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FATAL ’14: A submersão de um ‘Ecstasy’ artístico

No passado dia 14, o FATAL esteve na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde foi apresentado Ecstasy pelo GTN – Grupo de Teatro da Nova, a contar para competição. O Espalha-Factos esteve lá e conta-te tudo.

É de noite e a faculdade está vazia. A procura de uma sala, ou auditório, onde seria feita a apresentação do espetáculo é frustrada. É no calor da noite que Ecstasy acontece – iluminado por poucos focos de luz, mas intensos: um balcão em cima de um palco. Um grupo de cadeiras. Música de espera de um espetáculo que se afigura, no mínimo, curioso.

Marina Albuquerque, encenadora do espetáculo, diz, com pressa e algum nervosismo: “o espetáculo vai começar!”. Sentemo-nos e esperemos por uma trip de qualquer coisa, que esperamos saber o que é.

A música começa e um foco de luz ilumina um DJ que aparece de rompante. Um videomapping e o exterior da faculdade compõem um cenário natural, mas não por isso fraco. É nesta naturalidade que vamos submergir para um mundo de excessos e prazeres, onde a juventude não tem fim e a maturidade teima em não chegar. Algo natural, portanto.

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Jovem é também o elenco – não estivéssemos nós a falar de Teatro Universitário. Jovem na idade e jovem (grande parte), na experiência teatral. Como em quase tudo, alguns se destacaram mais que outros – é normal no trabalho amador haver uns que se dedicam mais à causa que outros, ou haver uns que sentem o que dizem e outros que apenas dizem. Uma personagem principal que, nos seus delírios do mundo para que passa, se confunde no que diz ou um avião que passa sobre os intérpretes petrificados e confusos, fazem o espetador sorrir: não sei se de embaraço, de curiosidade ou de prazer. Uma interpretação nem boa, nem má. Merecem palmas – muito embora o texto não seja complicado de usar ou interpretar, relata, sem dúvida, uma vida complicada e sobre situações extremas, o que implica o mais bonito trabalho de construção de personagens, do qual Stanislavsky se poderia orgulhar. Ainda assim, passam a mensagem pretendida e o corpo está sintonizado com a voz – talvez um pouco exagerado (demais ou de menos), sempre o mesmo e complexo problema no teatro: o meio-termo.

Falemos de encenação, porque é também disso que se faz um espetáculo. É com o uso de um texto simples e jovem (demais) que assistimos a uma encenação quase perfeita. O uso do espaço que nos rodeia, ora ventoso ora não, conforme nos dizia a peça (em perfeita sincronia – ou quase), em conjunto com uma simplicidade digna de se ver faz-nos arrepiar. Marina Albuquerque conseguiu pegar neste grupo de jovens e fazer com que eles nos levem para um lugar onde muitos estão e muitos outros têm receio de estar. Com simulações bem simuladas (mérito para os atores) ou com correrias desenfreadas, mostram como é, sempre, no trabalho pré-espetáculo que está a obra de arte: e esta reside na interdisciplinaridade, na poesia do movimento e na escuridão iluminada de qualquer coisa não-racional.

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No final de tudo, passámos por uma viagem, talvez longa demais, que fala de tudo e do Nada, que demonstra o indemonstrável. Uma viagem quase que Lynchiana do que não conhecemos e onde a evolução para a racionalidade acontece sempre que encontramos o par perfeito: ou quando encontramos outra irracionalidade com a qual viver. Uma corrida contra um tempo que nunca volta para trás e por isso vivemos. Tudo isto – e nada disto – submersos num local psíquico de um texto que podia dizer mais, de uma interpretação que podia ser mais e de uma encenação que é o suficiente – e isso basta-nos.

Mais uma vez, palmas. Não aquelas palmas de pé que são dadas com um sorriso na cara – mas aquelas palmas que nos fazem pensar, sentir e criticar para mais tarde sorrir. Enfim, de zero a dez, todos gostámos.

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Fotografias de Raquel Dias da Silva

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