Volvidos 10 anos depois das Confissões das Mulheres de 30, Maria Henrique, Fernanda Serrano e Ana Brito e Cunha voltam ao palco com 40 e então?, no Teatro Tivoli, em Lisboa. O Espalha-Factos hoje, em entrevista a Fernanda Serrano, que se encontra simultaneamente em gravações na TVI.

Espalha-Factos: Os 19 resultaram?

Fernanda Serrano: Resultou. Eu gozei muito os meus dezanove anos. Eu soube aproveitar muito. Dezanove foi quando eu fui viver para Barcelona. Ia lá só um mês trabalhar, fiquei um ano. Porque era bom!

EF: Foi trabalhar?

SONY DSCFS: Trabalhei muito, foi ótimo. Na altura ainda trabalhava como manequim e fui durante um mês, mas entretanto como é um mercado muito bom, publicitário, eu angariei muito trabalho, fui ficando… E houve um dos castings que fiz para uma produtora que ia começar a filmar uma longa-metragem – a primeira longa da realizadora – que viu um casting meu e que me pôs a fazer cinema.

EF: Um acaso da vida?

FS: Uma coisa perfeitamente inesperada. E foi assim que começou o meu trabalho, e este meu percurso como atriz. Quando fiz o filme já tinha 20. Foi há 20 anos atrás! Parece que foi há cinco ou seis, é impressionante.

EF: E como é estar lá em cima, passado 10 anos dos 30?

FS: Nós ontem quando fizemos o ensaio geral, eu sSONY DSCenti: “ah! 10 anos depois estamos aqui as três que bom!” É bom porque hoje em dia eu sei desfrutar muito mais desse tipo de coisas, em vez de estar a sofrer tanto porque é uma estreia, ou porque não, é bom entregar, agora que já está montada, a peça, oferecê-la ao público. É bom, e estarmos as três, são pessoas que me são muito próximas, é bom estar com elas ali, é quentinho.

EF: A Ana [Brito e Cunha] estava a dizer que agora ainda é melhor porque começaram do princípio todas juntas.

FS: Exatamente, porque da outra vez não aconteceu isso e ela apanhou ali o processo a meio. Assim, tem outro sabor, obviamente.

EF: Na primeira cena, chegou atrasada…

FS: Cheguei atrasada porque vim das gravações da novela.

EF: Mas no palco é capaz de ter resultado ainda melhor

SONY DSCFS: Estava mais nervosa [risos]

EF: Ao longo do dia decorrem uma série de acontecimentos que vamos incorporando.

FS: Que vão promovendo também o nosso estado.

EF: Qual é que tem sido a parte mais difícil?

FS: Estar tantas horas sem ir a casa. Por exemplo, estou duas semanas que não consigo jantar com eles, isso custa-me. É o único senão, o resto é tudo excelente, é que toda a equipa não poderia ser a melhor. Tanto luz, som, encenação, produção, todas as pessoas, é tudo uma equipa muito coesa, muito direcionada, muito profissional. É linda esta sala, tem uma energia! A peça é leve, simples, comercial e despretensiosa. Não se propõe a ser aquilo que não é. Estou com pessoas que eu gosto. Quer dizer, eu só estou feliz! O único senão é só não conseguir estar tanto com os meus.

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EF: Têm muitas personagens e também escreveram alguns dos textos.

FS: Sim, alguns dos textos, são textos de mulheres, interpretados para mulheres. Têm essa particularidade.

EF: Não só para mulheres.

FS: Não só para mulheres. Temos textos da Leonor Xavier, da Helena Sacadura Cabral, da Rita Ferro, da Rita Gil, da Inês Menezes, da Ana Bola, giríssimo! Da Sónia Aragão

EF: A 3ª cena é da Ana Bola?

FS: Sim, é da Ana! Tem uma comicidade muito própria dela, é muito divertida. Mas há textos até pouco expectáveis, pouco esperados e no entanto depois acontecem coisas muito divertidas, porque um texto depende da perspectiva e daquilo que se lhe dá. Vida, voz, corpo, alma.

EF: Também depende do público?

FS: Também, de quem a recebe. Mas a peça é muito diversificada. É muito eclética. Tem e abrange um número imenso de mulheres.

EF: Nós próprias temos muitas cá dentro.

FS: Exatamente, em diferentes partes do nosso dia, diferentes fases da nossa vida, com diferentes pessoas, também alteramos. Somos condicionadas por todos esses fatores, claro que sim.

EF: Expetativas?

FS: Ter salas cheias todos os dias. E que o público se divirta tanto a ver quanto nós a fazer.

EF: Uma mensagem para o Teatro.

FS: O Teatro é quentinho, é aconchegado, eu gosto dessa proximidade com o público, porque em todas as outras vertentes, tanto no cinema quanto em ficção na televisão, estamos muito afastados, do público, não sentimos esse…

EF: Não há feedback?

FS: Não há feedback nenhum, o feedback que temos é algo muito alterado, e muito deturpado por vezes, e muito distanciado, porque é distanciado temporalmente do que nós já fizemos. Aqui há um feedback imediato [bate as palmas], existe este, tanto que às vezes nós temos as cenas já quase todas montadas, mas falta um nervo, falta o quê? O público. O público é uma ferramenta, uma parte tão importante quase como um ator ou um sonoplasta. Sem público não há espetáculo.

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EF: E a peça também vai alterando…

FS: Nós somos condicionadas muito pelo público. Se é um público muito efusivo, nós estamos mais [a postura expande-se], se é um público menos nervoso, mais calmo, condiciona-nos. Não quer dizer que seja um mau espetáculo, é um espetáculo diferente e nós gostamos dessa novidade todos os dias.

EF: É a transformação?

FS: Faz muita falta. O teatro precisa muito de público para viver.

EF: Quando estão no palco, há sempre hipótese de correr alguma coisa mal.

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FS: É a inevitabilidade do momento. Não há nada como o já, o agora, o fazer. Eu gosto muito, dessa adrenalina. Eu gosto quando o pano abre e, no way back, vamos fazer.

EF: Não há medo nenhum?

FS: Quando abre já não, deixa de haver. Entramos, acabou. Lá atrás, muito, tudo! Abre o pano, entramos e acabou. Estamos a fazer.

EF: E depois no fim é?

FS: A descompressão. Sabe bem, sabe muito bem. Acho que é quase tão bom como começar. [risos]

EF: O acabar ou o durante?

FS: São momentos muito diferentes. O durante nós passamos ali por vários momentos, temperaturas. O teatro, o espetáculo, tem muitas temperaturas. No início estamos mais [nervosos], depois de repente há um [gesto de calma]. Ainda bem que é assim, tem de ser moldado, tem de ter altos e baixos, que é para o público também pensar, perspetivar, responder, apreender aquilo que está a receber. E depois tem de voltar a ter picos. Portanto, o bom é que tudo faz parte do processo, tudo é necessário, tudo tem que ser muito bem saboreado e desfrutado, mas de formas diferentes, digamos assim.

A peça estará em cena até dia um de junho, de quinta a sábado, às 21h30m, e aos domingos, às 16h30m. O preço do bilhete varia de 10€ a 18€.