Na semana em que se aproxima a final do Festival da Eurovisão 2014, o Espalha-Factos foi para a rua tentar descobrir o que o festival e a participação do nosso país significam para os fãs e menos fãs do concurso.

AS MEMÓRIAS DE 50 ANOS DE PARTICIPAÇÃO

A “Desfolhada” de Simone de Oliveira (1969), “Um Grande, Grande Amor” de José Cid (1980) e o grande símbolo da liberdade portuguesa, “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, são os temas que mais permanecem na memória dos entrevistados como os que melhor representaram Portugal no festival. Há ainda quem relembre “Lusitana Paixão” de Dulce Pontes (1991) e a “Tourada” (1973), do recentemente emigrado Fernando Tordo.

No que toca às atuações estrangeiras, a memória remete para os arrojados finlandeses Lordi, vencedores do festival em 2006, com o tema “Hard Rock Hallelujah”.  Mas ainda há espaço para um dos países que mais adora e investe na Eurovisão, a Suécia. Os ABBA com “Waterloo” e a recente “Euphoria” de Loreen, são outras das boas memórias internacionais que ficam para quem colaborou neste voxpop do Espalha-Factos.

A MÚSICA NACIONAL EM 2014

A escolha portuguesa deste ano, Suzy com “Quero Ser Tua”, merece críticas diversas, confirmando o pouco consenso e a polémica em que está envolvida desde a final nacional. Se por um lado, é considerada uma escolha adequada ao quadro musical da Eurovisão, outros contrariam esta ideia e acham que não se insere no contexto do festival.

Vários dos entrevistados por nós afirmam que é apenas mais uma aposta no “registo habitual” que parece resultar, que não representa de todo o que é a cultura portuguesa, mas sim os padrões culturais que nos têm sido impostos ao longo do tempo, e que demonstram a perda de identidade nacional. Os resultados revelados ontem na semifinal confirmam os piores receios das pessoas com quem falámos. Portugal voltou a não qualificar-se. Apesar das boas críticas estrangeiras e dos sites da especialidade, parece que foram os mais críticos quem acertou desta vez.

O QUE FALTA A PORTUGAL PARA CHEGAR MAIS LONGE? 

Portugal participa no festival desde 1964, e a linha musical escolhida para representar o nosso país tem variado bastante ao longo dos anos. É da opinião geral que a evolução das escolhas não tem sido positiva. É dito que as músicas que representam o nosso país têm agora um registo mais superficial, uma particularidade que espelha o estado da cultura e sociedade portuguesas, que têm igualmente caminhado nessa direção.

Se mesmo com boas escolhas nas primeiras edições, Portugal nunca conseguiu mais do que o 6.º lugar – com a canção de Lúcia Moniz em 1996. Vamos lá ver então o que falta a Portugal para chegar mais longe.

As respostas que obtivemos assentam na dinâmica do concurso, que alegam basear-se em interesses diplomáticos e na influência do país a nível geopolítico. A influência dos países vizinhos é uma realidade que para Portugal está longe de ser um ponto a favor no momento das votações, e mesmo o apoio dos países com uma grande população emigrante portuguesa não é suficiente para levar Portugal mais além.

A dinâmica adotada acaba por ser desfavorável para países como o nosso, que, no que toca a fronteiras, tem poucos aliados. No entanto, a falta de apoio não é só externa. O investimento financeiro nacional é considerado pouco, assim como a divulgação e o apoio aos artistas. A importância dada ao festival nos restantes países europeus é bastante superior àquela que é dada a nível nacional e a diferença nas atuações é objetiva e visível. Por estas razões, a motivação em relação ao evento e o impacto do festival em Portugal ficam muito aquém da realidade europeia. Será que vale a pena continuar ou está na hora de um derradeiro Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye?.

Bernardo Carreiras e Patrícia Nunes