O IndieLisboa continua a surpreender. Na competição internacional Je M’Appelle Hmmm… traz-nos a frescura de um olhar diferente sobre o cinema, enquanto a competição nacional revisita velhos fantasmas e velhos estilos ao som do evangelho de João.

Je M’Appelle Hmmm… 8/10

Em qualquer arte, de vez em quando, alguém alheio ao meio ousa olhar para o processo de criação artístico estabelecido com outros olhos, os seus. Vindos de outros sectores da sociedade ou de outras artes, estes artistas geram com as suas obras fortes amores e igualmente importantes ódios, tratando frequentemente o tempo de resolver estas querelas mais ou menos elitistas, mais ou menos pretensiosas.

Então o que acontece quando uma criadora de moda famosa olha para o cinema, alheia às supostas regras que nele se têm imposto até agora?

A resposta é simples, acontecem 121 minutos de explosão estilística, quebrar de convenções e regras, desrespeito (do bom) pelo puritanismo de estilo. Agnès Troublé (Agnès B.) apresenta-nos um cinema sem chavetas, sem classificações e sem fronteiras.

Je M'Appelle Hmmm...

Céline (Lou-Lélia Demerliac), irmã mais velha de três, foi obrigada a crescer rapidamente numa família com um pai desempregado e uma mãe que trabalha o mais que pode para sustentar a família. O pai (Jacques Bonnaffé) abusa sexualmente de Céline quando a mãe está ausente, mergulhando seguidamente em períodos de remorso e alcoolismo.

A protagonista foge numa tentativa de viver a infância que se lhe escapa, entrando no camião de mercadorias de Peter (Douglas Gordon), um camionista escocês sem aparente propósito na vida, no qual encontra um amigo improvável, que a leva na viagem da sua vida.

Je M’Appelle Hmmm… é um encontro entre um road movie ao estilo de Wim Wenders (até no ocasional uso de Super 8) e a simplicidade descomprometida da Nouvelle Vague (Tout va Bien de Godard faz inclusive uma aparição). Rodado ocasionalmente a preto e branco, digital e no já referido Super 8, numa alternância cuidadosamente refletida, assim como maravilhosamente acompanhado por uma magnífica banda sonora, de destacar o uso do salmo Nisi Dominus de Vivaldi, sempre no momento certo.

O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João 3/10

O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João é tão só e apenas uma leitura integral do evangelho de João por Luís Miguel Cintra, que faz um bom trabalho de narração de um dos mais conhecidos evangelhos.

Joaquim Pinto e Nuno Leonel fazem acompanhar estas duas horas de leitura por imagens da natureza envolvente e do próprio narrador enquanto faz a leitura que ouvimos, alternadas com várias sequências de dezenas de minutos em que a tela se encontra simplesmente preta.

O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João

Pouco mais há a dizer sobre este filme, que apenas poderá pretender dizer algo a quem encontre um significado profundo na forma como é narrado um texto sobejamente conhecido, algo que acontecerá apenas pontualmente.

A julgar pelo número de pessoas que abandonou o Grande Auditório da Culturgest durante a sessão, poderemos estar a falar de uma minoria muito pouco expressiva, mesmo entre cinéfilos que se deslocaram a esta, entre tantas outras sessões, do IndieLisboa.