Desde a génese do canal até ao momento em que tem Filipa Vacondeus na grelha: Gonçalo Moura, o diretor de conteúdos do 24Kitchen, esteve sempre presente na cozedura deste canal 100% dedicado a conteúdos culinários. O Espalha-Factos aproveitou a apresentação de dois novos formatos para falar com Gonçalo Moura sobre o rumo do canal, o presente e o futuro, assim como foi o surgir da nova aposta forte da grelha: A Boleia da Filipa

Espalha-Factos: A aposta do 24Kitchen vai continuar a ser em português e com produtoras portuguesas?

Gonçalo Moura: O 24Kitchen desde o início que assenta muito no regionalismo, ou seja, no original e na produção local. Basicamente nós temos três pilares em termos de conteúdos: um era a produção própria, original e local; a produção original mas internacional porque o 24Kitchen é uma marca que existe em vários países e o que fazemos é co-produzir, digamos, várias séries que depois serviam para todos os países com talentos obviamente viáveis e escolhidos por todos os países em conjunto.

Gonçalo Moura

O terceiro pilar é a compra de produtos a terceiros. A compra mais de enlatados, se quisermos. A ideia é que com o aumento da produção anual – ano a ano vamos tendo cada vez mais catálogo de produção original – perca a importância de comprar a terceiros.

EF: É rentável?

GM: Claro que é rentável.

«a vantagem que temos ao sermos um canal de cabo é que permite, e nós apostamos muito nisso, inovarmos no ponto de vista dos formatos»

EF: As audiências assim o dizem?

GM: Nós lançamos [o canal] no final de 2011; [depois] tivemos uma redistribuição no verão de 2013. Nós estivemos durante muito tempo fechados, digamos assim, num pacote do MEO. A partir do momento que entramos na ZON, os números dispararam em termos de share de audiência. E depois do ponto de vista comercial, que é outra parte importante do canal, o interesse tem sido cada vez maior também à medida que o canal aumenta a distribuição, aumenta o share. E, portanto, torna-se num canal mais relevante no território.

24Kitchen

EF: Este programa em particular partiu de uma ideia da Filipa Vacondeus. Aceitou logo à partida a ideia?

GM: Era inevitável. A Filipa Vacondeus bate-te à porta e diz: eu quero fazer um programa contigo [risos]. E tu, dizes o quê? “Ah, não”. Ela ligou para lá [escritórios do canal] através da agente dela na altura, e disse: “olhe, eu quero ter uma reunião com vocês porque eu sou fã do canal e tenho uma proposta para vos fazer; e estou há muito tempo parada e quero fazer coisas”. Portanto, chegou lá e disse: “o que eu gostava mesmo era de fazer um programa sobre a essência da cozinha portuguesa para de certa forma passar o meu legado”, e ela estava há muito tempo sem fazer nada em televisão… E, pronto, a partir daí foi formatar e arrancar.

EF: E porquê juntar a Filipa mais nova?

GM: A vantagem que temos ao sermos um canal de cabo é que permite, e nós apostamos muito nisso, inovarmos no ponto de vista dos formatos. Nós não temos as restrições e exigências que têm, ou podem ter, um canal em sinal aberto e, portanto, podemos correr mais riscos. E isso é muito bom. Então nesta situação em concreto, nós, com a provocação que a Filipa Vacondeus nos fez, dissemos: “agora vamos arranjar aqui alguma coisa que seja diferente, e que nos permita com esta ideia montar um formato fresco, original”. E depois também porque nós presamos muito e tentamos criar uma rede de talentos. O vínculo com os talentos é uma espécie de compromisso que nós temos com eles e eles têm connosco.

Gonçalo Moura

Portanto, também é verdade que a partir do momento em que temos talentos nossos lhes queremos dar oportunidade e visibilidade para poderem fazer coisas diferentes. Achamos que dada a provocação do legado, de deixar um legado, tinha toda a lógica juntar duas gerações. Também vou ser sincero: na primeira reunião que a Filipa teve connosco houve um fenómeno espontâneo que aconteceu e que foi o motor da ideia de juntar os dois. Toda a gente no escritório – e a média de idade é relativamente jovem – teve à porta do gabinete para tirar uma foto com ela no fim. Então eu acho que esta relevância que uma mulher de 80 anos tem… uma relevância para todas as idades e sobretudo para uma geração que já nem cresceu com ela, uma vez que no escritório há pessoas de 20 anos…

«para mim há três motores do programa que deram origem a este formato: o legado da essência da cozinha portuguesa, as duas gerações e a questão do food truck»

EF: E esta parte do programa ser itinerante – o que aumentou certamente os custos de produção – como surgiu?

