Volvidos 10 anos das Confissões das Mulheres de 30, Maria Henrique, Fernanda Serrano e Ana Brito e Cunha voltam ao palco com 40 e então?, no Teatro Tivoli, em Lisboa. O Espalha-Factos entrevistou as atrizes do espetáculo. Hoje ficamos com Ana Brito e Cunha, que nas Confissões das Mulheres de 30 acabou a substituir Margarida Marinho, oportunidade que lhe permitiu fazer agora os 40, embora na realidade ainda lhe faltem dois anos para lá chegar.

Se a adaptação da comédia de Domingos Oliveira foi um sucesso, 40então?  uma produção da UAU da autoria, não só das próprias atrizes, como também de outras mulheres do meio literário e artístico, como Ana Bola e Rita Ferro – promete encantar ainda mais com histórias sem tabus, mas muito humor, divertidas e comoventes, cheias de afetos. De e para mulheres, mas não só, as atrizes aconselham a levar os pais, os avós, os irmãos, os maridos e os namorados, enfim, toda a casta masculina que se atreva a mergulhar no complexo e tão atraente mundo feminino.

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Espalha Factos: Os 40 não assustam, mas os 19* sim. 

Ana Brito e Cunha: Daqui para a frente é sempre a melhorar. Sempre.

EF: Menos dúvidas ou continuam?

ABC: Muito menos dúvidas. Deixamos de ter dúvidas. Aprendemos a não questionar, porque a vida não tem respostas. Só as nossas atitudes é que nos levam às respostas, e muitas vezes as dúvidas e as questões, está certo, está errado, o que é que eu faço, o que é que eu não faço, leva-nos a reagir sobre o medo e isso não nos faz reagir em pleno.

EF: Temos de ser espontâneos?

ABC: Temos de ser espontâneos e de confiar.

EF: É o primeiro instinto?

ABC: É o primeiro instinto, exatamente. Eu sou muito de instinto. E o que vem, seja bom, seja mau, faz parte da aprendizagem. E sofrer também é bom, porque nos faz crescer.

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EF: Quem não sofre, também não está a viver. É porque algo está a correr mal.

ABC: Exatamente. E o facto de haver sofrimento faz com que as gargalhadas e o prazer sejam muito melhores.

EF: Como é subir ao palco?

ABC: É uma maravilha. Um sonho tornado realidade, é pensar que há 10 anos, quando estávamos a fazer este espetáculo [as Confissões das Mulheres de 30], se calhar um dia conseguiriamos fazer os 40, 0s 50, os 60. Olha, estamos aqui nos 40 e Deus permita que possamos continuar!

EF: A fazer os 50?

ABC: Quem sabe? Não se sabe, agora é viver o agora, que é o SONY DSCimportante. Mas é muito bom, acima de tudo. Eu estava a explicar há bocado que, quando foi as Confissões das Mulheres de 30, eu entrei a substituir a atriz Margarida Marinho, portanto eu fiz a digressão, tive a oportunidade, fizemos 4 anos de digressão, foi imenso. Portanto, tive mais que oportunidade de me integrar, de me sentir a fazer parte, mas desta vez estou a construir com elas desde o início e isso é um. Eu gosto muito de me lembrar e de apreciar as coisas boas que a vida me dá, mesmo as pequeninas, e esta é uma das pequeninas que eu me lembro e volta e meio estou com elas e digo-lhes: “vocês não sabem o que eu dou valor a estar a construir isto com vocês desde o zero!”. É de facto um projeto que nos toca muito e que criou laços de amizade muito grandes. A UAU permite que possamos trabalhar, assim nestas condições, e isso é muito agradável.

EF: É mais complicado o processo criativo ou depois?

ABC: O processo criativo é muito difícil e mais complicado. Acima de tudo porque foi um processo criativo que se tomou à partida como nosso, convidar autoras, diferentes autoras do nosso panorama literário, para SONY DSCpoder escrever, e não só, que escrevessem para nós. No caso delas as Confissões de Mulheres de 30 é um texto que vem do Brasil, que encenaram, e aqui não, foi construído por nós, fizemos parte da autoria, fizemos parte da construção de tudo, das escolhas, tivemos um grande apoio por parte da Sónia Aragão, que é a nossa encenadora, que fez um grande trabalho de junção de todos esses textos e pronto, torna as coisas mais difíceis obviamente, mas o que também é mais difícil é sempre mais prazeroso, no final.

EF: O cenário é muito minimalista – a mulher tem realmente um papel de destaque.

