Apesar de se autoproclamar como o “programa televisivo preferido da Europa”, o Festival Eurovisão da Canção tem perdido em vários países a mística que outrora existia no coração das gentes do Velho Continente.

Muitos entre as gerações mais novas acham a maioria das canções enfadonhas ou demasiado cheesy e vêem, por isso, o concurso como algo obsoleto e ultrapassado. As gerações mais velhas criticam a qualificação automática dos Big Five (Alemanha, Itália, Espanha, França e Reino Unido) e a ausência de grandes vozes, como as que ecoavam nas edições dos “tempos dourados”. A verdade verdadinha é que os artistas, que todos os anos se fazem ouvir por alturas de maio na RTP, não são propriamente os mais talentosos ou célebres que os respectivos países têm em stock.

Mas… e se fossem? Como seria se as melhores bandas e intérpretes de cada país europeu subissem ao palco da Eurovisão? Ao longo desta semana, o Espalha Factos irá além-fronteiras, qual Vasco da Gama, à descoberta daqueles que são os verdadeiros grandes músicos dos 37 países que participam este ano no Festival Eurovisão da Canção. As opções eram muitas e as escolhas são sempre subjectivas, mas estes são para nós a créme de la créme da música europeia.

Devido ao avultado número de países (37!) que participam no certame europeu, esta prospecção aos grandes talentos irá ocorrer ao longo de três artigos. Este é o segundo.

França – Daft Punk

A língua francesa tem na sua essência um “je ne sais quoi” de sensualidade, propício às célebres chansons de Patrick Bruel e Francis Cabrel. Ainda assim, hoje em território gaulês são os Daft Punk que vão propagando os seus beats um pouco por todo o globo. Depois de sucessos intemporais como One More Time, Harder, Better, Faster, Stronger ou Digital Love, o duo parisiense, que até tem um lusofrancês na formação, apresentou em 2013 o álbum Random Access Memories e o sucesso foi imediato. Get Lucky e companhia valeram aos franceses uma molhada de prémios e elevaram a dupla a uma dimensão intocável.

Menções honrosas: Jean Michel Jarre, Yann Tiersen, Gojira.

Geórgia – Katie Melua

Este é mais um exemplo de um grande artista que nasceu num país pequeno. Sabia que Katie Melua nasceu na Geórgia? Sim, claro que sabia. A voz melodiosa levou-a para a Irlanda do Norte com apenas oito anos e por lá ficou, a cantar e encantar milhares. Depois de muitos álbuns vendidos, alguns prémios internacionais e uma participação na telenovela portuguesa Fascínios, a georgiana continua em altas ao leme de canções como Nine Billion Bicycles, Tiger in the Night ou No Fear of Heights. O próximo grande passo seria representar a Geórgia na Eurovisão…

Menções honrosas: Giya Kancheli, Lela Tataraidze, Misha Andgulaze.

Grécia – Vangelis

Os gregos têm nomes difíceis de pronunciar, roubaram-nos o campeonato da Europa em 2004 e são atualmente um buraco financeiro. Mas embora não pareça, também existem coisas boas vindas da Grécia. Uma dessas coisas é Evangelos Odysseas Papathanassiou ou, simplificando, Vangelis. O helénico é uma autêntica instituição da música grega, à custa de malhas como Chariots of Fire ou Conquest of Paradise, canções conhecidas pelas mais diversas gerações. Com mais de 50 (!) anos de carreira, o grego dedica-se agora à realização de bandas sonoras para filmes como Trashed e El Greco.

Menções honrosas: Demis Roussos, Firewind, Vasilis Papakonstantinou.

Holanda – Within Temptation

A Holanda está para a música como o Marques Mendes está para a política. Ou seja, é um país muito pequeno, mas saem de lá muitas coisas (algumas até são boas). Desde o trance ao indie, passando pelo rock e metal, no país laranja podemos encontrar de tudo um pouco. Os Within Temptation são a banda mais reputada do país, sabendo sempre adaptar-se às modas que os mercados exigem. Começaram pelo metal sinfónico quando este era fixe, depois atiraram-se de cabeça para as baladas melancólicas e hoje em dia fazem uso de alguma electrónica. Apesar da faceta camaleónica, canções como Angels, Forgiven ou Faster não deixam ninguém indiferente.

Menções honrosas: Tiësto, Golden Earring, Armin van Buuren.

Hungria – Omega

Muitos criticam as bandas que optam pelo inglês em detrimento da sua língua nativa. A verdade é que muitas vezes a língua nativa é um trava-carreiras de mão-cheia, que o digam os Omega. Tudo bem que não são uns Pink Floyd, mas a banda húngara tem um repertório e uma presença de palco nada usuais em bandas do leste da Europa. Apesar das barreiras linguísticas, o sucesso internacional era inevitável e a banda de Budapeste viu o seu grande hino Gyöngyhajú lány ser interpretado pelos Scorpions e também por Kanye West. Após mais de 50 milhões de álbuns vendidos, permanecem canções como Léna, Nem tudom a neved ou a já referida Gyöngyhajú lány.

Menções honrosas: Locomotiv GT, Ektomorf, Solaris.

Irlanda – U2

Encontrar um grande artista irlandês é quase tão frequente como ver o F.C. Porto ganhar o campeonato nacional. Os U2 são a epítome da grandiosidade que a música irlandesa tem. Ao todo a banda de Dublin vendeu mais discos do que, por exemplo, Beyonce e Nirvana juntos, derreteu mais corações com uma canção do que Bruno Mars, Justin Bieber e os Backstreet Boys alguma vez derreterão juntos (ahaha) e mantêm-se por isso como uma das mais lendárias bandas de rock alternativo de sempre. Os clássicos são imensos, mas faixas como With or Without You, Beautiful Day ou Sunday Bloody Sunday fazem jus à fama dos U2.

