A mais recente comédia francesa chega a Portugal com dois prémios César na bagagem, mas não parece ter o espírito de um filme vencedor de galardões com tal estatuto.

Gravidez de Alto Risco conta a história de Ariane Felder (Sandrine Kiberlain) uma juíza dedicada ao trabalho e que não anda preocupada com vida social. Tudo muda quando fica grávida. E a situação agrava-se quando descobre que o pai do seu bebé é Bob Nolan (Albert Dupontel), um dos criminosos mais aterrorizadores de França.

O filme segue as leis de todas as comédias francesas que têm chegado às nossas salas nos últimos anos: usa uma história já muito explorada e, como consequência, acaba por se tornar previsível. É evidente que nada disto pode ser considerado um problema, pois várias são as situações em que os menos originais dos realizadores se tornam nos mais engraçados. Infelizmente, Albert Dupontel, que assina a realização e o argumento de Gravidez de Alto Risco, não consegue transformar o ordinário da sua obra em algo divertido.

Uma das principais razões para tal é o facto de Dupontel não ter um sentido de humor muito apurado. Várias são as piadas que passam completamente ao lado do espectador, ora porque não são engraçadas ora porque já adivinhamos as falas das personagens (lá está a previsibilidade), e muita da comédia visual não chega a ter o efeito desejado. Depois há algo de muito irritante durante todo o filme. A personagem Bob Nolan é acusada no filme de ter comido os olhos da sua última vítima e é a partir desta atrocidade que Dupontel vai criar a maioria das suas piadas. À primeira tem graça, à segunda ainda solta uns sorrisos, mas a partir daí começa a ser frustrante ouvir tantas anedotas e trocadilhos foleiros sobre olhos.

Não se pense, porém, que assistir a Gravidez de Alto Risco é uma experiência monótona e sem gargalhadas. Há um ou outro momento em que o argumento de Dupontel tem, de facto, piada. Embora a maioria das gags do filme seja um pouco infantil, existem bons momentos de humor negro que, por mais exagerados que sejam, acabam por se transformar nos momentos mais cómicos.

Um dos outros bons aspetos desta obra é a forma como a história vai avançando. Embora o enredo em si não seja nada de extraordinário e haja até muito incoerência na narrativa, os pequenos acontecimentos atrás da história principal são interessantes e por vezes até ficamos curiosos para ver o que as personagens vão fazer a seguir. Nada disto impede o final que já se vai adivinhando desde bem cedo no filme, mas ao menos temos o privilégio de uma surpresa menor aqui e ali. Dupontel mostrou ainda uma surpreendente sensibilidade quando chegavam as cenas mais delicadas e teve um ou outro ponto alto na sua realização, que nalguns momentos chegou a roçar o desastroso.

O elenco de Gravidez de Alto Risco é também uma mais valia. Sandrine KiberlainAlbert Dupontel fazem um par interessante, não dos que tem mais química no ecrã mas certamente um dos mais peculiares e divertidos. A atriz destacou-se principalmente nos momentos mais dramáticos do filme, onde soube trazer emoções fortes à superfície, enquanto que o seu parceiro esteve mais forte nas situações cómicas, ironicamente, aquilo que não conseguiu fazer atrás das câmaras. Nicolas Marié fez uma excelente performance do advogado Trolos, vítima de uma gaguez incontrolável que soltará várias gargalhadas. Destaque ainda para Jean Dujardin, que teve um pequeno mas hilariante cameo.

Não traz nada de novo ao panorama das comédias francesas e muitas das piadas falham em fazer-nos sorrir, mas o carisma dos seus atores e o enredo minimamente interessante fazem de Gravidez de Alto Risco um filme que, não satisfazendo totalmente o público, nos entretém por hora e meia.

5/10

Ficha Técnica:

Título: 9 mois ferme

Realização: Albert Dupontel

Argumento: Albert Dupontel

Elenco: Sandrine Kiberlain, Albert Dupontel, Nicolas Marié, Philippe Uchan

Género: Comédia

Duração: 82 minutos