O IndieLisboa caminha para o seu fim, mas teve ainda tempo de nos mostrar a vida de uma forma original, olhando cuidadosamente para os espaços que habitamos e que nos parecem à primeira vista colossos impessoais, ou mostrando como um formato antigo pode transbordar de vida, nostalgia e sonho.

Gare du Nord 8/10

Claire Simon é a heroína independente deste IndieLisboa, inaugurando o regresso desta secção após interrupção por constrangimentos orçamentais. Gare du Nord foi precisamente o filme de abertura deste IndieLisboa, viajando com Geographie Humaine, documentário rodado previamente.

Uma das premissas base deste filme é que o mundo inteiro cabe na enorme gare labiríntica de Paris norte. E durante os 121 minutos em que nela mergulhamos, é-nos dado o prometido, o mundo.

Gare du Nord, seguindo a fórmula de Simon, é um filme sobre um sítio, não assentando numa construção ou ideia de argumento prévia que não a fantástica escolha de local. É ao encontro da vida na gare que a realizadora parte, utilizando aquilo que vê e sente para escolher o que filmar, para criar a sua história que se mistura com a gare, e com todas as outras histórias que a habitam.

Gare du Nord

Ismaël (Reda Kateb) é um estudante de sociologia na Sorbonne que está na Gare du Nord em busca de material para a sua tese (sobre a vida na própria gare), e encontra Mathilde (Nicole Garcia), professora universitária de história a meio de um tratamento de quimioterapia. Mathilde, inicialmente relutante em se aproximar, ganha um intenso interesse em Ismaël e na vida dos caleidoscópicos “habitantes” daquele local. Os dois partem então à descoberta dos habitantes da gare e um do outro.

O mundo flui em cada encontro casual de Ismaël com aqueles que conhece e com os quais conversa dia após dia. As histórias dos que trabalham e passam na gare são fascinantes e tornam rico um filme que apenas peca por explorar demasiado dois ou três subplots, que embora interessantes nos acabam por desviar da caminhada sociológica vertiginosa que é Gare du Nord, quebrando ligeiramente o ritmo do filme.

 

Quand je serai dictateur 8,5/10

Super8 devia ser o nome do meio deste IndieLisboa. Em vários momentos os realizadores dos filmes apresentados na competição do Indie decidiram recorrer a este formato por várias razões, mas nenhum como Yaël André em Quand je serai dictateur.

Utilizando mais de 100 horas de fita principalmente no formato super8, parte gravados pela realizadora belga ao longo do tempo, e outra parte recolhida um pouco por todo o lado, este material é hoje em dia vendido ao desbarato em feiras, ou destruído.

Em muitas destas fitas e bobines encontram-se fragmentos das vidas de pessoas já anónimas, imagens de um passado feliz de pessoas sem história. É difícil descrever o encanto comovente que estas imagens provocam em quem as vê numa sala escura, em frente a uma tela. Estes fragmentos foram montados de forma a ilustrarem uma homenagem singela e enternecedora da realizadora a um amigo que partiu.

http://vimeo.com/75013249

A imaginação da realizadora é prodigiosa e cria um filme que é uma representação fiel do que é realmente sonhar. A narração, certeira e com um tom singular, assim como a música, de composição simples e eficaz, levam-nos por um mundo encantado em que são ignoradas as regras do mundo e da vida.

Quantos milhões de universos poderíamos visitar se as regras do tempo pudessem ser quebradas, ou se pudéssemos ser outras pessoas? E em quantos deles estaria ainda vivo Georges…?