Iniciou-se ontem o festival Alkantara, um festival de artes performativas que de dois em dois anos se propõe a divulgar as artes esquecidas nacionais e internacionais. Tendo por base a tendência para a aldeia global e a fusão de culturas, o festival Alkantara 2014  é a prova de como a multiculturalidade é importante e benéfica. “Os artistas do Alkantara Festival 2014 oferecem-nos modos de assimilarmos esta complexidade e de nos posicionarmos neste novo contexto. Não porque simplifiquem a realidade, mas porque  enfrentam a confusão, tomando o pulso ao estado de coisas à sua volta”*. 16 espetáculos vão acontecer entre 13 de maio e 8 de junho, sendo que a maioria deles se baseiam nas teias de relações humanas, na complexidade e na confusão diária que é ser Homem e do que resulta da relação com o seu semelhante.

A dança deu início a esta edição  do festival Alkantara. Ontem pelas 21h Anne Teresa de Keersmaeker e Boris Charmatz, ao som de Amandine Beyer, levaram a palco Partita 2. O grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian encheu-se para ver um espetáculo onde os corpos dos intérpretes estavam em sincronia com a música de Bach. Hoje à mesma hora voltam a levar a mesma criação ao mesmo palco.

Keersmaeker, Charmatz, Beyer

“Devido às caraterísticas específicas do grande auditório, a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker optou por não fazer blackout total”. Uma voz chama atenção para a sala onde o espetáculo ia acontecer dentro de breves instantes. O fundo do palco do grande auditório é uma grande janela para o jardim da Fundação. Apenas o vidro separa o artificial do auditório dos elementos puros da natureza que baloiçavam ao sabor do vento. A luz do anoitecer era  suficiente para iluminar toda a sala que só naquele momento reparou na tela viva que tinha à sua frente.

Entra um vulto feminino sem ser percetível de quem se tratava. Após um momento de espera por parte da artista para que todo o público se instalasse e o burburinho acabasse, o espetáculo começou. Um violino é posto em posição e a música de Johann Sebastian Bach entoa por toda a sala. A violinista Amadine Beyer, especialista em música barroca, toca em contra luz para uma plateia cheia e em expectativa por esta estreia nacional.

É um solo, mas não parece. As árvores do jardim ganharam uma nova vida assim que a música começou. Tudo combina: a natureza, o som e a intérprete. Até os movimentos que a violinista faz naturalmente enquanto toca parecem ensaiados ao pormenor. A música parece que está  a ser tocada para cada pessoa em específico, como se houvesse uma transcendência e não estivesse mais ninguém nas cadeiras ao lado.

Pára repentinamente e abandona o palco. Acende-se um foco num dos cantos do palco, lá fora já escureceu e o jardim deixa de estar de fundo. A luz bate no vidro e encadeia os espetadores. Todo o auditório está refletido no vidro. Os  bailarinos entram a correr. Há formas circulares desenhadas no chão do palco. Linhas finas de cor branca desenham circunferências de vários tamanhos e em diferentes pontos do palco, mas todas elas ligadas, como se fosse um único fio que desenha várias formas.

Em silêncio, os bailarinos vão desenrolando as suas coreografias. O mesmo tipo de movimento, mas interpretado de maneira totalmente diferente. Em solo ou em duetos, Anne Teresa De Keersmaeker e Boris Charmatz dão corpo a uma coreografia minimalista e repetitiva. Um desejo insaciável de dançar, o amor pela coreografia, a necessidade de se libertarem através da improvisação. É nítida a diferença entre Keersmaeker e Charmatz: ela apresenta um movimento mais austero e elegante; ele um movimento mais liberto e grotesco.

Partita 2

Voltam a abandonar o palco para regressarem desta vez os três intérpretes a palco. O corpo dos bailarinos e a música estão numa fusão quase perfeita. “Os acordes ressoam no interior dos corpos, o contraponto vibra e ganha vida, a corrente flui e a jiga começa a rodopiar. Uma partitura secreta parece deslizar-lhes debaixo dos pés, sublinham tudo o que vibra entre as notas”*. Os sentidos do espetador misturam-se e perde-se a noção da forma como apreendemos o espetáculo. O som já não chega só através dos ouvidos, mas sim através de todos os poros do corpo. A coreografia é absorvida e apropriada, cada um vê aquilo  que a sua experiência lhe proporciona.

Sempre lado a lado, seguindo-se sempre mutuamente Anne Teresa e Boris contam algo através do movimento, mas também há algo de abstrato que não nos permite decifrar o que é. Este paradoxo e outros estão presente em toda a peça: o som e o silêncio, a escuridão e a luz, a rigidez e  a moleza do movimento, a velocidade e a lentidão.

http://youtu.be/fkc02E_VBCE

Coreografia: Anne Teresa De Keersmaeker

Dança: Boris Charmatz, Anne Teresa De Keersmaeker 

Musica: Partita No. 2 de Johann Sebastian Bach

Violinista: Amandine Beyer

Criação: Amadine Beyer, Geoge Alexandre van DAm

Cenografia: Michel François 

Figurinos: Anne-Catherine Kunz

Produção: Rosas

Duração: 75 minutos

*citações retiradas da programação oficial do Festival Alkantara 2014

Fotografias retiradas do site: http://www.sgt.gr/en/programme/photospopup/1196