ABC: Essa é a ideia. É que seja focado na mulher, que a mulher esteja em destaque. Utilizámos a questão dos sapatos, foi uma ideia da Sónia que eu acho que é brilhante, porque qualquer mulher é apaixonada por sapatos e, de facto, um par de sapatos tem o poder de nos transformar. Então, optámos por deixar o foco na mulher. O facto do figurino ser branco, dá-nos a paz e a serenidade dos 40 anos, e isso é muito bom.

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EF: Tem muito simbolismo.

ABC: Tem muito simbolismo e e eu acho que isso é que é o importante de ser evidenciado aqui e acho que conseguimos.

EF: Da primeira para a terceira cena transforma-se: tornou-se espanhola.

ABC: Sim, eu faço uma galega, assim uma galega que já está em Portugal há muitos anos. [risos] Foi assim um bocadinho inspiração de uma personagem que eu já fiz há muitos anos em teatro e que funcionou, mas essa era mesmo espanhola a tentar falar português, tinha um recorte muito maior e, então aqui optámos por fazer uma coisa muito mais subtil. Nós temos muitas mulheres ao longo do espetáculo e depois lembrei-me: tantas amigas e pessoas estrangeiras que vivem cá porque não também incorporar isso neste espetáculo? Portanto, ao princípio, quando experimentei fazer a galega, senti a plagiar-me a mim própria, e pensei: “não me vou plagiar!, vou tentar partir daquilo que já criei e tentar fazer uma personagem similar, mas que possa ser real”, e então fiz essa galega ali na cena da manicura. Eu chamo-lhe galega por homenagem a um senhor que trabalhava na casa da minha avó, que era galego, e eu adorava, e nós SONY DSCbrincávamos muito com a maneira de ele falar. E eu vivi muitos anos em Espanha, trabalhei muitos anos, tenho ainda uma relação muito grande com Espanha. Eu sou portuguesa, adoro Portugal, adoro o meu país, não trocava por nada deste mundo, mas tenho tanto uma relação com Espanha, que me sinto um bocadinho ibérica, verdade seja dita.

EF: É uma segunda casa?

ABC: Para mim é. A minha reciclagem profissional é feita lá, em Espanha, e sempre que posso, todos os anos, também faço cá, com outros professores, mas tento todos os anos fazer reciclagem em Espanha.

EF: Expetativas para dia 30?

SONY DSCABC: Os 40 trazem-no a aprendizagem de que as expetativas não se devem criar muito. Mas são boas, são positivas. Principalmente porque o processo foi tão intenso e tão trabalhoso, que normalmente quando as coisas acontecem assim, e com tanto amor e tanta amizade, significa que o resultado só pode ser bom, porque é feito com o coração, com profissionalismo, com vontade.

EF: Perdemos o medo, mas não perdemos a preocupação?

ABC: Nunca! Isto, as tábuas, é um bocadinho assustador, não é? Eu aprendi a ouvir um ator mais velho que estava sempre a dizer: “no dia em que eu deixar de ter nervos antes de entrar num palco avisem-me para eu sair da profissão”. Eu acho que ele tem toda a razão, porque é bom ter ainda estes nervos, é bom sentir isto, porque é isto que nos faz atravessar a 4ª parede e entrar na dimensão do teatro, e isso é que é mágico. Isso é que é mágico.

EF: Mas desaparece tudo quando saímos detrás das cortinas.

ABC: Isso é que é giro. A magia está aí. E isso é arte e a SONY DSCmagia está exatamente aí. Quando temos a capacidade de deixar de ser nós próprios e viver intensamente o que se passa dentro daquelas paredes, nomeadamente na 4ª, tendo sempre um pezinho cá fora, porque é um trabalho profissional e não nos podemos esquecer do que estamos ali a fazer. O meu mestre costuma dizer que um ator tem de estar 99% lá dentro e 1% cá fora, para ver, não se perder nos textos e no que está a fazer, mas 99% tem que estar lá dentro e essa é a magia do teatro. Estamos muito nervosos cá fora, quando entramos, parece que estamos no céu, na paz, no sítio certo. E temos este teatro tão mágico, tão bem protegido. Foi o primeiro palco que pisei na minha vida. Foi este o primeiro palco, tinha 16 anos, fiz um musical alentejano. Em termos profissionais, foi o primeiro palco que eu pisei, portanto para mim tem um significado muito grande.

 EF: Estar aqui tem então um significado ainda mais importante.

ABC: Tem, tem. Para mim tem um significado muito grande. Este Teatro [Tivoli] é muito bom, tem muito boa energia, muito boa protecção e é um Teatro central nesta cidade.

EF: Obrigada.

ABC: Obrigada. Muito obrigada. Bom trabalho.

A peça estará em cena até dia um de junho, de quinta a sábado, às 21h30m, e aos domingos, às 16h30m. O preço dos bilhetes varia de 10€ a 18€.

* a entrevistadora tem 19 anos