Depois do melancólico Submarino, Richard Ayoade volta a sentar-se na cadeira de realizador desta vez com O Duplo, uma adaptação do romance homónimo de Fyodor Dostoyevsky.

Simon James é um homem tímido cuja existência é ignorada por um mundo indiferente. Trabalha há 7 anos numa empresa onde nem o porteiro, que o vê todos os dias, o reconhece. É ignorado pela colega por quem está apaixonado e nem a sua própria mãe é capaz de demonstrar o menor interesse nele. A sua personalidade, que tem tanto de condescendente como de inseguro, também não o ajuda a ultrapassar a situação, acabando até por a realçar. A chegada de um novo colega de trabalho, James Simon, vem ameaçar a sua realidade visto que este é o seu duplo perfeito e, ao mesmo tempo, o seu total oposto: confiante, carismático e surpreendentemente popular (principalmente entre as mulheres). Aos poucos, e para infelicidade do pobre Simon, este duplo acaba por se apoderar da sua vida, praticamente anulando a sua existência.

Ao mesmo tempo que se tem falado da adaptação ao cinema do livro de José Saramago, O Homem Duplicado, este parece ser mais um filme sobre pessoas duplicadas. Mas numa era em que a identidade e a individualidade são cada vez mais ameaçadas com a massificação e as redes sociais, talvez não seja má ideia abordar o tema mais do que uma vez e por mais do que uma perspetiva.

Double exlusive trailer

O filme levanta problemáticas como o que é o indivíduo, qual o seu valor e deixa no ar a pergunta que todos temos em mente “serei único e especial ou apenas mais um?”. Infelizmente estes assuntos são abordados levemente, quando poderiam ter sido muito melhor explorados e talvez tivessem atribuído mais valor a uma narrativa que acaba por cair no vazio. Isto porque aquilo que poderia ser uma interessante reflexão sobre a individualidade e o que é existir em todo o seu sentido, acaba por ser uma espécie de corrida entre gato e rato que de vez em quando nos dá a ilusão de ser mais do que isso.

Quem espera uma palete de cores suave e uma banda sonora a combinar, pode continuar a esperar pelo próximo filme do realizador que se pareça mais com o seu anterior Submarino. Deparamo-nos com cenários e um guarda-roupa que parecem retirados de um filme dos anos 70. O ecrã é inundado pelo amarelo, o cinzento e por vezes o azul, chegando a lembrar 1984 de Michael Radford. Saliento a perturbadora e desconcertante banda sonora de Andrew Hewitt, que deixa qualquer um inquieto e terrivelmente consciente de todos os acontecimentos e movimentos.

A prestação de Jesse Eisenberg é impecável: a passividade do personagem principal chega a incomodar e a descarada personalidade do seu duplo é surpreendente. É perfeitamente perceptível qual dos dois está em cena, quando tal é necessário, mas quando a intenção é confundir o espetador, a tarefa é cumprida e de que maneira. Mia Wasikowska acabou por desiludir com uma interpretação pouco relevante, pelo menos para quem já a tinha visto em Jane Eyre e Inquietos e esperava uma maior entrega à personagem.

The Double - Credit Dean Rogers 3695 copy

Este é um filme que é capaz de nos dar uma injeção de adrenalina aqui e ali, de render uns sorrisos à conta do seu humor negro e de nos levantar algumas questões. Infelizmente, não nos dá tempo para refletir sobre elas devido ao ritmo frenético que assume e acabamos por “perder o fio à meada”, desistindo de aprofundar o que quer que seja, rendidos à vontade de terminar uma história que parece não ter fim, ou que acaba por ter um que deixa algo a desejar.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: The Double

Realizador: Richard Ayoade

Argumento: Richard Ayoade e Avi Korine

Elenco: Jesse Eisenberg, Mia Wasikowska, Wallace Shawn

Género: Drama

Duração: 93 minutos