incluíssemos mais alguma duração à fita, esta poderia ultrapassar os limites do suportável.

Mas faz mesmo pena ver que o resultado de tanto falatório e antecipação acabou por trazer isto. Mas talvez sirva de lição ao realizador: se Grace Kelly, durante todo o filme, terá de tentar perceber que a vida, infelizmente, não é um conto de fadas, Olivier Dahan deve estar agora a entender, finalmente, que nem todos os projetos em que se envolva podem ter um final feliz.

6/10

Ficha Técnica:

Título: Grace of Monaco

Realizador: Olivier Dahan

Argumento: Arash Amel

Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, André Penvern, Frank Langella

Género: Biografia, Drama, Romance

Duração: 103 min.