Presença: O encontro de Orestes Prieto com a Dança Livre

O Studioteambox, galeria aberta em funcionamento nos meandros do Lx Factory, apresentou, no passado sábado, pouco depois das 21:30 horas, PRESENÇA. Esta, com origem e crescimento em Madrid, presenteou os amantes e curiosos da e pela dança com a passagem pela capital da já tão elogiada coreografia interpretada pelo bailarino, coreógrafo e professor Orestes Prieto.

A criação, de raiz livre, introspetiva e aberta nasceu do desejo de reavivar a irredutível referência do universo da dança, Isadora Duncan pela mão e precisão técnica e coreográfica do inesquecível François Malkovsky, segundo um modelo que ganhou sentido numa elaboração moderna do movimento livre a partir de um só corpo, alma, mente e espírito.

A pequena e acolhedora sala mostrou-se o berço perfeito para receber o bailarino: aquando da entrada do público, Orestes ocupava-se desde logo de uma modesta cadeira no centro de um cenário que não se deixou passar despercebido. Poderosos e vivos quadros expostos na galeria preenchiam grande parte das paredes fazendo-se cobrir por delicados e esvoaçantes lenços de cor e acompanhar por uma rosa, um espelho, um biombo repleto de roupa, inúmeras lâmpadas em torno da sala, um baixo e quente candeeiro e uma intrigante mala de viagem.

Este largo universo de objetos fez-se, pelos curiosos, pormenorizadamente analisar, enquanto as restantes cadeiras da sala se foram rapidamente preenchendo. Orestes, fazendo-se cobrir de um discreto fato de treino preto, pouco tempo levou a concentrar em si todos os sentidos da plateia: uma intensa, apaixonada e total entrega à dança revelou-se, ao longo de cerca de uma hora, uma descoberta do passado, exploração do presente e projeção e expectativa de um desconhecido futuro.

Orestes Prieto fez juz à promissora e pesada inspiração que o conduziu. A fusão do peculiar movimento de Isadora Duncan e da excelência técnica de François Malkovsky foi notória e o resultado foi, no mínimo, delicioso. O bailarino, de físico elegantemente cativante revelou-se na transparência do que dele se ocupa: sensações, emoções, vontades e desejos, pulsões e intenções que preencheram e trespassaram paredes sem vista a qualquer impedimento.

‘’(…) Passava dias e noites no estúdio, à procura daquela dança que pudesse ser a divina expressão do espírito humano através do movimento corporal. Permanecia horas imóvel e estática com as mãos cruzadas sobre os meus seios, cobrindo o plexo solar. Pude no fim descobrir a origem central de todo o movimento, a cratera da potência criadora, a unidade de onde nasce toda a classe de movimentos, o espelho da visão para a criação da dança. Desta descoberta nasceu a teoria na qual fundei a minha escola’’ A minha vida, Isadora Duncan

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O excerto foi lido em voz-off enquanto o bailarino se ocupou da até então fechada mala. Do seu interior, uma heterogeneidade de objetos foi retirada servindo de mote para todo o espetáculo num movimento de associação com o tempo, espaço e ação humana. Assim, quatro partes temáticas do espetáculo deixaram espaçar-se por transições intimistas em que o bailarino trocou de roupa e, simulando a leitura de um livro, foram lidos curtos excertos das memórias de vida de Isadora Duncan.

Distância, Inspiração, Vento, Pensamento Constante, Rêve D’Amour, Le Desir e Petit Berger ocuparam a primeira de quatro grandes partes: movimentos ondulados, de cariz orgânico e de extrema naturalidade tomaram conta de um corpo indefinível, guiado pela expressão numa devoção hegemónica ao sentimento. Uma delicadeza silenciosa fez-se sentir por toda a sala num movimento continuamente infinito, sedento e abençoado de dança. Sobre um doce e primaveril cheiro a rosas, uma ode àquela que é a grande arte do corpo deixou acompanhar-se de melodias marcadamente clássicas a piano.

Um breve e pequeno excerto, proferido calma e convictamente introduziu uma segunda parte dedicada, numa primeira fase, ao Mar. Também Berceause, Danse du Voile, A Primavera e Metamorfoses se fizeram traduzir numa ação antes de mais introspetiva e íntima. Movimentos ondulantes, torções e respirações ofegantes aliaram-se a um trabalho de acesa relação com o iluminado e o escuro, o certo e o incerto, o céu e a terra numa tentativa incessante de reconhecimento e descoberta de si através da dança. Um corpo bamboleante entregou-se ainda à fluidez de um longo lenço alaranjado, livre e esvoaçante que ora o envolveu em largos movimentos circulares ora se deixou entender no chão, que nem ser rastejante. Do mesmo modo se viu fim a um corpo já desgastado que, numa luta contra o nível da terra, acabou por desistir e estender-se no chão.

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‘’Minhas queridas crianças tenho um segredo para vos contar, a felicidade existe!’’, foi, novamente entre danças, proferido, após a exposição e transferência de uma paleta carregada de lágrimas, embalos, memórias, saudades, confortos através de movimentos alongados e pesarosos em Prelúdio, Le Pleurs, Bydlo e Alento.

Humoresca, Chanson Matinale, 8ª Danse Slave, Gran Vals e Oh Mio Bambino Caro deram término a um ciclo poético dançado e a uma enchente de emocionantes simbolismos. Saltos, expressões deslumbradas e contagiantes e corridas sem conhecer limites culminaram numa infinita vontade de viver e testemunhar cada estímulo recebido numa euforia e felicidade indiscutível.

Deitado no chão, junto a todos os elementos expostos e trabalhados, o bailarino abriu, derradeiramente, o sempre presente  livro em homenagem a Duncan e deixou embevecer-se no seio das palavras que sempre o acompanharam e deram mote para viver passo a passo com a arte.

E assim o fez: Dançou, dança e dançará numa celebração daquela que é a Grande Arte de Viver.

Fotografias de Inês Galvão Teles

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