Este mês o Espalha-Factos apresenta-te a rubrica “Artistas Contemporâneos”. Desde o surrealismo à arte conceptual, passando pela arte multimédia e até pela land art, damos-te a conhecer artistas cujo trabalho te irá certamente fascinar.

Sandy Skoglund, artista americana, nasceu em 1946. Com uma imensa abrangência artística, Skoglund serve-se de materiais por vezes improváveis, como comida, para criar instalações ou imagens capazes de captar – e intrigar – o olhar de qualquer um.

Esta pode ser considerada uma artista de extremos pois ou utiliza cores extremamente vibrantes, que geram um contraste intenso e avassalador, ou um simples esquema monocromático. Cria mundos surrealistas através da construção complexa de instalaçõess ou quadros, que preenche com cores seleccionadas com precisão, mobília e outros objectos. No final deste elaborado processo, que leva meses a ser completado, são adicionados actores ou personagens que nele se inserem, sendo finalmente fotografado o cenário num todo.

Skoglund parece querer contar uma história através das suas idealizações materializadas. O seu estilo arrojado leva-nos talvez a encontrar certas semelhanças com a atmosfera criada pelos padrões da aclamada artista japonesa Yayoi Kusama, exactamente pela explosão de cor que parece proveniente de uma grande trip de ácidos. Contudo, diverge no seu aspecto surreal que contrasta com os universos pop-art abstractos de Kusama.

Por outro lado, a forma como temos de observar atentamente as suas instalações de modo a captar cada detalhe que as constituem, como por exemplo berlindes ou doces no caso apresentado em baixo intitulado Shimmering Madness (Loucura Cintilante), leva-nos até a conseguir criar uma ponte com o trabalho de Vik Muniz, artista brasileiro célebre exactamente pela utilização de um vasto leque de materiais nas suas obras.

O próprio percurso académico de Skogland é extremamente diverso, apesar de sempre incluído no sector cultural. Os seus estudos incluem História da Arte, Cinema, Arte Multimédia e Pintura. Foi em 1972 que começou a trabalhar como artista conceptual em Nova Iorque. Nessa altura, ao interessar-se por documentar os seus esforços artísticos, desenvolveu-se de forma empírica o seu interesse por fotografia.

Os padrões repetitivos que caracterizam a sua obra começam também a surgir nesta altura, tendo sido em 1978 que esta produziu uma série de repetitivas imagens de comida. Milho, bolos ou cenouras cortadas em cubos, são colocadas sobre uma realidade contrastante que desafia a percepção normal que teríamos destes alimentos.

“Usei o tema da comida como meio de criar uma linguagem comum. Afinal de contas, toda a gente come. Assim, o meu objectivo em utilizar comida foi primeiramente o de criar uma conexão com o espectador.”, afirma Sandy.

A artista voltou a realizar mais trabalhos com comida, como é o caso de The Cocktail Party (A festa de Cocktail), em que se serve de cheetos para retratar hábitos sociais da classe média em tons de laranja.

Um dos seus mais aclamado trabalhos, intitulado Radioactive Cats (Gatos Radioactivos), apresenta gatos feitos de barro e pintados de verde, a movimentar-se freneticamente numa cozinha cinzenta. Um senhor de idade encontra-se sentado numa cadeira enquanto a sua mulher procura algo no frigorífico, tingido da mesma cor das paredes.

Outra instalação extremamente conhecida, intitulada Fox Games (Jogos de Raposas), contém uma atmosfera semelhante a Radioactive Cats. Desta vez observamos múltiplas raposas, coloridas com vermelho vivo, que aparentem ter como que invadido um restaurante. Curiosamente, os clientes presentes no enquadramento aparentam nem sequer se aperceber do que os rodeia.

Já no caso de Revenge of the Goldfish (Vingança dos Peixes-Dourados), é possível observar um elevado número de peixes pairando sobre a cama de dois indivíduos pela noite dentro.

Finalmente, Skoglund foi professora de arte na Universidade de Hartford entre os anos de 1973 e 1976. Neste momento ensina fotografia e arte de instalação e multimédia na Universidade Rutgers em Nova Jersey. O seu trabalho está presente em inúmeras colecções, incluído a do Dayton Art Institute, do Museum of Contemporary Photography e do San Francisco Museum of Modern Art.

Recentemente, Sandy completou uma série intitulada True Fiction Two, meticulosamente concebida para assimilar todas as possibilidades visuais e fotográficas presentes no processamento digital. Assim, cada imagem conta com cores alteradas e uma intensificação no detalhe. Este projecto é semelhante a True Fiction que Skoglund iniciou em 1986 mas foi impossibilitada de terminar devido à produção de materiais de transferência de corantes, necessários à continuidade do mesmo, ter sido cancelada pela Kodak.

Sandy Skoglund encontra harmonia em telas caóticas e fá-lo transportando-nos para um universo alternativo onde a imaginação é rainha e a palavra “aborrecimento” não consta no dicionário. Dá-nos a conhecer o seu mundo interior e arranca-o das suas entranhas com uma suavidade e agressividade que se complementam sem esforço. Isto porque o seu trabalho é exactamente isso, toda uma mistura controlada. Um contraste que esconde uma ordem e minúcia previamente idealizadas sob a alma antiga de uma criança que nunca se permitiu deixar de sonhar.

*Este artigo foi escrito, por opção da autora, segundo as normas do acordo ortográfico de 1945