O FATAL continua a trazer à nossa capital o melhor do teatro universitário e o passado dia 13 de maio não foi exceção: Flight Recorder – Do Not Open tomou de assalto o Teatro da Politécnica. A partir de textos dos britânicos Martin Crimp, anteriormente associado ao In-yer-face theatre, tendência britânica da década de 90, e Dennis Kelly, dramaturgo conhecido também pelo seu trabalho em televisão e cinema, um grupo de cinco estudantes da Escola Superior de Teatro e Cinema apresenta-nos uma magnética peça de criação coletiva.

O 15º Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa poderia até já ir a meio, mas muito ainda estava para vir. O final de uma calorosa tarde de terça-feira marca a entrada numa atmosfera singular, junto ao encantador Jardim Botânico. Flight Recorder – Do Not Open é o nome da peça que estamos prestes a observar. Pertencente à categoria FATAL Convida do festival, foi a vez da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa provar o que vale e mostrar porque continua a ser a maior referência do ensino superior artístico no país, no que diz respeito ao Teatro.

Na pequena sala escura deparamo-nos com algo que nos relembra um panorama de acidente aéreo. Os atores, já em cena, montam o cenário de forma automatizada. Movimentos, passos e deslocações robóticas. Como se de um jogo de vídeo se tratasse.

A base do espetáculo passa pela exploração dos conceitos de black box (caixa-negra) e flight recorder (“gravador de dados”), dispositivos que, num avião, gravam o som ambiente das cabines de comando e do sistema de áudio, assim como os dados de performance (como a velocidade, aceleração, altitude,…). Em caso de acidente, são a black box e o flight recorder que permitem investigar as suas causas, através da recuperação destes registos.

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A partir daqui, o texto dramático faz uma analogia brutal à sociedade instantânea contemporânea e, mais particularmente, à indústria artística.

Começa por ser feita uma divisão entre os bons e os maus, os solidários e os egoístas, os estúpidos e os inteligentes, os crédulos ou ingénuos e os fortes ou pujantes, os que acreditam em entidades ou poderes superiores e os que tomam ação e dominam.

A violência do capitalismo; a violência do dia a dia; as infindáveis corporations e o profit-seeking business. A industrialização de tudo e de todos: do quotidiano, da arte, das pessoas, do ser,… A mentira. A ausência de sentido, a perda das coisas simples. Da especulação do aparente, do visual, da imagem («a câmara adora-te!») à obsessão pelas tragédias e à busca por um significado profundo por detrás destas. Fazer de tudo um produto, abusá-lo e sugá-lo até ao tutano. Mas, ao mesmo tempo, transparecer a ideia de que o “objeto” tem alguma espécie de controlo sobre si mesmo, de que há um desígnio artístico que ilumina todo o processo. Depois, quando o espetáculo acaba, comentários, lamentações e discussões: é uma fatalidade premeditada ou um mero infortúnio? Estaria “ela” a opor-se ou não ao sistema? Perdeu-se no meio do frenesim ou não estava tão perdida assim e provocou deliberadamente o seu fim? Era uma forma de afirmação? Mas que tipo de afirmação? Então e que resta “dela” no fim de tudo? Quando perdida, despida, sem brilho, só ela, entra na “selva” do mundo real. E quem comenta, quem discute, quem afirma, quem debate… Procura o quê? Conhecimento? Uma voz? Ou simplesmente ter uma opinião? Tudo cabe nesta peça!

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Apesar de partir da obra de Martin Crimp e Dennis Kelly, é notória a introdução de várias referências próprias. E, sendo esta uma criação coletiva, com encenação e cenografia a cargo dos próprios, o trabalho de grupo destes estudantes merece e deve ser elogiado. Cada um ocupa uma posição particular e insubstituível. Souberam explorar o espaço e tirar vantagem da sala em que se apresentam, o que é muito aprazível de assistir. Há um excelente trabalho de sonoplastia – Flashing Lights, de Kanye West, e We Are Not Good People, dos Bloc Party, ilustram sonoramente o ambiente vivido.

Mas aquele que é, provavelmente, o ponto mais forte de todo o espetáculo é a imagem visual produzida. Se Flight Recorder – Do Not Open fosse um filme, levaria para casa, com toda a certeza, o Óscar de Melhor Fotografia do FATAL! O cenário ganha uma dimensão intergaláctica quando uma atriz desnuda envolta em papel celofane é coberta por luzes e uma coroa de flores, compondo a bizarra e, no entanto, assustadoramente hipnótica e atraente imagem de um “artista”, um performer que é um produto – algo inspirado nas experiências artísticas de Marina Abramović, como os próprios atores admitiram na conversa que sucedeu a apresentação da peça.

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Por fim, admiremos a qualidade e a excelência do nível de interpretação destes jovens estudantes de Teatro. Beatriz Brás, Daniela Silva, João Monteiro, Sérgio Coragem e Vânia Ribeiro simplesmente estão . Em presença, dedicação, descontração, dicção, projeção – até em imobilização! Um banho de talento fresco foi o que chegou até à audiência que se encontrava no Teatro da Politécnica naquele final de tarde. Resta-me prever que se o futuro do teatro português não for promissor não será, com toda certeza, pela ausência de novos talentosos atores.

Fotografias de Francisco Morais. Cedidas pela organização do festival.