Carolina Búzio é oriunda do Porto, residente em Berlim e, além de apaixonada por Budapeste,  é viciada em canela. O Espalha-Factos partilha agora a entrevista com esta ilustradora e animadora freelancer, que possui também uma marca de jóias e um livro publicado na Hungria.

Espalha Factos: Na biografia do teu site oficial, dizes que descobriste que querias seguir artes quando em criança começaste a desenhar nas paredes. Como é que a tua mãe reagiu ao teu espírito criativo?

Carolina Búzio: Devo admitir que embora sempre tenha gostado de desenhar, quando era pequena achava que ia ser veterinária e pintora nos tempos livres, por saber que não seria fácil fazer disso profissão. Foi só quando descobri que havia o curso de Design de Comunicação que resolvi enveredar por Artes. Felizmente os meus pais sempre me apoiaram nas minhas decisões e a minha mãe, em particular, teve imensa paciência para as minhas noitadas de trabalho para projectos da faculdade, em que espalhava papéis e materiais por toda a casa!

EF: Como é que se desenrolou o teu percurso académico?

CB: Depois de seguir Artes no secundário, comecei a fazer Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes do Porto. Ao fim de dois anos percebi que se calhar a minha paixão não era design, mas sim talvez animação, por isso candidatei-me ao programa ERASMUS e fui estudar para uma escola de animação em Budapeste durante um ano. Queria ver se tinha a paciência necessária para fazer isso todos os dias! Descobri que sim, por isso os últimos anos na FBAUP foram mais direccionados para animação. Foi só depois de ter acabado o curso e ter tido um pouco mais de tempo para mim mesma e para projectos pessoais que comecei a enveredar mais por ilustração.

EF: O que é que a experiência em Budapeste significou para ti?

CB: O meu ano em Budapeste permitiu-me crescer imenso enquanto pessoa e artista. Foi a primeira vez que vivi numa cidade nova, que tive de me desenrascar sozinha, mesmo tendo um conhecimento quase nulo da língua. É uma cidade lindíssima com uma cultura muito interessante e, estar a aprender imenso, com disciplinas mais ligadas ao que eu adoraria fazer no futuro, fez com que fosse um ano muito importante no meu desenvolvimento.

EF: Fala-nos acerca do teu primeiro livro publicado. Como foi o processo criativo? E depois tudo o resto que envolve a edição e lançamento de um primeiro livro? Expectativas e balanço?

CB: Chama-se Gato das Botas, em português. O meu primeiro livro publicado, pela Csimota, ocorreu numa situação pouco normal. Há uma editora na Hungria que todos os anos lança um concurso, com um conto clássico como tema, e escolhe cinco livros para serem publicados. A faculdade onde eu estive tinha uma disciplina de ilustração específica em que todos os alunos tinham de participar no concurso, portanto tive sempre um professor que ia acompanhando o processo. O maior desafio foi ter um número de páginas limitado e não poder usar palavras! É algo complicado, isto de conseguir um equilíbrio entre legibilidade (não tendo texto, as imagens tinham de ser algo explícitas) e expressão e liberdade artística, mas foi sem dúvida a parte mais interessante de todo o processo. Está à venda apenas em lojas na Hungria. O que faço é encomendar 30 de cada vez quando tenho gente a querer comprar. Gostei da experiência, por isso espero sem dúvida vir a fazer outro livro no futuro.

EF: Mais tarde, mudaste-te para Berlim. Como tem sido a experiência?

CB: Extremamente positiva. Berlim é uma cidade com imensos eventos, restaurantes e coisas a acontecer, e não é cara, pelo que é o ideal para alguém que é freelancer, ou empregado por conta própria, como é o meu caso. Creio que é o sítio ideal para estar depois da intensidade do curso em Belas Artes!

EF: Pensa nisto como “ilustração para totós”. Como descreves o teu estilo de ilustração?

CB: O meu estilo é acima de tudo inspirado nos anos 50 e 60 no que toca à estilização das formas. Não costumo fazer ilustrações muito realistas, mas sim mais minimalistas. Adoro brincar com cor e paletas reduzidas, adoro o aspeto da serigrafia e adoro os contrastes entre grande e pequeno, texturado e limpo.

EF: Normalmente como é que funciona o processo criativo? Onde trabalhas?

CB: Estou de momento a trabalhar num estúdio com outros freelancers, o que é muito melhor do que trabalhar sozinha. O processo criativo varia um pouco consoante o projecto, mas envolve sempre escrever muito no início, anotar todas as ideias, boas ou más, que me vêm à cabeça. Investigo também sobre o assunto, vejo imensas imagens para as estudar ou para me inspirar num determinado estilo. Daí parto para pequenos esboços com pouco mais que 2cm, e passo-os para o computador para continuar a desenhar aí. Para desenhar uso uma cintiq, que é uma espécie de iPad que se liga ao computador e que permite desenhar directamente no ecrã. Faço mais esboços e experimento com cores até encontrar o caminho e o ambiente certo para seguir.

