No passado dia oito de maio, o Espalha-Factos esteve presente no primeiro espetáculo do Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa (FATAL) no Teatro da Politécnica. Macbeth foi a proposta do Grupo de Teatro de Letras dirigido por Ávila Costa.

De início, a escuridão total. Já sabíamos – todos sabem – que os atores estavam prontos, em palco, em posição suposta, a controlar a respiração acelerada fruto dos habituais nervos de uma estreia de espetáculo – quanto mais cabendo-lhes a responsabilidade de abrir a 15ª edição do FATAL.

É a união – perdoem-me – da arte mais bela de todas com a Academia que impõe ainda mais magia àquele espaço mágico, junto ao jardim botânico em pleno coração da capital. E é na escuridão que procuramos o nosso interior. Fecham-se todos os olhos ofuscados por uma escuridão de segundos que parecem eternidades. E o primeiro foco de luz engrandece o quadro criado em palco: a negritude não só nos figurinos como na lentidão dos corpos ganha forma. E lá vamos nós para o fantástico outro-mundo que o teatro e Shakespeare nos permitem.

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Mas então, vem o exagero. Não sei se propositado ou disfarçado, não sei se natural ou proclamado – mas o exagero. Não aquele exagero habitual em Shakespeare: um exagero construído, criação única na minha ténue e reduzida experiência teatral. A estranheza que poderíamos ter ali das coisas mais bonitas de sempre: no cenário despido e em figurinos simples; sem espaço nem tempo; sem vida nem problemas próprios, é na interpretação que todos os olhares se encontram. Em cada respiração – exagerada ou não – que nos faz suspirar. Nas poéticas palavras de um dramaturgo que passados 500 anos ainda vive, façamos poesia.

A abertura é com um Shakespeare diferente. Estamos a assistir a um espetáculo que é um espetáculo. Se é nas palavras que nos queremos focar, usando poucos artefatos e uma movimentação também ela ‘escura’, que se faça das palavras entendimento. Ávila desilude os assassinos – que continuarão a sê-lo. Não há denúncia – há performance, teatro de um teatro. A criminalização de uma magia demasiado fantástica para ser assaltada.

Mas se foi uma opção de encenação, aplausos para o elenco que o soube fazer bem: a interpretação está lá – exagerada, se assim for suposto ser – bem executada e feita com dedicação. Sejamos francos e humildes e digamos que ator é quem o aspira ser e aplica-se para tal. E este grupo merece essa digna palavra pelo esforço, dedicação, concentração e humildade demonstradas em palco. Uma interpretação que nos olha de frente, sem medos – mesmo que em diálogo com outros. Um espetáculo que nos intimida, que nos clama mas que não chama.

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A luz e a música que permanece sempre meio intermitente acomoda-nos na sala. É nos rostos semi-cerrados – semi-escuros – que reside a experiência quotidiana. A luz ora aumenta, ora reduz – também ela numa viagem própria – mas que sempre nos deixam assombrados na íntima escuridão (de nós, dos outros ou da aspiração a sociedade). As palavras que se soltam leva-as o vento. Mas um vento sem poeira, um vento que permanece nos nossos poros ao retirar-nos daquela caixa negra, daquele local quase esotérico e exterior ao mundo vil, mais não seja para tentarmos entender todos estes problemas que vos exponho.

No fundo do palco, à saída, uma boa experiência. Uma experiência teatral diferente. Cheia de questões, interrogações e dúvidas – desafio sempre premente num teatro cada vez menos desafiante. Mas em Shakespeare o desafio é o contrário disto: é a naturalização, a não-diabolização de um vocabulário difícil de entender. É o encontrar do entendimento – se não total, quase. É o uso da simplicidade – como é feita com o cenário, iluminação e som – em todo o conjunto daquele piso negro. É a simplicidade mais complexa de todas: tornar entendível, sem deixar de ser desafiante, a mais bela arte de todas. Tal como na Universidade é a simplificação do que parece complicado que nos traz o sucesso.

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Aplausos em geral. Porque merecem. O FATAL podia ter começado melhor: mas se foi este o começo que façamos dele o melhor começo do mundo. Levantemo-nos perante estes anti-heróis. Sorrisos e arrepios pedem-se. Macbeth foi a história de um assassínio: não do teatro, muito menos do poder, mas do actual estado do Ensino Superior (e não só). Um assassínio não-fatal, porque nunca deixamos morrer a criação.

 Nota Final: ***

Fotografias cedidas pela organização do FATAL