Menções honrosas: Enya, Van Morrison, The Cranberries.

Islândia – Björk

Dizem que é de pequenino que se torce o pepino. E quem melhor para falar disso do que a eternamente jovem Björk Guðmundsdóttir? Algo que nasce no seio da época do flower power, só poderia trazer ao mundo dos palcos uma irreverência que a poucos calha. Foi na inocência dos 12 anos que a artista começou a aparecer ao mundo através da rádio e da música de Tina Charles, I Love to Love. Hoje a sua voz inconfundível e o seu estilo musical ecléctico já lhe renderam um amontoado de prémios, entre eles, um prestigiado Polar Music Prize, o equivalente a um Prémio Nobel da Música.

Menções honrosas: Sigur Rós, Emiliana Torrini, Of Monsters and Men.

Israel – Infected Mushroom

O que é que é preciso para Erez Eisen e Amit Duvedevani confeccionarem Infected Mushrooms? Seis tipos de teclados eletrónicos, cinco aparelhos de efeitos sonoros digitais e seis de analógicos, dois mixers, dois samplers e mais uma dezena de programas de computador. O resultado são as paredes e o tecto de casa infalivelmente caídos no chão, isto se ainda houver paredes… Os dois DJ’s criaram um som difícil de passar despercebido e que a muitos diz, pela inovação e criatividade que trouxe ao trance psicadélico mundial. Becoming Insane, Never Mind e Where Do I Belong deixam os fãs com os miolos a deitar fumo.

Menções honrosas: Asaf Avidan, Keren Ann, Orphaned Land.

Itália – Andrea Bocceli

Já dizia Antoine de Saint-Exupéry que “o essencial é invisível aos olhos” e, no caso de Andrea Bocelli, poderíamos tomar esta afirmação de muitas maneiras e feitios. Aos 12 anos, a cegueira passou a fazer parte da vida do tenor, mas, aos olhos de muitos, isso era apenas um mero contratempo contra aquilo que se avizinhava. O Sole Mio na voz do italiano foi o primeiro passo rumo ao estrelato, seguindo-se horas, dias e meses de árduo trabalho vocal. Hoje, Andrea segue as pisadas do conterrâneo e falecido Luciano Pavarotti, tornando-se igualmente num dos mais importantes tenores de todos os tempos. Interpretações de Con Te Partiro, Por Ti Volare e Besame Mucho são de arrepiar…

Menções honrosas: Ennio Morricone, Laura Pausini, Eros Ramazzotti.

Letónia – Pērkons

Os Pērkons foram banidos e proibidos de tocar na União Soviética duas vezes e sobreviveram para contar a história. Os letões eram e ainda são, aquilo a que se pode chamar um dadaísta, mas da música. Fazendo uso da música clássica e do rock’n’roll (sim, é possível), a banda natural de Riga inspirou gerações e criou hinos que a juventude soviética cantava em uníssono no início dos 80’s. Apesar da censura e das retaliações do governo, a banda continuou estoicamente o seu percurso, fazendo ecoar as letras provocadoras de Māris Melgalvs em canções como Zala Dziesma, Pie baltas lapas ou a infame Balāde par gulbi.

Menções honrosas: Imants Kalniņš, Satellites LV, Skyforger.

Lituânia – Antis

Pode parecer estranho, mas os Antis não são anti nada. Está descansado, o nome da banda significa apenas “pato” em lituano. Apesar do nome, os lituanos cedo mostraram que não eram nenhuns patos e depressa se fizeram à estrada conquistando fãs nos países que estavam mesmo ali ao lado, como por exemplo, a Rússia. Assim como os Sex Pistols, os Ramones ou os Pērkons, também os Antis foram altamente reprimidos, mas souberam sempre resistir à mão pesada do governo soviético. Depois da tempestade veio a bonança e malhas como Zombiai ou Kazkas atsitiko fizeram os fãs cair que nem uns patinhos na melodiosa música dos Antis.

Menções honrosas: Happyendless, Freaks On Floor, Jurga.

Macedónia – Leb i Sol

Costuma dizer-se que a o poder da música e do desporto ultrapassam as barreiras da língua, e é verdade. Os Leb i Sol conseguem provar isso a cada música que ouvimos deles, através de influências do jazz e folclore macedónio misturadas com o rock progressivo e metafísico. O virtuoso Vlatko Stefanovski leva-nos a viajar pelo leste europeu, por entre solos e riffs afiados que desafiam a mente do ouvinte. Ainda no ativo, os “pão e sal” são de longe a maior banda nascida na Macedónia, um país sem grandes motivos de interesse a nível musical. Canções como Cuvam noc od budnih e Uci Me Majko, Karaj Me farão certamente com que até goste um bocadinho da Macedónia.

Menções honrosas: Mizar, SuperHiks, Kiril Džajkovski.

Agradecimentos especiais: Inês “Froggy” André.

Espalha-Factos acompanha, hoje, terça-feira (6) e no sábado, a primeira semifinal e a final do Festival da Eurovisão com um evento especial em que iremos assistir ao espetáculo em conjunto com todos os que quiserem aparecer, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de LisboaFica a conhecer o evento e confirma presença!