É uma das grandes surpresas do ano, e é um filme que tem de ser urgentemente descoberto pelos espectadores portugueses: Capital Humano é um drama agridoce que, tal como a vida, está cheio de enganos, traições e armadilhas.

Capital Humano entrelaça as perspetivas de três personagens no desenrolar de diversos acontecimentos mais ou menos trágicos que unem e separam as suas vidas. Contado em quatro capítulos, nele acompanhamos a história de Dino Ossola (Fabrizio Bentivoglio), um vendedor que sonha com a ascensão social, que poderá ser garantida graças à amizade da sua filha Serena (Matilde Gioli) com a família Bernaschi, pertencente à alta sociedade. Depois ainda há tempo para descobrir a versão da própria Serena e de Carla Bernaschi (Valeria Bruni Tedeschi) de todos os diversos casos que vamos acompanhando, e cujo sentido nunca é tão óbvio e direto como possamos imaginar.

Um misterioso acidente na véspera de Natal irá complicar ainda mais os conflitos interiores de cada um dos elementos desta tragédia urbana, montada como se de um autêntico puzzle se tratasse. O filme baseia-se no livro Human Capital, do crítico de Cinema Stephen Amidon, e, a partir dele, o realizador Paolo Virzì aproveita para desenhar um outro retrato da Itália contemporânea, com o seu quê de egocêntrica, pretensiosa, arrogante e cínica. São vários os filmes e cineastas que fazem uma análise assim a este seu país de origem, mas realmente, a única coisa que Capital Humano partilha com todas as variadas críticas sociais que o Cinema italiano tem levado a cabo nos últimos anos é mesmo a atmosfera de decadência, à qual nunca iremos escapar. Será a Itália um país interminavelmente decadente, ciente desta ruína cujo crescimento nunca conseguirá interromper?

É um dos filmes italianos mais mediáticos do ano, mas que não se confunda popularidade com qualidade – mas Capital Humano consegue vencer nas duas categorias (e esperemos que consiga conquistar outras mais, entre as 19 nomeações em que está a competir para os prémios David Di Donatello, atribuídos pela Academia do Cinema Italiano) e ainda, surpreender noutras tantas, mais ou menos formalizadas no nosso pensamento crítico cinéfilo.

É uma obra cheia de (boas) referências – o cheirinho a Robert Altman é percetível, já que sentimos a presença dos melhores elementos que caracterizam os seus mosaicos cinematográficos tragicómicos e fortemente socioculturais (que se vejam, ou revejam, Nashville e Gosford Park), e também é importante para a narrativa a influência de Woody Allen não no seu lado mais neuroticamente cómico e irreverente, mas nos variados filmes mais negros, frágeis e introspetivos que compõem a sua filmografia (sendo o caso mais flagrante e evidente Crimes e Escapadelas). Mas fora as “homenagens” a outros autores, Capital Humano vence por impor a sua própria visão das coisas, das fragilidades sociais, humanas e familiares, que se escondem por trás de um véu de hipocrisia facilmente transponível.

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É uma ilustração da influência que as classes sociais estabelecem entre si. Mas no final, todos estarão no mesmo nível quando o tal misterioso acidente puser todas as vidas em jogo. Quantas almas serão sacrificadas? Quantos ódios serão revelados? Qual será o pano desta grande peça burlescamente real que acabará por cair à frente dos nossos olhos? Calma, calma, porque tudo fará sentido no final… ou talvez não, que fique isto ao critério do espectador!

A técnica narrativa utilizada por Virzì, num argumento de diálogos refinados e deliciosamente “orelhudos”, pode não ser algo de novo no Cinema, mas é notável o esforço que se tem em reinventar o próprio conceito do que é uma história para Cinema, adicionando uma subjetividade maior a uma subjetividade artística que, por si só, já é muito complexa e abrangente. E não precisamos de efeitos especiais nem de grandes tecnologias para ficarmos espantados e viciados na trama, enquanto tentamos magicar o destino reservado a cada uma das personagens centrais – algumas acabam por ter um final mais previsível do que outras, mas quando acabamos de ver o filme é que finalmente entendemos que não é a resolução o ingrediente fundamental de Capital Humano, mas a forma como lá conseguimos chegar.

E no entretanto, vamos juntando pontas soltas deixadas por cada versão dos acontecimentos, à medida que este fascinante elenco (composto por um sem-número de atores de renome no Cinema italiano e europeu) nos dá a conhecer as diversas facetas psicológicas do Ser Humano. Algumas são mais impenetráveis do que outras, mas uma coisa é certa: todas são fundamentais para se conseguir entender todas as curiosidades e todos os problemas que a nossa espécie sabe criar, através de simples decisões, desejos, chantagens e rebeldias temporárias. E a hipocrisia pode ser um denominador a todas as pequenas situações da trama – mas nenhuma fortaleza, por mais edificada que seja, consegue vencer a cobardia e oportunismo daqueles que, supostamente, deveriam defendê-la.

Capital Humano poderia resumir-se a um ou dois provérbios portugueses que todos nós bem conhecemos, mas a sua história envolvente, dinâmica e cativante merece ser visionada no lugar mais apropriado. Vai estar apenas em exibição em duas salas portuguesas – uma em Lisboa, outra no Porto – por pouco tempo, presume-se. Mas é tão importante que o público português consiga descobrir este filme! Quando passou na Festa do Cinema Italiano, recebeu uma grande salva de palmas. O filme merece e tem de ser visto, para contrariar as rotinas criadas pela crescente e inconsequente cadeia de filmes insípidos que inunda o mercado cinematográfico.

Um dos filmes mais demolidores de 2014, que começa por assentar numa série de peças dispersas, mas que a pouco e pouco começamos a entender, e talvez a gostar, apesar de ser um retrato de desesperos e humilhações. Porquê? Porque a vida é mesmo assim: Capital Humano é a Vida e as suas alegrias e amarguras em todo o seu esplendor, onde anda tudo ligado e a armadilha mais fatal de todas pode encontrar-se ao virar da esquina. Uma obra grandiosa, requintada… e demolidora.

9/10

Ficha Técnica:

Título: Il Capitale Umano

Realizador: Paolo Virzì

Argumento: Paolo Virzì, Francesco Bruni e Francesco Piccolo, a partir do livro de Stephen Amidon

Elenco: Fabrizio Bentivoglio, Valeria Golino, Valeria Bruni Tedeschi, Fabrizio Gifuni, Luigi Lo Cascio

Género: Drama

Duração: 109 min.