A sessão Out of the Box II // Arte & Cinema realizou-se no mês passado, no dia 5 de abril, no Café Teatro Santiago Alquimista, em Lisboa, para provar que as noites fora do baralho da FWD Coop vieram para ficar.

A FWD Coop, cooperativa que se dedica à promoção de eventos, à divulgação cultural e ao agenciamento de artistas, que já tinha levado cerca de 300 pessoas à graça com o Out of the Box I // Cultura Urbana, deu vida a mais um programa noturno num local fora do circuito habitual, numa tentativa de agitar as noites dos portugueses (e não só, quem sabe) ao mostrar que nos podemos divertir ao mesmo tempo que ganhamos bagagem cultural.

O Café Teatro Santiago Alquimista situa-se a 15 minutos a pé do metro do Rossio, mas ainda assim não é muito fácil de encontrar para quem nunca lá esteve, até  porque as ruas costumam estar desertas. Quando o Espalha-Factos chegou meia hora após o início do evento, a organização ainda estava a tratar de problemas técnicos com o projetor, que permitiram habituarmo-nos ao espaço.

No final das escadas principais, depois de se passar a bilheteira (5€ com oferta de uma bebida, à escolha entre shot ou martini rosso, rosato ou blanco), encontrava-se uma parede dedicada ao On Public Demand Lisbon, um crowdfunding que pretende trazer bandas e artistas a Portugal por um preço mais justo. O desafio desta vez era fazer o pedido num post-it colorido e colar na parede, onde se liam nomes tão diferentes como Madonna, B Fachada, Phizz, Tame Impala, Caixa de Pandora, Muse, Alt-J, St. Vincent, Vira Casaca, Florence and The Machine, Tiago Bettencourt, entre outros, embora para resultar o voto tenha de efetivamente ser realizado na plataforma online.

Das mesas junto à mezzanine era possível vislumbrar o andar inferior, tal como na primeira sessão na Caixa Económica Operária, e à esquerda o bar, assim como a exposição de Tatiana Saavedra, composta por cinco fotografias emolduradas, com alguns pormenores em comum, como mulheres nuas sem rosto nas duas primeiras e luz natural a perscrutar salas com vestígios de destroços, embora a do canto inferior esquerdo parece-se desencaixar-se das restantes, com uma sobreposição de um rosto e de uma paisagem, transparecendo a sensação de mistura entre realidade e fantasia. As criações de Saavedra articulam claramente fotografia, psicologia e filosofia, sempre com uma estética algo cinematográfica, debruçando-se sobre questões relacionadas com o inconsciente e o existencialismo, o que atraiu muita gente e raras foram as vezes em que alguém não se encontrava a observar o seu trabalho.

Assim que os problemas com o projetor foram resolvidos, conseguiu visualizar-se, sem quaisquer interrupções, A Lucidez do Absurdo de Saavedra e de Francisca  Marvão, que “passou três vezes no ecrã por ter cerca de 20 minutos”. Um documentário experimental, realizado em 2013, que tenta compreender o sentido da existência humana através do reviver de memórias, quer de espaços físicos como de psicológicos, de ambas as autoras, que se intercalam numa troca de correspondência, que se complementa e contrasta, imprimindo algum surrealismo estético e narrativo. No entanto, “o absurdo é o que está em nós e em todas as coisas” e é mesmo esse estranhamento que nos proporciona cenas como aquela em que aparece uma mulher nua que relembra as das fotografias de Saavedra, quando o barulho de água a escorrer nos dá uma sensação de afogamento ou quando damos por nós em modo voyeur assistindo a uma conversa sobre religião entre duas idosas. Segundo Filipa Marta (Dj  Phizz), artista agenciada pela FWD Coop, “quem esteve presente, admirou as palavras ditas e as imagens que contaram a história. Falo por mim, que fiquei super introspectiva e noutra frequência por momentos e depois tive que voltar ao dito normal para continuar a festa”.

Para animar ainda mais a festa, os Caixa de Pandora, banda constituída pelo pianista Rui Filipe, a violinista Cindy Gonçalves e a violoncelista Sandra Martins, subiu ao palco para provar que o nacional também é muito bom, tanto a nível de cumplicidade entre os músicos, de paixão individual e de qualidade musical, que dão origem a “uma caixa mágica cheia de misteriosos e transcendentes momentos” através “de um repertório próprio de música original, que orbita entre os ambientes cinéfilos e a escultura sonora de estética contemporânea, criando uma esfera de ficção auditiva, onde as imagens facilmente invadem a imaginação de quem se deixa levar pelas linhas dramáticas e aventureiras”. A verdade é que realmente “foram muito elogiados”, apesar de algum burburinho da plateia, tendo vendido alguns CD’s.

