A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Já falámos de grandes protagonistas, desde Cary Grant a Heath Ledger, de Julie Andrews a Julie Delpy. E hoje falamos de um dos mais jovens e promissores atores da Hollywood atual: Michael Fassbender.

Nascido a 2 de abril de 1977, de mãe Irlandesa e pai Alemão, passou os primeiros anos em terras germânicas, a juventude na pátria da mãe e com 19 anos perseguiu os seus sonhos de representação e rumou a Londres. Por volta de 1999, já tinha interpretado e produzido adaptações teatrais de Cães Danados, de Quentin Tarantino, e Três Irmãs, de Anton Chekhov.

Ao longo da sua carreira, Steven Spielberg têm-se demonstrado um perspicaz avaliador de talentos, mesmo em tenra idade. Não deve, por isso, ser surpresa que o primeiro papel de Fassbender na televisão tenha sido na famosa minissérie do realizador, Irmãos de Armas. Desta, e até 2006, seguem-se um sem número de participações televisivas menores, numa busca intensa por reconhecimento.

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Reconhecimento esse que apareceria em 2006, quando o ator é escolhido para desempenhar o papel de Stelios no filme 300, de Zack Snyder. Na sua estreia cinematográfica, o público e a crítica ficaram inequivocamente deliciados com o carisma e versatilidade do britânico. Com apenas alguns minutos no ecrã demonstrou o sarcasmo de um comediante, a emotividade de um ator shakespeariano e a intensidade de uma estrela de ação: tudo facetas que, como futuramente viria a ser confirmado, eram apenas a ponta do icebergue dos talentos deste ator.

Em 2008 ganhou o seu primeiro Prémio do Cinema Independente Britânico com Fome. Nesta sua colaboração com o realizador Steve McQueen, perdeu cerca de 20 kg para contar a história real de Bobby Sands: um militante da IRA que, em conjunto com alguns companheiros, viviam em condições inumanas na prisão, recusando-se a comer como forma de protesto. O filme foi selecionado para o Festival de Cannes catapultando o nome de Fassbender para as bocas do mundo.

Em 2009, o ator viu-se envolvido em dois dos melhores projetos do ano: Sacanas sem Lei, de Quentin Tarantino, e Fish Tank, de Andrea Arnold. No primeiro representa um agente britânico, infiltrado em solo alemão. Na mítica «cena da cave» é a capacidade dual de Fassbender, enquanto germano-irlandês, que carrega o enredo.

Em Fish Tank, o ator mostra um lado mais romântico, camuflando uma potencial malícia: características que nunca tinham sido vistas da sua parte.

Seguiram-se três dos filmes menos honrosos da carreira de Michael: Town Creek, de Joel Schumacher, Centurião, de Neil Marshall, e Jonah Hex, de Jimmy Hayward. Embora fracas na opinião da crítica, estas películas permitiram ao artista trabalhar com alguns veteranos do ofício (o realizador Schumacher, Paul Freeman, John Malkovich, respetivamente) e versar-se em áreas da representação que ainda lhe permaneciam vedadas.

E o que lhe deixou também de estar vedado foram as portas de Hollywood. 

Em 2011, Michael Fassbender teve cinco grandes filmes com a sua cara estampada nos pósteres publicitários.

No primeiro deles, Jane Eyre, adaptado por Cary Fukunaga (que no futuro realizaria a série True Detective) do livro de Charlotte Brontë, Fassbender interpreta o solitário protagonista masculino da trama que se apaixona por Mia Wasikowska. Romântico e dramático, este papel nada tinha haver com o que se seguiria na sua carreira.

Falo da sua participação em X-Men: O Inicio, no papel do icónico Magneto. Representando a versão mais jovem e brutal da personagem de Sir Ian McKellen nos X-Men originais, o irlandês vê-se aqui confirmado enquanto A-Lister de grandes produções cinematográficas. Este seu papel tornou-o num favorito entre a grande comunidade de geeks por todo o mundo.

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Seguiram-se os dois filmes que, segundo o próprio, mais exigiram o seu envolvimento físico e psicológico. Um Método Perigoso, de David Cronenberg, que conta também no elenco com Keira Knightley, Viggo Mortensen e o grande Vicent Cassel, revela a história de Carl Jung e Sigmund Freud, e como das suas interações e experiências nasceu a psicanálise.

Embora todos estes filmes, e respetivas prestações de Michael, tenham sido brutais a muitos níveis diferentes, nada tinha preparado o mundo para o que se seguiu.

Vergonha, também realizado por Steve McQueen, centra-se totalmente no intrépido ator que desempenha o papel de ninfomaníaco. A câmara segue-o indiscriminadamente por uma Nova Iorque vazia de sentimentos, mostrando apenas um desejo obsessivo por sexo. Este papel, que muitos consideram o melhor da sua carreira, valeu-lhe a sua primeira nomeação para um Globo de Ouro, para um BAFTA e o seu segundo Prémio do Cinema Independente Britânico.

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No final do ano trabalhou ainda com o conceituado realizador Steven Soderbergh, no filme Uma Traição Fatal, um thriller de ação repleto de estrelas respeitadas. Afinal de contas, depois de tanto esforço, o homem merecia descansar e aproveitar os frutos do seu sucesso!

Em 2012, voou com Noomi Rapace, Charlize Theron, Idris Elba e Guy Pearce em Prometheus, o regresso do realizador Ridley Scott à ficção científica que o fez famoso. Odiado por uns, adorado por outros, o filme foi, não obstante, uma aventura de autodescoberta para o ator, tendo que desempenhar o papel de um robô, “completamente” desprovido de sentimentos.

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2013 foi ambíguo, uma vez que inclui um dos maiores sucessos da sua carreira, assim como um dos maiores falhanços. Refiro-me a 12 Anos Escravo, a sua terceira parceria com Steve McQueen, e a O Conselheiro, novamente de Ridley Scott.

Enquanto o primeiro foi um sucesso critico e financeiro, vencendo o prémio da Academia para melhor filme do ano e representando a primeira nomeação de Fassbender para o Oscar de melhor ator secundário, o segundo foi uma deceção monumental. Ambos os filmes tinham elencos de luxo e realizadores competentes, no entanto os guiões eram de bastante diferentes em termos de interpretação. O único resultado positivo que partilham é a multifacetada entrega do germano-irlandês aos seus papéis, carimbando um dos seus melhores anos com duas grandes prestações completamente opostas.

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Uma estrela em ascensão ininterrupta, Michael Fassbender tem 10 variadíssimos projetos já anunciados para o seu futuro: entre eles uma adaptação da peça MacBeth de William Shakespeare, um filme de Terrence Malick com um dos melhores elencos de todos os tempos, o regresso aos universos de Prometheus e X-Men, assim como a adaptação à 7ª arte de um dos maiores êxitos do mundo dos videojogos, Assassin’s Creed.

O que se poderá então esperar deste jovem astro de 37 anos? Exatamente o mesmo que ele anunciou ao mundo que sabia fazer na primeira vez que apareceu no grande ecrã: tudo.

Afinal de contas, ele próprio o admite: “Passei demasiado tempo sem emprego e agora estou fazer tudo o que posso enquanto o sol brilha!”

E ao que parece, o sol ainda vai brilhar por muitos anos vindouros.