A rubrica “5” pretende trazer aos leitores cinco factos cinematográficos de 15 em 15 dias. O tema desta semana foca o festival internacional de cinema de Cannes e os seus 5 mais aguardados filmes, dando ainda destaque a um extra, o polémico filme de abertura, Grace of Monaco.

O Festival de Cannes é dos mais prestigiados festivais de cinema do mundo. Todos os anos desde 1946 o mundo do cinema desloca-se à cidade costeira de Cannes na Riviera Francesa e festeja a sua sétima arte.

Esta é a 67º edição do festival, e um Júri presidido por Jane Campion e composto por nomes como Sofia Coppola, Willem Dafoe e Gael García Bernal, irá atribuir a lendária Palma de Ouro ao melhor filme, mas não é só da sua competição que vive o festival, variados prémios e secções fazem parte desta festa do cinema.

 

Winter SleepNuri Bilge Ceylan

Winter Sleep é o novo filme do realizador turco depois do aclamado Once Upon a Time in Anatolia, premiado em Cannes com o Grande Prémio do Júri em 2011.

Ceylan revelou muito pouco sobre Winter Sleep, gerando uma aura misteriosa à volta do filme que tem despertado enorme curiosidade e expectativa na crítica, sendo classificado por alguns como possível concorrente à Palma de Ouro, depois do seu realizador ter recolhido a segunda maior distinção de Cannes com o seu anterior filme.

De Winter Sleep temos apenas acesso a um trailer que nos mostra o estilo visual impressionante e característico deste realizador, mas que não fornece qualquer dado importante relativamente ao argumento, a não ser que a ação decorre nas planícies de Anatolia. Conhecemos também a sua duração épica, 196 minutos que se esperam intensos e visualmente impressionantes.

Winter Sleep - Nuri Bilge Ceylan

Deux Jours, Une Nuit Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne

Não custa muito nomear Deux Jours, Une Nuit como candidato à Palma de Ouro. Os Dardenne já receberam o prémio por duas vezes, mas voltam à procura de mais com Deux Jours, Une Nuit.

Os realizadores belgas apresentam assim em Cannes o que se espera ser um conto emocionalmente poderoso que emana da realidade social atual. E fazem-no em colaboração com Marion Cotillard, Fabrizio Rongione e Olivier Gourmet.

Cotillard é Sandra, uma mulher nova que se vê na necessidade de convencer todos os seus colegas a abdicarem dos seus extras salariais para que ela possa continuar no seu trabalho, compreensivamente uma missão difícil. Num filme como este centrado no drama de uma personagem, as hipóteses de Deux Jours, Une Nuit em Cannes deverão depender da qualidade da atuação de Cotillard.

Deux Jours, Une Nuit - Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne

Jimmy’s HallKen Loach

Jimmy Hall é alegadamente o último filme de Ken Loach. O realizador britânico, vencedor da Palma de Ouro e do Prémio do Júri em três diferentes ocasiões, volta à carga com Paul Laverty, o argumentista com que trabalhou em The Wind that Shakes the Barley, precisamente o filme galardoado com a maior honra do festival.

Pela simples menção deste palmarés, percebe-se o entusiasmo à volta deste seu filme, que deve trazer a Cannes um cinema crítico e interventivo, não fosse Loach um mestre do realismo social.

Jimmy’s Hall, visto como forte candidato à Palma de Ouro, é a história baseada em acontecimentos reais de Jimmy Gralton, que ousou criar um local para jovens numa Irlanda em crise e à beira da guerra. Conotado politicamente com a esquerda e com a liberdade de pensamento e associação, tanto a classe política como a igreja moveram esforços para fechar este espaço.

Jimmy segue então o fado inexorável de gerações de Irlandeses e parte na diáspora. Décadas mais tarde volta para uma vida tranquila, mas as condições de vida na Irlanda que encontra voltam a despertar lutas antigas.

Jimmy’s Hall - Ken Loach

Mr. TurnerMike Leigh

Mike Leigh consuma juntamente com Ken Loach uma forte presença britânica nesta edição do festival, dois veteranos já premiados com a Palma de Ouro. Leigh venceu também o Prémio do Júri em Cannes, e o Leão de Ouro do Festival de Veneza.

Mr. Turner é um retrato da vida de William Turner, famosíssimo pintor britânico vitoriano interpretado por Timothy Spall. O filme retrata as últimas décadas de vida do pintor excêntrico, reconhecido pelo público e pelos seus pares mas que leva uma vida privada tumultuosa.

Leigh cria um filme de época pouco ao seu estílo, à semelhança do que faz Loach faz com Jimmy’s Hall. Esta dupla candidatura britânica deverá dar que falar na corrida à Palma de Ouro.

Mr. Turner - Mike Leigh

The SearchMichel Hazanavicius

Hazanavicius finda com The Search um hiato de três anos, no que é considerada uma forte candidatura à Palma de Ouro deste ano.

O famoso realizador de O Artista filmou num ambiente de algum secretismo, existindo pouco material para analisar antes da grande estreia em Cannes. Sabe-se que The Search serão duas horas e meia de um filme de guerra, género pouco característico do realizador, num remake do filme homónimo de Fred Zinneman de 1948.

Contudo o argumento foi atualizado e adaptado à política contemporânea, substituindo o tema dos campos de concentração e levando o filme para a Tchetchénia. The Search conta com a magnética Berenice Bejo no principal papel, assim como com Annette Bening, e tem merecido um lugar de destaque na ansiosa crítica.

The Search - Michel Hazanavicius

E o prometido extra e filme de abertura do festival,

Grace of MonacoOlivier Dahan

A escolha de Marcello Mastroianni em pleno como imagem de marca desta edição do festival é uma imponente referência ao passado do cinema e do festival. No entanto, nada poderia prever que antes mesmo do início do festival a polémica se instalaria, e no epicentro o filme de abertura de Olivier DahanGrace of Monaco.

Harvey Weinstein, o produtor americano que parece gostar de acumular tanto óscares como pessoas que se recusam a trabalhar com ele, é conhecido pelas suas interferências no trabalho dos realizadores, principalmente na edição. Mas desta vez encontrou pela frente um realizador que não está disposto a abdicar do seu direito artístico, Olivier Dahan recusou-se a assinar o filme, acusando Weinstein de chantagem e criando um impasse no calendário de estreia do filme.

Grace of Monaco - Olivier Dahan

Grace of Monaco, um filme sobre a antiga estrela de cinema Grace Kelly que se casou com Rainier III do Mónaco, centra-se no período conturbado da história do principado que opôs o presidente francês De Gaulle a Rainier, ameaçando a autonomia do principado. Simultaneamente a princesa ponderava regressar ao cinema pela mão de Hitchcock.

Mas como qualquer biopic que se preze sobre uma estrela de cinema, a polémica é mesmo muita, e a família real do Mónaco veio classificar o filme como “totalmente ficcional” e baseado em informação dúbia e errada. Vindo posteriormente a protagonista Nicole Kidman afirmar que compreendia a apreensão e as declarações dos filhos de Grace.

Resta saber que versão do filme irá ser apresentada em Cannes, e se a autonomia do realizador vai ou não ser novamente violada.