Depois de um espetáculo musical, foi a vez de uma performance por dois bailarinos da Companhia Amalgama com formação na Escola Superior de DançaPascoal Amaral e Mónica Almeida, com coreografia de André Campos e leitura encenada de Tânia Dantas. Dança contemporânea que abordou todas as “revoluções interiores, rebeldes e masoquistas” originadas por relações disfuncionais, ávidas e intensas, cujos jogos de manipulação levam a um eterno cansaço. No fim, todo o trabalho extra com ensaios e com o alinhamento em palco, uma vez que se seguiram Djs sets, compensou com uma atuação tocante e fortemente aplaudida, ainda que não tenha sido o ponto alto da noite. “Para encaixar este alinhamento no mesmo palco não foi fácil – daí o pequeno atraso que se verificou no programa. Tivemos que fazer as mudanças necessárias para estes atos acontecerem sequencialmente, o que implica mudar instrumentos, materiais, mesas, cadeiras, cabos, etc, e tivemos um técnico de luz e som que nos ajudou bastante neste espetáculo”, confessa Filipa Marta.

À medida que o programa se desenrolou, Marta Lee ilustrou ao vivo, criando um muro negro com as palavras  “Street Art” em branco, que ficou muito aquém das ilustrações de Mariana Cáceres, de Nicolae Negura e, sobretudo, do live splatter de Tamara Alves, na primeira sessão Out of the Box. “A Marta Lee ilustrou um cobertor mas a mensagem não foi passada da melhor maneira ao público – paciência, nem sempre tudo corre bem.”

Mais tarde, até às quatro da manhã, os presentes ainda tiveram direito a três Djs sets diferentes e projeção de vídeo, novamente pelo artista português residente em Londres, Roger Spy. Começou-se com o projeto Mr. Herbert Quain, com a presença de Twisted Freak, o que proporcionou um momento dentro da eletrónica ambiente, cujas batidas contagiantes deram vontade de abanar a cabeça, e para terminar da melhor forma  o duo  FEMMES ofereceu uma viagem no tempo ao fazer reviver os hits pop dos anos 90, que pôs toda a gente a cantar em alto e bom som.

Sobre o processo de organização e coordenação desta segunda sessão fora do baralho, Filipa Marta admitiu terem seguido o mesmo modelo de trabalho, que será utilizado nas próximas noites. “Os artistas no geral são abordados para entrarem no projeto e consoante o tema do mesmo, tentamos conciliar todas as envolventes: artistas, espaço, decoração, alinhamento”.

Embora tenha sido mais complicado em termos de execução, por terem tido um mesmo palco para tantas atividades diferentes, “o balanço foi super positivo dadas as circunstâncias dessa noite – muitos eventos a acontecerem em Lisboa, como o concerto dos Silence 4 ou o Belém Art Fest, e o próprio tema da sessão ser Arte & Cinema” –, tendo conseguido ainda “reunir cerca de 250 pessoas no Santiago Alquimista, ainda que se tenha notado uma diferença em termos de plateia em relação à primeira sessão. O ambiente seguiu uma onda mais intelectual no princípio, acabando por se verificar, como seria de esperar, uma massa mais descontraída no final. A reportagem fotográfica a preto e branco de Nuno Capela transparece bem o feeling da noite. Filipa Marta afirma que “o público gostou bastante do que foi apresentado de um modo geral”, acrescentando ainda que as conversas posteriores lhe permitiram concluir que nunca vão conseguir agradar a gregos e a troianos, o que é normal. “Mas vamos abrindo de certo modo a cabeça das pessoas para outro tipo de música ou arte.”

A competição do MUVI, da qual ficaram algumas pistas nas primeiras declarações após o Out of the Box // Cultura Urbana, “vai ser lançada no fim deste mês”, ficando a promessa de mais novidades em breve. Por enquanto, contamos com uma terceira sessão já no dia 17 de maio, no Santiago Alquimista, que prevê uma noite dentro do “vintage, retro, loucos anos 20 e swing”, que contará com a presença de Fil the Captain, um dos finalistas do Optimus Live Act, da cronista Inha Cordovil, de dois Djs sets (Twiggy e Swinging Sisters), de uma exposição de vespas e de quatro peças fotográficas de Paulo Albuquerque, entre outras surpresas ainda por desvendar.