EF: Sei que tens uma marca de jóias bastante especial, desde o nome e o seu significado, até ao produto final. Podes contar um pouco de como surgiu todo o conceito e de como tem sido criar algo tão único?

CB: Tenho feito bijutaria desde nova, e tornou-se de certa forma uma maneira de escapar a horas e horas em frente ao computador. Tenho tendência a recorrer a este hobbie depois de períodos intensos de trabalho porque é uma maneira de me sentir produtiva, mas não estar a olhar para um ecrã nem a fazer algo que exige tanto de mim a nível intelectual, e nunca me deixa frustrada quando não corre bem, porque não há o medo de fracassar ou de falhar uma data de entrega. O nome é Perseidas, e foi baseado na chuva de estrelas que ocorre todos os anos em Agosto. Lembro-me de o meu pai nos levar para um sítio com menos iluminação e ficávamos horas e horas pela noite dentro a olhar para o céu. Esta memória traz-me sempre a sensação de verão, de férias, de não ter pressão. Aliás, costumava levar os meus materiais todos precisamente porque era a altura ideal para fazer bijutaria!

EF: Como tem corrido o negócio?

CB: O negócio tem corrido bem, mas não tão bem quanto a loja de ilustração. Sei que a razão principal é porque é um hobbie, pelo que lhe dedico menos tempo tanto em execução de novas peças como em marketing.

EF: E como tem sido trabalhar na área da animação? É um trabalho complicado, moroso?

CB: É sem dúvida moroso e, por isso, não é para qualquer pessoa. É preciso ter muita paciência e muito amor ao que se faz, para continuar a fazê-lo! Mas o momento em que premimos play e vemos os desenhos a ganhar vida no ecrã é sem dúvida mágico. Não é muito fácil encontrar trabalho na Europa no que toca a longas metragens, por isso considero-me uma sortuda por ter podido participar no The Congress.

 EF: O que achas do estado da arte em Portugal?

CB: Já há dois anos que não vivo em Portugal, pelo que não sei se serei a pessoa ideal para responder a esta questão. Sei que não está fácil no sentido em que em tempos de crise a cultura é uma das primeiras a sofrer e orçamentos para a apoiar são muito reduzidos. Mas sei também que é nestas alturas que mais e mais gente tenta novas ideias e cria os seus próprios caminhos, o que por vezes é refrescante. Há de certa forma liberdade total de expressão e arrisca-se mais!

EF: Ser ilustradora/animadora/designer é difícil? Há mais instabilidade que noutras áreas?

CB: Suponho que instabilidade é uma palavra algo vaga nos tempos que correm. O paradigma do mercado de trabalho e a maneira como ele funciona está a mudar um bocado. Para uns é instável o facto de eu estar como freelancer/trabalhadora por conta própria e não saber com quanto dinheiro contar no final de cada mês. Para mim, dá-me uma certa segurança saber que nunca vou passar temporadas grandes (meses a depender de um subsídio baixo, como seria o caso se estivesse empregada por conta de outrem) sem trabalho e que há sempre qualquer coisa a vir e, possíveis clientes a contactar. E quando tenho menos trabalho, dedico-me a marketing e a tentar chegar a mais clientes, ou então à loja ou a projectos pessoais. Não é um mercado necessariamente fácil de entrar porque é preciso mostrar muito e trabalhar muito no portefólio antes de conseguir alguns projectos. Ninguém contrata com base no curso que se tirou ou não tirou, mas com perseverança chega-se lá.

EF: Se não fosses ilustradora e animadora, o que serias?

CB: Honestamente não sei mesmo o que responder! Sinto-me tão feliz a fazer o que faço, que não me consigo imaginar em mais nada.

EF: Tens uma loja etsy. Quais os produtos à venda e qual é o preço mínimo e máximo?

CB: Neste momento tenho desde postais (o produto mais barato, a 5.50€ +IVA por um pack) a canecas e prints para emoldurar (entre os 10€ e os 25€ + IVA). No futuro pretendo ter serigrafias, flipbooks, brinquedos de papel, almofadas, capas de telemóvel, sacos de pano e talvez roupa!

EF: Tens algum projecto novo na manga?

CB: Acabei agora um projecto grande, pelo que preciso de tempo para me reorganizar e pensar bem naquilo ao qual me quero dedicar, mas provavelmente novos produtos para a loja vai ser uma delas.

EF: Tens algum conselho para os nossos leitores?

CB: Quando entrei para o curso de Artes mentalizei-me desde o início que ia fazer de tudo para conseguir viver a partir disso e agora, mais do que nunca, não se pode contar com apoios do governo ou oportunidades caídas no colo. É preciso não ter medo de sair se noutros sítios houver mais oportunidades ou não ter medo de ficar desde que se tenha a noção de que vai ser preciso criar o próprio caminho. Se têm uma ideia, perguntem, investiguem sobre o assunto e estejam dispostos a fazer de tudo para que funcione!

É possível encontrar a Carolina Búzio na sua página oficial do Facebook, no seu site ou na sua loja etsy.