Formados no ano de 2005, o conjunto inglês conhecido como The Horrors é já um dos projectos mais interessantes a sair da atual cena rock britânica. Vindos diretamente de um filme de terror gótico, os elementos que compõem este quinteto começaram com Strange House, um aglomerado de canções agressivas e oníricas que rapidamente os pôs no mapa.

Contudo, a paleta sónica veio crescendo e a banda parece ter decidido pegar no legado de bandas como The Verve ou Stone Roses e juntar uma roupagem negra, banhada na distorção atmosférica do pós-punk ao groove ácido da escola de Madchester. Juntamos umas quantas divagações acutilantes das guitarras mais agressivas do shoegaze e é assim que obtemos Skying, clássico instantâneo de 2011.

Mas se Skying já nos confirmou esta tendência (levemente indiciada em Primary Colours, 2009) para os sons psicadélicos capazes de nos fazer bater o pé, Luminous, o quarto álbum da banda tira qualquer teima: se alguma vez uma banda de goth rock foi adequada para passar num clube nocturno, essa banda são os The Horrors. Farris Badwan e companhia estavam decididos em criar um trabalho único, diferente e que reflectisse a vontade criativa de fazer um álbum denso e dançável sem nunca perderem a identidade da banda. É meu dever informar que a missão está cumprida. Luminous é um esplendor sónico: Uma viagem cósmica aos confins do espaço e uma das melhor ofertas neo-psicadélicas dos últimos tempos.

O vaivém Luminous não podia ter melhor arranque do que Chasing Shadows, um crescendo que culmina numa brilhante explosão de cores e ritmos que impõem o tom para o resto da viagem. Quase os imaginamos a dar tudo no Haçienda, mítica discoteca de Manchester nos anos 80 e 90 e berço de tantas bandas lendárias como os Happy Mondays ou os New Order. Segue-se First Day of Spring e começamos a notar que os riffs cortantes de trabalhos anteriores estão a dar lugar a mais linhas de baixo hipnóticas e teclados new wave. Contudo a guitarra de Joshua  Hayward continua sempre omnipresente a dançar em altos e baixos divagantes que conferem uma química interessante com a secção rítmica.

Luminous

Um rasto de feedback e um beat contagioso anunciam o próximo grande momento do disco: So Now You Know parece ser um distinto sucessor de Still Life, música de 2011. Na sua voz arrastada e cheia de eco, Badwan ordena: “so now you know, turn away”. Tudo neste tema aspira a épico. É algo bastante proeminente neste novo disco: tudo parece maior, a escala está ampliada, o ritmo está maior e a imersão é completa. Em In And Out Of Sight, quase parece que estamos a ouvir alguns indícios do big beat dos Chemical Brothers e logo a seguir levamos um pequeno safanão sónico com Jealous Sun, tema que nos faz pensar o que seria se Kevin Shields se aventurasse na música de dança. The Horrors a lembrarem-nos das suas origens.

Passando por uma desinspirada Falling Star, encontramos I See You, ou se preferirem “o melhor momento de Luminous”. O single que antecipou o lançamento do disco é a faixa mais longa do disco, é também a maior em termos de escala e presença. A guitarra hipnótica conjuga-se com aquilo que provavelmente é o refrão mais pop e aliciante da carreira dos The Horrors. Uma sinfonia de rock psicadélico em crescendo que mistura os melhores elementos sonoros do grupo e só pára de surpreender quando acaba. Se o álbum acabasse aqui, despedia-se de forma perfeita.

Mas não acaba, faltam ainda três faixas. Change of Mind pisca o olho a um space rock melódico e contemplativo e assume-se como uma pequena pérola dentro do repertório da banda. Mine and Yours traz consigo uma guitarra que grita e que faz lembrar alguns dos melhores momentos de Skying, já que é um dos momentos mais orgânicos e pouco produzidos do álbum. O foguetão assenta de volta com Sleepwalk. Com 51 minutos de duração, Luminous é uma viagem que parece mais curta do que realmente é, para se fazer mais vezes e que com certeza tem um potencial enorme para explodir ao vivo.

O que os The Horrors aqui nos oferecem é um álbum muito distinto dos anteriores mas que no entanto continua a soar familiar. Os fãs do som mais garage e agressivo da banda talvez poderão ficar um pouco de pé atrás ao início, mas para os restantes, está aqui um trabalho conciso e que cujos temas dão mesmo a sensação de ser parte de um todo. Em muitas partes esta abordagem faz lembrar outra banda inglesa, os míticos Primal Scream. Realmente poderá ser que este seja o Screamadelica da banda. De qualquer da forma, bom trabalho, rapazes.

Nota: 9.0/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945