GM: A Filipa propôs-nos na altura… Não tinha que ser, mas quando ela nos diz que gostava de ir à essência da cozinha portuguesa, ou viajávamos pelo país todo – e essa era a ideia original, mas a exigência dela era que tinha dormir em casa – ou a gente simula a itinerância [por zonas mais perto]. O próprio formato de food truck quando é construído é parte elementar do próprio formato do programa. Portanto, para mim há três motores do programa que deram origem a este formato: o legado da essência da cozinha portuguesa, as duas gerações e a questão do food truck. Ou seja, é um desafio para elas de repente terem de cozinhar ali dentro e estarem num sítio diferente.

EF: E este programa conseguiu levar o 24Kitchen ao povo português? Por ser itinerante e por ter a Filipa Vacondeus que tem um público mais abrangente.

GM: Como ainda não estreou, nós ainda não conseguimos ter essa noção real. Agora, das gravações? Sim, tivemos um impacto muito grande no sentido de… há uma parte do programa em que elas vão às compras antes de fazerem as receitas. Nessas situações há muita interação com o público seja no mercado, na loja ou no sítio onde elas vão. E nessas situações, o facto de elas estarem juntas, nomeadamente a Filipa Vacondeus que tem um chamariz muito maior, faz com que as pessoas perguntem o que anda a fazer, o que é isto do 24Kitchen… Portanto, eu parto do princípio que quando estrearmos vamos perceber que deu para espalhar a palavra.

EF: Qual é o objetivo destes novos programas do 24Kitchen?

GM: Por um lado, é afirmar e reforçar que se há algo que para nós é elementar e chave no 24Kitchen é ser o único canal com 100% conteúdos dedicados à cozinha em português, feito em Portugal. Nem todos os conteúdos são feitos em Portugal, ok, mas é o único canal 100% conteúdos culinários e que tem esta componente local. Há canais que fazem conteúdos de cozinha, mas não são 100% cozinha; e os canais 100% cozinha que existem no território não são portugueses ou não têm nada em português.

24Kitchen

Portanto, nós conseguimos ter essas coisas. Depois é para nós é muito importante também, e talvez isto seja uma ambição muito minha – ou é um objetivo muito pessoal meu, no sentido de ser um canal dentro do portfólio do FOX International Channels – que é demonstrar que é possível produzir de forma diferente e inovadora no cabo, e com isso trazer valor quer ao mercado – porque há um investimento feito em produtoras locais – quer à própria oferta do cabo. Para nós, essas duas vertentes são as mais importantes.

EF: Não tem medo que depois do boom da cozinha na TV, o 24Kitchen deixe de fazer sentido (até a nível comercial)?

GM: Por uma questão de modas? Quando a moda começar a passar?

EF: Sim, exatamente.

GM: Eu estive também na génese do boom dos canais FOX em Portugal, de séries. Hoje em dia não podemos dizer que as séries estão na moda… ou melhor, se estão na moda, estão na moda há 10 anos? Seria um bocado estranho estar na moda há tanto tempo. Eu continuo a achar que as modas vão e vêm, mas quando a moda é muito forte, como foi o caso das séries, e alguém impulsiona essa moda – tal como foi com a FOX com as séries e o 24Kitchen com os conteúdos culinários – cria-se um espaço.

24Kitchen

E esse espaço, por muito que a moda passe, fica criado e portanto o espaço vai lá estar sempre e vai ter um público que vai e vém, mas que cria uma certa fidelidade. Nós assistimos a isso na própria evolução dos canais de séries, com as FOX’s, e eu acho que quando passar o boom da culinária vamos continuar a existir. Acho que isso é mais perigoso para canais que têm propostas menos definidas e objetivas. Ou seja, aqueles canais que são tão generalistas que vão atrás das modas. Nós aqui: a proposta é clara, é isto, é só isto, não queremos sair daqui. Agora, dentro disto, queremos fazer coisas de forma diferente e mais bonita.