Entre 14 e 17 de agosto, o Festival Bons Sons volta a cercar Cem Soldos. 55 bandas, juntamente com exposições, mostra de curtas-metragens e artesanato invadirão a aldeia nos arredores de Tomar, para a quinta edição de um festival exclusivamente dedicado à música portuguesa.

Esta é uma iniciativa da Sport Clube Operário de Cem Soldos (SCOCS). Toda a organização, desde as refeições dos artistas à bilhética, comunicação ou merchandising, é garantida por voluntários. Só da aldeia são cerca de 300, a que se juntam mais pessoas de todo o país, para integrar as equipas já formadas.

Oito palcos e algumas novidades

Este ano, as festividades começam mais cedo, com recepção ao campista, animada por Fernando Alvim e Holy Nothing. Para aproximar o campismo e a aldeia, que distam cerca de um quilómetro, a associação vai providenciar pela primeira vez o transporte por trator. Estas são as principais novidades, num festival que volta a contar com oito palcos de expressão artística.

Façamos um roteiro. O palco Lopes Graça, situado no centro da praça principal da aldeia, vai receber nomes como Sérgio Godinho, Brass Wires Orchestra ou Gaiteiros de Lisboa; para encerrar as noites, transforma-se em Palco Aguardela, em homenagem ao falecido líder dos Sitiados, onde atuam os DJ’s até às seis da manhã. O Palco Eira, mais resguardado, dedica-se ao indie rock, com Capicua, Anarchicks ou We Trust com a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais.

Dentro da Igreja, a homilia é dada pelo projeto A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. A comissão fabriqueira tem acesso ao alinhamento, mas Luís Ferreira, diretor artístico do festival, garante que «não há qualquer censura» às músicas que sobem ao altar. Mesmo à frente da Igreja, o Tarde ao Sol é palco para projetos de música tradicional.

Nem o calor tórrido durante a tarde afasta as pessoas do palco Giacometti. Sentados, a dançar ou a procurar sombra nas ombreiras, este ano os festivaleiros vão poder refastelar-se com Gisela João, JP Simões, Noiserv ou Peixe. Samuel Úria, que volta a este palco, agora em nome individual, confessou ter pedido à agência que o representa para atuar no Bons Sons. O que é que tem de especial? «É provavelmente o festival mais bonito. O recinto não é um recinto: é uma aldeia. Os camarins são casas de pessoas, passas o dia no meio da malta e dás-te com companheiros de estrada num ambiente mais caseiro».

As alternativas são visitar o Auditório de Cem Soldos, onde podemos ver o ciclo de Curtas em Flagrante, concertos de piano clássico e a Música para Crianças. Finalmente, no Palco Acústico, dentro da sede da Associação, qualquer um pode aproveitar o backline disponível para divulgar o que lhe vai na alma.

É preciso pulseira para entrar em casa

Por que é que o Bons Sons só acontece de dois em dois anos? Há acordo sobre essa matéria em Cem Soldos, e as razões são várias. Por um lado, a maior parte dos associados investe a totalidade dos dias de férias na preparação do festival. Daniela Craveiro coordena a comunicação, mas também chega a ajudar a mãe nas tarefas culinárias. «É um desgaste tremendo, mas vale a pena porque as nossas avós aparecem na televisão», sorri, enquanto vemos as avós de Cem Soldos a coser, à mão, as Tixas, lagartas de algodão que são a mascote do Bons Sons.

Voluntários da terra contam que em 2011, ano de pausa, houve «uma data de casamentos e nascimentos». Luís Ferreira acrescenta que, apesar da participação de toda a população, esta iniciativa causa «uma grande pressão» sobre a aldeia, condicionando as rotinas de todos. A aldeia é cerrada durante quatro dias e a organização vai a casa das famílias entregar-lhes as pulseiras, porque de repente moram num festival de verão e precisam delas para entrar na sua terra.

Ter de esperar dois anos até ao próximo festival «acaba por ser positivo: cria expectativa», reforça Luís. A Dona Antónia do Café da Tonita concorda, mas por ela havia Bons Sons todos os anos. «São dias em que não tenho mãos a medir», mesmo com a ajuda dos cunhados, que a visitam pela ocasião. A organização estima que, a cada edição, sejam movimentados à volta de 750.000€ na região. Só na última edição, estiveram presentes 35.000 pessoas. Para além do impacto económico, a aldeia prefere destacar a dimensão cultural.

«Os putos de Cem Soldos tocam outras malhas»

«Antigamente só conhecíamos os Xutos. Agora os putos de Cem Soldos tocam outro tipo de malhas», graceja Luís Ferreira. As cinco bandas de músicas originais formadas em Cem Soldos, contagiadas pelos 99 concertos que o Bons Sons já proporcionou, são o exemplo mais imediato deste incremento artístico na população. Para além disto, muitos voluntários convivem com técnicos profissionais durante o festival e, com a experiência adquirida, acabam por seguir formação nas mesmas áreas.

Entre receitas próprias, alguns patrocínios, apoios municipais, fundos turísticos e programas de apoio ao associativismo, o orçamento do Bons Sons atinge os 400.000€. As entradas pagas, desde 2010, trouxeram estabilidade às contas da associação, mas para o futuro a meta é mais ambiciosa: conseguir liquidez suficiente para investir no projeto de reabilitação urbana “Casa Aqui ao Lado” e no programa “Lar Aldeia”, de assistência aos idosos de Cem Soldos, que lhes garanta ajuda nas necessidades básicas sem os privar da sua liberdade.

Neste momento, é já a SCOCS que sustenta o ATL e paga as contas do centro de saúde da aldeia. Também há uma estratégia de sucesso na preocupação ambiental: em 2012, a organização reduziu drasticamente o lixo plástico ao incutir na rotina do festival canecas de inox. No fundo, explica Luís Ferreira, a filosofia «é devolver à aldeia aquilo que investiu em nós».

Até ao final de maio, o passe geral pode ser adquirido por 20 euros. Em junho, por 30 e em Agosto por 45.

Texto: Pedro Rebelo Pereira e Tomás Pereira Quitério
Fotografias: Raquel Santos Silva