O Espalha-Factos convida-vos, novamente, a participar numa demanda que visa encontrar e debater momentos em que música e imagem se mesclam perfeitamente. Flagrantes e dissimulados momentos, pelos quais os amantes de cinema “rezam”, cada vez que as luzes se apagam na sua “igreja”. Uma demanda pela magia que está dispersa em incontáveis cenas produzidas ao longo dos tempos.

Hoje tratamos um clássico do cinema moderno. Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2013, assim como do prémio de melhor filme do ano 2013 para o Círculo de Críticos Online Portugueses, A Vida de Adèle é um dos melhores e mais badalados filmes das últimas décadas.

Adèle (Adèle Exarchopoulos) é a protagonista desta epopeia na França do séc. XXI. O realizador, Abdellatif Kechiche, filma apaixonadamente a história de vida desta rapariga: a juventude, a descoberta, a paixão, o desejo, a perda, o desespero… E a epifania final de quem verdadeiramente é e estará para sempre destinada a ser.

No dia em que faz 18 anos, Adèle depara-se com uma festa surpresa por parte dos pais e amigos. Depois de cantados os parabéns, a miudagem diverte-se dançando músicas de discoteca no jardim. Uma delas é o Magician Remix do êxito da sueca Lykke Li: I Follow Rivers.

Esta canção tinha também sido utilizada no filme francês de 2012, Ferrugem e Osso, de Jacques Audiard.

Muito se pode dizer acerca de uma pessoa pela maneira como dança: se vive o momento desenfreadamente ou escolhe ser cuidadosa; se olha para todos os lados tentando perceber quem a deseja ou fica com os olhos no chão porque não quer ser observada; se está feliz ou finge…

Embora antes desta música Adèle force o sorriso e os movimentos, a voz da cantora sueca surte um efeito mágico na protagonista. Ela sorri, ela “conjura um feitiço” com os braços… Ela está a viver o ritmo da música à sua maneira, passo a passo, sentindo o pulsar como se do seu coração se tratasse.

Esta cena é uma micro-representação do filme inteiro, dando-nos uma perspetiva do futuro da protagonista: Adèle olha à volta durante a dança para contemplar o mundo. E o que vê fá-la sorrir e corar. “Existe tanto lá fora para explorar.”

Dança acompanhada, mas no entanto, completamente sozinha: e porquê? Porque ninguém dança como ela. Ninguém a conhece realmente.

Está a viver o seu prazer pela música da única forma que sabe e isso cativa os presentes: tanto que rapidamente se forma um círculo à sua volta para a observar. Ela sabe, mas tal como no resto do filme, não é este interesse que a faz acordar pela manhã. É o pulsar do coração, a excitação da vida e o prazer de viver o momento. O que a faz acordar é a sua cara-metade.

Adèle é uma rapariga inteligente, que poderia ser escritora se assim o quisesse. No entanto, ela prefere moldar as novas mentes do amanhã.

Adèle é uma rapariga que vem de uma família modesta e que gosta das coisas simples, como a música de discoteca e bolonhesa. No entanto, ela passa a maior parte do tempo com “burgueses” que debatem os aspetos mais formais e intelectuais da existência, desde a comida até à música jazz.

E porquê? Porque ela ama a pessoa com quem está, e por ela faria todos os sacrifícios: mudaria a sua vida inteira se disso dependesse a felicidade de ambas.

Daí ela olhar para baixo quando dança: não só ali naquele momento, mas em todo o lado, para sempre.