IndieLisboa chegou ao fim. Para a despedida analisamos um documentário da competição nacional, Revolução Industrial, e um último filme da competição internacional, Belleville Baby, encerrando assim de forma já nostálgica um festival que trouxe muito cinema independente à cidade de Lisboa.

Belleville Baby  8/10

Belleville Baby inicia-se abruptamente. Um assomo súbito de uma outra vida, com outras regras e intervenientes. É de Vincent a voz do passado que ressoa na cabeça de Mia Engberg, antigos amantes numa Paris diferente, perigosa e excitante. No decorrer do diálogo, telefónico e hesitante, percebemos que  Vincent desapareceu sem explicação há 10 anos, e o interesse relutante de Engberg cresce ao recordar a sua vida passada, e ao saber o que acontecera a Vincent.

A atmosfera do filme é cuidadosamente construída pela sequência e alternância de filmagens antigas, geralmente em super8, e filmadas por telemóveis, tanto em Paris como em Estocolmo, com acompanhamento musical de Michel Wenzer, atribuindo um simbolismo a momentos e fragmentos das memórias que nos são narrados ou dados diretamente pelas conversas telefónicas entre os dois.

Belleville Baby

O espectador, no decorrer dos diálogos, descobre progressivamente a importância para ambos daquela relação magnética e intensa. As suas memórias fluem como metades complementares de vidas em tempos fundidas, vistas agora por duas pessoas que guardam para si partes diferentes do outro e do que viveram.

O mito de Orfeu, início e fim do filme, é a chave para compreender a premissa central da impossibilidade de salvação do outro apenas pelo amor. A realizadora sueca retrata a vida como uma complexa mistura de sentimentos, locais e pessoas, onde a natureza das memórias que temos do outro e da própria vida é profundamente subjetiva.

Belleville Baby é a prova de que nem um amor como o que é tão exemplarmente descrito consegue sempre sobreviver às condições impostas pelo mundo e pela vida.

 

Revolução Industrial 4/10

Revolução industrial começa com uma sucessão de imagens de arquivo relativas à história da industrialização do Rio Ave. As imagens deste investimento e da construção ao redor do rio, principalmente do sector energético e têxtil, parecem sugerir que o documentário será uma reflexão sobre a ascensão e queda desta zona industrial, e suas consequências para a zona e suas gentes.

Tiago Hespanha e Frederico Lobo escolhem o próprio rio como caminho que percorrem de barco, que tenta ser o elemento unificador das várias abordagens, imagens e histórias que recolhem ao longo do filme. De facto, os realizadores portugueses poderão ter tido uma ideia inicial sobre a sua forma de abordagem à questão da industrialização daquela região, mas essa ideia, se existiu, afundou-se rapidamente nas águas poluídas do Ave.

Revolução Industrial

O que nos é apresentado é um mosaico de histórias de pessoas e locais, sem algo que defina a espinha dorsal deste projeto, e sem que o espectador sinta que há uma mensagem ou um propósito, ainda que exclusivamente documental, que una este filme e que nos permita sentir menos perdidos no meio das histórias que vemos documentadas, algumas delas interessantes e com momentos bem conseguidos, tanto em termos narrativos como de imagem.

O que vem ao de cima em Revolução Industrial é um percurso errático e melancólico nas águas de um antigo rio industrial cujo modelo de desenvolvimento se esgotou. As cenas e sequências referentes à viagem de barco que fazem pelo rio são talvez o maior exemplo do que correu mal no filme, com uma duração que eufemisticamente poderá ser considerada exagerada, a não ser que a intenção fosse a de propositadamente alienar a audiência.